Oito anos de degustação
“Os pedágios da corrupção política e da falta de educação e formação de boa parte da sociedade brasileira são os dois fatores mais graves que permanecem ao final da era Lula. Aqui, ele não pode abrir a boca para dizer que 'nunca antes na história do país' mudanças foram produzidas"
Rudolfo Lago*
Certamente, há um bocado de complexidade na administração de um país grande, com uma imensa falta de uniformidade social, com quistos como os provocados pelo crime organizado no Rio de Janeiro especialmente, com um sistema de educação considerado um dos piores do mundo, com taxa de corrupção altíssima, etc, etc, como o Brasil. Mas o presidente Lula, ao fazer um balanço da sua passagem pelo cargo, conclui que lidar com todos esses problemas foi “gostoso até demais”.
E deve ter sido “gostoso até demais” mesmo. Com uma popularidade de mais de 80%, nunca vista no final de um governo, elegendo como sua sucessora alguém até então desconhecida do mundo político, com recordes na taxa de pleno emprego, economia estabilizada e inclusão social nunca vista, Lula tem mesmo razão de concluir seu mandato satisfeito.
E é evidente a percepção de como ele se sentiu à vontade no posto. Morar num palácio, conversar de igual para igual com os principais governantes do mundo, voar no Aerolula. Lula viveu tudo isso com muito prazer. E não é verdade dizer que qualquer um assim faria. Para citar um exemplo, Itamar Franco sempre pareceu alguém pouco à vontade no posto. Quem o acompanhou como presidente sabe. Itamar fugia da segurança para ir ao shopping de Fusca com a namorada. Passou dois anos insistindo em levar uma vida de pessoa comum que o cargo lhe negava. Ou seja: do ponto de vista da rotina presidencial, das benesses e das obrigações, o que para Lula foi uma delícia, pode ter sido um tanto quanto penoso para Itamar.
A isso se soma a compensação pelas respostas dadas pelas ruas, seja na percepção da sua popularidade, seja nas urnas que elegerem Dilma. Mas, voltando aos problemas listados lá no primeiro parágrafo, a gente sabe que, apesar dos avanços, as complexidades brasileiras continuam fazendo vítimas diárias. E Lula, com a sensibilidade que certamente tem, deve sair sabendo que seus oito anos de mandato não resolveram todos os problemas brasileiros. Ao final do “gostoso até demais”, é o gostinho amargo que fica desses oito anos de degustação. Talvez resida aí o maior desafio que terá Dilma Rousseff: quando Lula deixar a Presidência, e o país sair da sombra provocada pela sua imensa e popular presença, é possível que aflorem de forma mais visível os nossos problemas, e a perspectiva de que temos de enfrentá-los.
Muitos balanços da era Lula foram publicados nos últimos dias. Assim, sem a pretensão da originalidade, vamos a mais um deles aqui. A diferença será avaliar o impacto do que houve de positivo e negativo na perspectiva da ausência de Lula no poder.
Estabilidade econômica – Quando conversamos com investidores, embaixadores ou outros agentes estrangeiros que atuam no Brasil, há sempre um ponto em comum na impressão deles. Todos consideram que o país tornou-se um porto confiável para investimentos. Cumpre as regras do mercado e não está disposto a fazer loucuras. Ou seja: lucra cada vez mais como opção de investimentos externos, e sabe que a contrapartida exigida é que nenhuma guinada haverá na condução da economia. Antes das eleições, em conversas com diplomatas espanhóis e portugueses, eles diziam ter absoluta certeza de que nada mudaria vencesse as eleições Dilma ou José Serra. Assim como Lula manteve os pressupostos de política econômica que Fernando Henrique Cardoso já mantinha, assim fará Dilma. Esse é um ponto da vida brasileira que entrou no automático.
Desenvolvimento e política social – É aqui que está o pulo do gato da era Lula, onde seu governo diferenciou-se de Fernando Henrique e onde garantiu as altíssimas taxas de popularidade que conquistou. Até Fernando Henrique, o controle da inflação e da estabilidade econômica era feito com uma imensa contenção do crédito e do consumo. Evitava-se o avanço de novas camadas da sociedade ao mercado porque se acreditava que isso faria a inflação estourar e que se perderia o controle. Lula apostou na certeza de que deveria facilitar o crédito e melhorar as condições das populações de baixa renda com a ampliação dos programas sociais. Com isso, incrementou fortemente o mercado interno. Quando estourou a crise mundial, o país estava menos dependente dos mercados externos. O Brasil assim escapou da crise. E a imensa satisfação das camadas mais pobres que antes não tinham acesso ao consumo transformou Lula nesse fenômeno de popularidade.
Política externa – Ser chamado pelo presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, de “o cara” está longe de ter sido uma brincadeira gratuita. A política externa de Lula foi um dos pontos mais coerentes e que seguiu sem maiores correções de rumo desde o início. Apoiou-se em dois pontos, e, de um modo geral, mostrou-se adequado em ambos. Em primeiro lugar, partiu do pressuposto de que as mudanças que aconteciam no eixo econômico do mundo abriam espaço para a construção de novas parcerias das quais o Brasil poderia se tornar protagonista. Assim, aproximou-se da China, da Índia. Criou os Brics (o conjunto que hoje forma com outros países emergentes na economia – Rússia, China, Índia, e, agora, a África do Sul). Firmou parcerias firmes com a França. Assim, ganhou musculatura para o segundo ponto: exercer um papel maior de protagonista nos debates internacionais. Nesse ponto, pode ter falhado em moderar as críticas ao Irã ou à Venezuela. Mas é inegável que o Brasil hoje tem opiniões mais respeitadas no plano internacional.
Educação – Lula talvez não tenha se dado conta do imenso impacto negativo da imagem que passava de homem que se fez por si mesmo, sem escola, sem educação formal. Esqueceu-se que era um fenômeno difícil de se repetir. A identificação que gerou nas pessoas com origem semelhante à sua tinha chance quase zero de se repetir nas suas trajetórias, num mundo com cada vez menos espaço para os trabalhos braçais e não especializados. Dentre os países do grupo emergente do qual faz parte, o Brasil tem hoje índices iguais de potencial econômico, mas índices vergonhosamente inferiores quando se verifica a educação de seu povo. Analfabetismo, escolas precárias, baixa formação. Quando o país perceber que não há espaço para um segundo Lula, já terá perdido a batalha para os outros países no futuro.
Corrupção e formação política – Ao avaliar o ministério que formou, que não consegue agradar nem a ela, Dilma provavelmente percebe o tamanho do ônus que vem da escolha de não tentar alterar a prática política. Lula elegeu-se em 2002 centrando o discurso da sua campanha na promessa de uma alteração profunda no plano da ética nas relações políticas. A propaganda do governo é incapaz de esconder que, nesse ponto, a era Lula falhou de forma retumbante. A popularidade de Lula poderia ter estabelecido um pacto com a sociedade, no qual o governo poderia propor um programa de mudanças e impor ao Congresso essa agenda. Se a população apoiasse o programa, o Congresso acabaria, sem alternativa, por encampá-lo. Como nunca houve com clareza tal agenda, o caminho seguido foi o mesmo de sempre: conquistar a qualquer preço a maioria, e essa maioria, satisfeita com as contrapartidas em cargos e em verbas, aprovaria o que lhe fosse pedido. O resultado foram os vários escândalos surgidos. Em muitos momentos, Lula viu-se apenas na condição de defensor de biografias que os escândalos manchavam. Fez assim com José Sarney, com Renan Calheiros, com Jader Barbalho. Chegou ao cúmulo ao afagar Fernando Collor, um presidente que ajudou a derrubar e que tinha feito o mais feio e pesado dos jogos para derrotá-lo em 1989. Difícil conseguir conciliar tal perdão com coerência ou retidão de caráter.
O ministério que tomará posse com Dilma no sábado é só o fruto mais recente das consequências de tal relação política. E é nesse ponto que o Brasil, após os oito anos de degustação da era Lula, talvez mais perca. É evidente que ministros políticos que nada entendem das pastas que ocupam terão menos capacidade de fazer evoluir os setores que ficam sob suas responsabilidades. É evidente que o país perde quando parte das verbas públicas precisa atender aos interesses políticos dos aliados (para dizer o mínimo), pulverizadas nas emendas individuais ao orçamento. Que são, de acordo com as palavras do próprio ministro da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, os principais fatores de desvio e corrupção com o dinheiro público.
Os pedágios da corrupção política e da falta de educação e formação de boa parte da sociedade brasileira são os dois fatores mais graves que permanecem ao final da era Lula. Aqui, ele não pode abrir a boca para dizer que “nunca antes na história do país” mudanças foram produzidas.
*É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, Rudolfo Lago atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultaram na cassação do senador Luiz Estevão
Outros textos do colunista Rudolfo Lago*
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Réveillon de Dilma será para íntimos
Rudolfo Lago
Às vésperas da sua posse como presidenta, Dilma Rousseff fará um réveillon apenas para a família e amigos mais íntimos na Granja do Torto. O presidente Lula e sua mulher, Marisa, foram convidados, mas ainda não confirmaram presença. Além de Lula e Marisa, Dilma pretende passar o Ano Novo com sua família: a mãe, também Dilma, a tia Arilda, sua filha Paula (com o marido, Rafael), e o neto da presidenta, Gabriel.
No dia seguinte, 1º de janeiro de 2011, Dilma tomará posse. Os organizadores esperam a presença de 20 mil pessoas na festa. Na Catedral de Brasília, Dilma embarcará no Rolls Royce Silver Wraith, de 1953, um carro só utilizado em ocasiões especiais. No carro conversível, Dilma desfilará pela Esplanada dos Ministérios, acompanhada de dois caveleiros da guarda dos Dragões da Independência, até o Congresso Nacional, onde será empossada presidenta pelo congresso Nacional. O vice-presidente Michel Temer seguirá em outro veículo, atrás de Dilma.
Fonte: Congresso em Foco
Rudolfo Lago
Às vésperas da sua posse como presidenta, Dilma Rousseff fará um réveillon apenas para a família e amigos mais íntimos na Granja do Torto. O presidente Lula e sua mulher, Marisa, foram convidados, mas ainda não confirmaram presença. Além de Lula e Marisa, Dilma pretende passar o Ano Novo com sua família: a mãe, também Dilma, a tia Arilda, sua filha Paula (com o marido, Rafael), e o neto da presidenta, Gabriel.
No dia seguinte, 1º de janeiro de 2011, Dilma tomará posse. Os organizadores esperam a presença de 20 mil pessoas na festa. Na Catedral de Brasília, Dilma embarcará no Rolls Royce Silver Wraith, de 1953, um carro só utilizado em ocasiões especiais. No carro conversível, Dilma desfilará pela Esplanada dos Ministérios, acompanhada de dois caveleiros da guarda dos Dragões da Independência, até o Congresso Nacional, onde será empossada presidenta pelo congresso Nacional. O vice-presidente Michel Temer seguirá em outro veículo, atrás de Dilma.
Fonte: Congresso em Foco
Lula elogia Dilma e descarta abandonar política com fim do mandato
DE SÃO PAULO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou nesta terça-feira, em sua coluna semanal, sua sucessora, Dilma Rousseff, e descartou abandonar a política com o fim de seu mandato. Segundo Lula, a maior surpresa que o Brasil terá com o governo Dilma será "em relação à sua capacidade de comandar, de produzir, de fazer as coisas andarem, de fazer acontecer".
"Ela já demonstrou isso ao longo de meus dois mandatos e, se o governo tem hoje altíssimos índices de popularidade, uma boa parcela dessa aceitação se deve ao que ela nos ajudou a realizar. Aliás, Dilma já surpreendeu muita gente ao participar de um processo que nunca tinha vivido antes --a disputa eleitoral-- e se tornar vitoriosa. Era um campo absolutamente novo, pelo qual ela nunca tinha passado e, no entanto, superou concorrentes de grande experiência, que tinham se dedicado a fazer política durante toda a vida. Ela tem uma grande capacidade de aprender e de se adaptar a situações novas e extraordinárias. Sua fibra é impressionante."
O presidente ainda citou os obstáculos que a petista enfrentou até chegar à Presidência. "Ainda jovem, enquanto muita gente se recolhia ou se dobrava, ela teve a coragem de colocar a vida em risco e enfrentar a ditadura e as torturas. Mais recentemente enfrentou e venceu um inimigo ainda mais perigoso e traiçoeiro, o câncer. Nós temos, felizmente, à frente dos destinos do nosso país uma pessoa preparada para vencer os mais diferentes desafios. Inclusive o principal, que é fazer mais e melhor do que foi feito nestes últimos oito anos."
Lula afirmou que não irá deixar a política. "Deixar de fazer política, para mim, seria o mesmo que deixar de me alimentar ou respirar. Não, essa hipótese de abandonar a política não existe. Eu não posso jogar pela janela a experiência acumulada de fazer um governo que é considerado muito bem-sucedido. Quero levar a países pobres, da América Latina e da África, os modelos que nós construímos de combinar o crescimento econômico com políticas eficazes de transferência de renda. Sinto-me com bastante energia para continuar atuando no sentido de contribuir para a construção de nações prósperas, com povos que vivam em liberdade e com justiça social."
Ele prometeu atuar dentro do PT e em aliança com vários outros para viabilizar as reformas política e tributária. "Essas são questões urgentes e mais afetas aos partidos e ao Congresso do que ao governo federal. Pretendo ainda viajar por esse país, repetindo, de certa maneira, as caravanas da cidadania realizadas entre 1991 e 1994, quando percorri 91 mil quilômetros de Brasil. Quero verificar o que nós construímos nestes oito anos de mandato, divulgar o que é pouco divulgado, mostrar esse novo Brasil pujante, de gente que passou a se alimentar, que foi integrada à cidadania, esse Brasil que acredita no amanhã."
Fonte: Folha/SP
DE SÃO PAULO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou nesta terça-feira, em sua coluna semanal, sua sucessora, Dilma Rousseff, e descartou abandonar a política com o fim de seu mandato. Segundo Lula, a maior surpresa que o Brasil terá com o governo Dilma será "em relação à sua capacidade de comandar, de produzir, de fazer as coisas andarem, de fazer acontecer".
"Ela já demonstrou isso ao longo de meus dois mandatos e, se o governo tem hoje altíssimos índices de popularidade, uma boa parcela dessa aceitação se deve ao que ela nos ajudou a realizar. Aliás, Dilma já surpreendeu muita gente ao participar de um processo que nunca tinha vivido antes --a disputa eleitoral-- e se tornar vitoriosa. Era um campo absolutamente novo, pelo qual ela nunca tinha passado e, no entanto, superou concorrentes de grande experiência, que tinham se dedicado a fazer política durante toda a vida. Ela tem uma grande capacidade de aprender e de se adaptar a situações novas e extraordinárias. Sua fibra é impressionante."
O presidente ainda citou os obstáculos que a petista enfrentou até chegar à Presidência. "Ainda jovem, enquanto muita gente se recolhia ou se dobrava, ela teve a coragem de colocar a vida em risco e enfrentar a ditadura e as torturas. Mais recentemente enfrentou e venceu um inimigo ainda mais perigoso e traiçoeiro, o câncer. Nós temos, felizmente, à frente dos destinos do nosso país uma pessoa preparada para vencer os mais diferentes desafios. Inclusive o principal, que é fazer mais e melhor do que foi feito nestes últimos oito anos."
Lula afirmou que não irá deixar a política. "Deixar de fazer política, para mim, seria o mesmo que deixar de me alimentar ou respirar. Não, essa hipótese de abandonar a política não existe. Eu não posso jogar pela janela a experiência acumulada de fazer um governo que é considerado muito bem-sucedido. Quero levar a países pobres, da América Latina e da África, os modelos que nós construímos de combinar o crescimento econômico com políticas eficazes de transferência de renda. Sinto-me com bastante energia para continuar atuando no sentido de contribuir para a construção de nações prósperas, com povos que vivam em liberdade e com justiça social."
Ele prometeu atuar dentro do PT e em aliança com vários outros para viabilizar as reformas política e tributária. "Essas são questões urgentes e mais afetas aos partidos e ao Congresso do que ao governo federal. Pretendo ainda viajar por esse país, repetindo, de certa maneira, as caravanas da cidadania realizadas entre 1991 e 1994, quando percorri 91 mil quilômetros de Brasil. Quero verificar o que nós construímos nestes oito anos de mandato, divulgar o que é pouco divulgado, mostrar esse novo Brasil pujante, de gente que passou a se alimentar, que foi integrada à cidadania, esse Brasil que acredita no amanhã."
Fonte: Folha/SP
COMO SUPORTAR O VAZIO?
Carlos Chagas
Declarou o presidente Lula, ontem, no seu programa semanal de rádio, que governar foi gostoso demais. Depois, no café da manhã com os repórteres credenciados no palácio do Planalto, repetiu a mesma coisa. Tratou-se de um lamento.
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É natural que o Lula venha a sentir-se como peixe fora d’água a partir do próximo sábado. Feliz, mas desconfortável. Não se livrará tão cedo do assédio da imprensa, muito menos dos correligionários, dos curiosos e dos chatos. Só que não terá o que fazer, ao menos nos primeiros tempos. Se vai percorrer o país como presidente de honra do PT, é fácil falar mas difícil de realizar. Parece que desistiu de criar uma fundação com o seu nome, endereço, telefone e escritório. Para o exterior, em férias, não irá, ainda que possa passar não mais do que duas semanas numa praia do Nordeste ou numa fazenda do Pantanal.�
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Problemas financeiros não terá. Além da aposentadoria de ex-presidente da República, conseguiu economizar bastante os proventos dos últimos oito anos. Mas como preencher o vazio?
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Nessa hora, a saída para o Lula será seguir o exemplo de Juscelino Kubitschek, sem necessidade de eleger-se senador em eleições suplementares, já que seus adversários não estarão fazendo-o de alvo. Mas preparar a volta ao poder será a solução. Só que com um problema: JK viu-se sucedido por um quase desafeto. Nenhum compromisso tinha com Jânio Quadros e, assim, estabeleceu uma espécie de confronto com ele. Logo depois, com João Goulart, recusou maiores aproximações, sustentando cada vez mais a volta em 1965. Tinha até escritório eleitoral, ainda em 1962. Os fados desarrumaram tudo. Depois de cassado pelo movimento militar, aliás, injustamente, comeu o pão que o diabo amassou.
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O ainda presidente elegeu a sucessora, não poderá mostrar-se como alternativa para quem promete dar continuidade às suas realizações. Até tem declarado que Dilma Rousseff tem direito à reeleição. Mas se não preencher o futuro com sua candidatura a retornar ao poder, dificilmente suportará o vazio.�
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SAPOS E URUBUS
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Dilma Rousseff engoliu montes de sapos, ao constituir seu ministério. Convidou quem não conhecia, talvez até quem não queria, em nome da harmonia em sua base partidária. Adiantou?
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De jeito nenhum, porque no PT, no PMDB, no PSB e penduricalhos, registram-se amuos, idiossincrasias e até ameaças por parte dos descontentes. Dos frustrados pela impossibilidade de terem sido escolhidos ou de emplacar representantes dos diversos grupos em que se dividem as legendas.
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Por enquanto as escaramuças não se transformaram em guerrilha, já que falta preencher centenas de cargos no segundo escalão, em cima dos quais os urubus continuam voando. Mas será questão de tempo até que os ressentidos mostrem garras e presas.
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Muita gente diz que melhor teria feito a presidente eleita se compusesse o ministério de seus sonhos, sem interferências partidárias. Poderia ter sido pior, no caso, mas não adianta lamentar o leite derramado. A partir de sua posse, ela terá condições de demonstrar a inocuidade das pressões recebidas, enquadrando em especial os ministros caídos de paraquedas em seu governo. Bem como de demonstrar ao Congresso quem manda no país. Convém aguardar.
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NADA DE CONSTITUINTE EXCLUSIVA
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Aguarda-se a apresentação do plano de governo de Dilma Rousseff, capaz de ser esboçado em seu discurso de posse, mas, certamente, só divulgado em detalhes nos dias seguintes.
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Dos muitos balões de ensaio verificados durante a campanha e até agora, alguns murcharam, como o da criação dos ministérios da Pequena e Média Empresa, dos Aeroportos e até da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016.
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Uma proposta, porém, além de murchar, lambeu, quer dizer, pegou fogo sem deixar sequer as cinzas: o novo governo não proporá e nem apoiará a tese da Constituinte Exclusiva para a realização da reforma política. Caberá ao Congresso, se quiser e se puder, promover as mudanças necessárias nas instituições eleitorais e partidárias.
Dilma não cruzará os braços, como fizeram Fernando Henrique e o próprio Lula. Terá opiniões a transmitir e a defender no Legislativo, através de seus líderes. Não apoiará, no entanto, essa esdrúxula proposta da eleição de constituintes encarregados apenas de promover o elenco de alterações necessárias ao bom funcionamento das instituições políticas. Seria embaralhar atribuições.
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OS LÍDERES DO GOVERNO
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Nessa briga de foice em quarto escuro pelas vagas de ministro e de candidatos ao segundo escalão, pouco ou nada se tem falado a respeito de quem Dilma Rousseff escolherá para líderes do governo na Câmara e no Senado. Como o novo Congresso só se instala em fevereiro, sendo janeiro mês de recesso, é possível que tudo continue como está.
Sem dúvidas, a nova presidente consultará o vice Michel Temer, os presidentes dos partidos da base oficial e os ministros mais diretamente ligados às questões políticas. Uma coisa, porém, parece certa: Romero Jucá não continuará no Senado. Para bom entendedor…
Carlos Chagas
Declarou o presidente Lula, ontem, no seu programa semanal de rádio, que governar foi gostoso demais. Depois, no café da manhã com os repórteres credenciados no palácio do Planalto, repetiu a mesma coisa. Tratou-se de um lamento.
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É natural que o Lula venha a sentir-se como peixe fora d’água a partir do próximo sábado. Feliz, mas desconfortável. Não se livrará tão cedo do assédio da imprensa, muito menos dos correligionários, dos curiosos e dos chatos. Só que não terá o que fazer, ao menos nos primeiros tempos. Se vai percorrer o país como presidente de honra do PT, é fácil falar mas difícil de realizar. Parece que desistiu de criar uma fundação com o seu nome, endereço, telefone e escritório. Para o exterior, em férias, não irá, ainda que possa passar não mais do que duas semanas numa praia do Nordeste ou numa fazenda do Pantanal.�
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Problemas financeiros não terá. Além da aposentadoria de ex-presidente da República, conseguiu economizar bastante os proventos dos últimos oito anos. Mas como preencher o vazio?
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Nessa hora, a saída para o Lula será seguir o exemplo de Juscelino Kubitschek, sem necessidade de eleger-se senador em eleições suplementares, já que seus adversários não estarão fazendo-o de alvo. Mas preparar a volta ao poder será a solução. Só que com um problema: JK viu-se sucedido por um quase desafeto. Nenhum compromisso tinha com Jânio Quadros e, assim, estabeleceu uma espécie de confronto com ele. Logo depois, com João Goulart, recusou maiores aproximações, sustentando cada vez mais a volta em 1965. Tinha até escritório eleitoral, ainda em 1962. Os fados desarrumaram tudo. Depois de cassado pelo movimento militar, aliás, injustamente, comeu o pão que o diabo amassou.
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O ainda presidente elegeu a sucessora, não poderá mostrar-se como alternativa para quem promete dar continuidade às suas realizações. Até tem declarado que Dilma Rousseff tem direito à reeleição. Mas se não preencher o futuro com sua candidatura a retornar ao poder, dificilmente suportará o vazio.�
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SAPOS E URUBUS
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Dilma Rousseff engoliu montes de sapos, ao constituir seu ministério. Convidou quem não conhecia, talvez até quem não queria, em nome da harmonia em sua base partidária. Adiantou?
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De jeito nenhum, porque no PT, no PMDB, no PSB e penduricalhos, registram-se amuos, idiossincrasias e até ameaças por parte dos descontentes. Dos frustrados pela impossibilidade de terem sido escolhidos ou de emplacar representantes dos diversos grupos em que se dividem as legendas.
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Por enquanto as escaramuças não se transformaram em guerrilha, já que falta preencher centenas de cargos no segundo escalão, em cima dos quais os urubus continuam voando. Mas será questão de tempo até que os ressentidos mostrem garras e presas.
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Muita gente diz que melhor teria feito a presidente eleita se compusesse o ministério de seus sonhos, sem interferências partidárias. Poderia ter sido pior, no caso, mas não adianta lamentar o leite derramado. A partir de sua posse, ela terá condições de demonstrar a inocuidade das pressões recebidas, enquadrando em especial os ministros caídos de paraquedas em seu governo. Bem como de demonstrar ao Congresso quem manda no país. Convém aguardar.
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NADA DE CONSTITUINTE EXCLUSIVA
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Aguarda-se a apresentação do plano de governo de Dilma Rousseff, capaz de ser esboçado em seu discurso de posse, mas, certamente, só divulgado em detalhes nos dias seguintes.
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Dos muitos balões de ensaio verificados durante a campanha e até agora, alguns murcharam, como o da criação dos ministérios da Pequena e Média Empresa, dos Aeroportos e até da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016.
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Uma proposta, porém, além de murchar, lambeu, quer dizer, pegou fogo sem deixar sequer as cinzas: o novo governo não proporá e nem apoiará a tese da Constituinte Exclusiva para a realização da reforma política. Caberá ao Congresso, se quiser e se puder, promover as mudanças necessárias nas instituições eleitorais e partidárias.
Dilma não cruzará os braços, como fizeram Fernando Henrique e o próprio Lula. Terá opiniões a transmitir e a defender no Legislativo, através de seus líderes. Não apoiará, no entanto, essa esdrúxula proposta da eleição de constituintes encarregados apenas de promover o elenco de alterações necessárias ao bom funcionamento das instituições políticas. Seria embaralhar atribuições.
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OS LÍDERES DO GOVERNO
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Nessa briga de foice em quarto escuro pelas vagas de ministro e de candidatos ao segundo escalão, pouco ou nada se tem falado a respeito de quem Dilma Rousseff escolherá para líderes do governo na Câmara e no Senado. Como o novo Congresso só se instala em fevereiro, sendo janeiro mês de recesso, é possível que tudo continue como está.
Sem dúvidas, a nova presidente consultará o vice Michel Temer, os presidentes dos partidos da base oficial e os ministros mais diretamente ligados às questões políticas. Uma coisa, porém, parece certa: Romero Jucá não continuará no Senado. Para bom entendedor…
Política
Coisas públicas
Do blog de Daniel Piza
Uma das coisas curiosas nesses oito anos de governo Lula foi a ginástica verbal que aqueles que se dizem "de esquerda", que durante duas décadas sonharam com a chegada da classe operária ao Planalto, fazem para justificar os elogios a um tipo de gestão que tanto condenavam.
Lula manteve o modelo econômico do antecessor, que antes classificava erroneamente de "neoliberal", em todos os aspectos: meta de inflação, câmbio livre, reservas financeiras, estímulos ao consumo, juros relativos entre os maiores do mundo, busca de graus melhores nas agências de risco; nenhuma privatização cancelada ou sequer investigada, e até alguns bancos estatais vendidos.
Estatizações? Poucas. Reforma agrária? Longe disso. Protecionismo maior? Não, mesmo com aumento do déficit externo. Transferência de renda? Os ricos nunca estiveram tão ricos. Leia mais em Coisas públicas
Blog do Noblat
Coisas públicas
Do blog de Daniel Piza
Uma das coisas curiosas nesses oito anos de governo Lula foi a ginástica verbal que aqueles que se dizem "de esquerda", que durante duas décadas sonharam com a chegada da classe operária ao Planalto, fazem para justificar os elogios a um tipo de gestão que tanto condenavam.
Lula manteve o modelo econômico do antecessor, que antes classificava erroneamente de "neoliberal", em todos os aspectos: meta de inflação, câmbio livre, reservas financeiras, estímulos ao consumo, juros relativos entre os maiores do mundo, busca de graus melhores nas agências de risco; nenhuma privatização cancelada ou sequer investigada, e até alguns bancos estatais vendidos.
Estatizações? Poucas. Reforma agrária? Longe disso. Protecionismo maior? Não, mesmo com aumento do déficit externo. Transferência de renda? Os ricos nunca estiveram tão ricos. Leia mais em Coisas públicas
Blog do Noblat
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Aumentar ou reduzir o consumo?
Carlos Chagas
Mestre Hélio Fernandes, mais uma vez, acertou na mosca: para evitar a crise, Barack Obama colocou mais 600 bilhões de dólares no mercado. Pelos mesmo motivos, Henrique Meirelles tirou de circulação 61 bilhões de reais. Lá, a estratégia é aumentar o consumo. Aqui, reduzi-lo.
Some-se à nossa política restritiva as sucessivas ameaças de Guido Mantega, que continuará na Fazenda promete cortes nos investimentos, diminuição de gastos públicos essenciais, ajuste fiscal e até a possibilidade de aumento de impostos.
Alguém anda pisando no tomate e, pelo jeito, não é o presidente americano. A principal alegação para a popularidade do presidente Lula repousa na inclusão de milhões de cidadãos na sociedade de consumo. Quem jamais possuiu um fogareiro agora compra fogões, geladeiras, máquinas de lavar e aparelhos de televisão. Muitos que viajavam de trem e de metrô adquiriram automóveis, mesmo usados, em prestações a perder de vista. Os que iam de ônibus vão de avião. Aqueles acostumados a duas refeições por dia fazem três.
Se a estratégia é reduzir o consumo, a redução atingirá primeiro os emergentes. Junto com a impopularidade previsível para o novo governo e a nova presidente da República. Dá para entender?
PREMONIÇÃO
Coincidência ou não, o presidente Lula foi vaiado pelos estudantes da Universidade de Brasília, segunda-feira, ao inaugurar um pavilhão que homenageia a memória de Darcy Ribeiro. A prioridade, para os jovens, era outra, numa instituição que cada dia mais deixa a desejar. Não passou recibo, o primeiro-companheiro, acompanhado do presidente do Uruguai. Sem referir-se aos apupos, ateve-se ao texto do discurso preparado antes, surpreendendo pela falta de seus peculiares improvisos. Raríssimas vezes nos últimos oito anos o Lula recebeu vaias. Estariam os estudantes reagindo às medidas de contenção anunciadas pela equipe econômica de Dilma Rousseff?
CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONTEÚDO
Aferram-se os meios de comunicação na defesa da proibição constitucional de restrições à liberdade de expressão do pensamento. Nada mais justo e necessário. Censura, nunca mais! Anuncia-se estar o poder público, também pela Constituição, buscando mecanismos para evitar excessos e abusos praticados através da mídia. Fala-se numa agência a ser criada, composta e mantida pelo Poder Executivo, com a função de analisar e determinar punições para abusos e excessos. Sempre a posteriori, depois das matérias divulgadas, para não exprimir atentado ao conteúdo jornalístico.
Mas quem garante que depois de sucessivas multas, suspensões e até cassação de concessões, os meios de comunicação não venham a suprimir determinado tipo de matéria descritiva ou opinativa que desagrade aqueles a quem coube aplicar as punições? Estará o conteúdo, então, sofrendo restrições. Solução, mesmo, para evitar o mau uso dos meios de comunicação, só pode estar no Poder Judiciário. Estimular preconceitos de raça, classe ou religião, induzir ao crime, à violência e ao tóxico, contrariar os bons costumes, ofender a honra alheia – tudo isso precisa ser punido, depois de acontecido. Mas apenas por decisão da Justiça.
UM VERBO PERNICIOSO
Volta à moda o verbo “refundar”, aliás, um atentado à semântica. Porque se uma determinada instituição vai ser “refundada”, é porque deixou de existir a que foi “fundada”. A palavra certa seria reformar. Ou então fundar outra instituição.
O raciocínio vale para os partidos políticos, no caso, para o PSDB. Seus líderes, a começar pelos luminares, os portadores de mil diplomas, estão falando em “refundá-lo”. Com todo o respeito, uma bobagem, até porque como seria o novo ninho tucano? Adotaria agora, ou deixaria sair pelo ralo, se já adotada, a social-democracia? No máximo deveriam ser revistos o programa e os estatutos do PSDB, bem como renovada sua direção. Ou, então, programe-se o enterro do partido e providencie-se a troca ornitológica: em vez de tucanos, a Fênix…
Mestre Hélio Fernandes, mais uma vez, acertou na mosca: para evitar a crise, Barack Obama colocou mais 600 bilhões de dólares no mercado. Pelos mesmo motivos, Henrique Meirelles tirou de circulação 61 bilhões de reais. Lá, a estratégia é aumentar o consumo. Aqui, reduzi-lo.
Some-se à nossa política restritiva as sucessivas ameaças de Guido Mantega, que continuará na Fazenda promete cortes nos investimentos, diminuição de gastos públicos essenciais, ajuste fiscal e até a possibilidade de aumento de impostos.
Alguém anda pisando no tomate e, pelo jeito, não é o presidente americano. A principal alegação para a popularidade do presidente Lula repousa na inclusão de milhões de cidadãos na sociedade de consumo. Quem jamais possuiu um fogareiro agora compra fogões, geladeiras, máquinas de lavar e aparelhos de televisão. Muitos que viajavam de trem e de metrô adquiriram automóveis, mesmo usados, em prestações a perder de vista. Os que iam de ônibus vão de avião. Aqueles acostumados a duas refeições por dia fazem três.
Se a estratégia é reduzir o consumo, a redução atingirá primeiro os emergentes. Junto com a impopularidade previsível para o novo governo e a nova presidente da República. Dá para entender?
PREMONIÇÃO
Coincidência ou não, o presidente Lula foi vaiado pelos estudantes da Universidade de Brasília, segunda-feira, ao inaugurar um pavilhão que homenageia a memória de Darcy Ribeiro. A prioridade, para os jovens, era outra, numa instituição que cada dia mais deixa a desejar. Não passou recibo, o primeiro-companheiro, acompanhado do presidente do Uruguai. Sem referir-se aos apupos, ateve-se ao texto do discurso preparado antes, surpreendendo pela falta de seus peculiares improvisos. Raríssimas vezes nos últimos oito anos o Lula recebeu vaias. Estariam os estudantes reagindo às medidas de contenção anunciadas pela equipe econômica de Dilma Rousseff?
CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONTEÚDO
Aferram-se os meios de comunicação na defesa da proibição constitucional de restrições à liberdade de expressão do pensamento. Nada mais justo e necessário. Censura, nunca mais! Anuncia-se estar o poder público, também pela Constituição, buscando mecanismos para evitar excessos e abusos praticados através da mídia. Fala-se numa agência a ser criada, composta e mantida pelo Poder Executivo, com a função de analisar e determinar punições para abusos e excessos. Sempre a posteriori, depois das matérias divulgadas, para não exprimir atentado ao conteúdo jornalístico.
Mas quem garante que depois de sucessivas multas, suspensões e até cassação de concessões, os meios de comunicação não venham a suprimir determinado tipo de matéria descritiva ou opinativa que desagrade aqueles a quem coube aplicar as punições? Estará o conteúdo, então, sofrendo restrições. Solução, mesmo, para evitar o mau uso dos meios de comunicação, só pode estar no Poder Judiciário. Estimular preconceitos de raça, classe ou religião, induzir ao crime, à violência e ao tóxico, contrariar os bons costumes, ofender a honra alheia – tudo isso precisa ser punido, depois de acontecido. Mas apenas por decisão da Justiça.
UM VERBO PERNICIOSO
Volta à moda o verbo “refundar”, aliás, um atentado à semântica. Porque se uma determinada instituição vai ser “refundada”, é porque deixou de existir a que foi “fundada”. A palavra certa seria reformar. Ou então fundar outra instituição.
O raciocínio vale para os partidos políticos, no caso, para o PSDB. Seus líderes, a começar pelos luminares, os portadores de mil diplomas, estão falando em “refundá-lo”. Com todo o respeito, uma bobagem, até porque como seria o novo ninho tucano? Adotaria agora, ou deixaria sair pelo ralo, se já adotada, a social-democracia? No máximo deveriam ser revistos o programa e os estatutos do PSDB, bem como renovada sua direção. Ou, então, programe-se o enterro do partido e providencie-se a troca ornitológica: em vez de tucanos, a Fênix…
Um novo sistema partidário?
"E se todas as fusões partidárias discutidas acontecessem de verdade? Quais seriam as suas consequências práticas?"
Rogério Schmitt*
Dediquei a maior parte da minha carreira acadêmica ao estudo do papel dos partidos no nosso sistema político. Depois que passei a trabalhar com consultoria no setor privado, continuei analisando (ainda mais de perto) a consolidação do sistema partidário brasileiro. Sem falsa modéstia, posso dizer que entendo bem desse assunto. Por isso, não resisti à tentação e resolvi revisitar a questão partidária na atual conjuntura.
Desde o fim das eleições presidenciais, venho acompanhando com bastante interesse as notícias sobre o que seria uma iminente e generalizada reorganização dos nossos partidos políticos. Se todos esses relatos fossem verdadeiros, não sobraria pedra sobre pedra.
O PT poderia incorporar os seus aliados tradicionais (PSB, PDT e PCdoB). Os partidos de oposição (PSDB, DEM e PPS) poderiam se fundir numa única sigla. O PMDB lideraria um "blocão" com outros partidos centristas (PTB, PP, PR e PSC). Alguns chegam até a mencionar uma possível incorporação do DEM ao PMDB. E como poderia me esquecer do emergente bloco parlamentar dos "nanicos" (PRTB, PRP, PTC e PSL)?
Já tenho tempo suficiente de janela para saber que essas notícias sobre fusões e incorporações de partidos são blefes típicos do período que vai da eleição presidencial até a posse do novo governo. Ao longo dessas semanas, o que as legendas estão realmente buscando é aumentar o seu cacife político, seja para participar do governo (no primeiro ou no segundo escalões), seja para influenciar a composição das comissões do Congresso na legislatura seguinte. Na melhor das hipóteses, as supostas fusões acabam se convertendo em meros blocos parlamentares. É como se a montanha parisse um rato.
Portanto, sou extremamente cético em relação à viabilidade do surgimento de um novo sistema partidário - composto por menos partidos e/ou por partidos programaticamente mais homogêneos. Essa não foi a primeira, e certamente não será a última vez, em que o tema frequentará as manchetes dos jornais.
Por outro lado, apesar de todo o meu racionalismo, devo confessar que, desta vez, me permiti usar um pouco mais a minha imaginação. Decidi levar a sério uma hipótese: e se todas essas fusões partidárias acontecessem de verdade? Em outras palavras, quais seriam as suas consequências práticas?
Ao explorar mentalmente essa "realidade alternativa", consegui visualizar a formação de um sistema partidário totalmente novo - composto por duas grandes frentes partidárias. Seria uma espécie de bipartidarismo informal. No campo da centro-esquerda, um bloco liderado pelo PT - ao qual se agregariam os seus aliados tradicionais e mais alguns convidados (PV? PPS?). No campo da centro-direita, um bloco liderado pelo PMDB - e reforçado pelas outras siglas do suposto "blocão" e pelo DEM.
E não é que a coisa até parece fazer algum sentido, inclusive do ponto de vista ideológico? De fato, esses são os dois blocos que darão sustentação ao governo Dilma. E ambos teriam força política suficiente para apresentar candidatos competitivos na eleição presidencial de 2014.
O único problema desse "mundo paralelo" seria em qual dos blocos encaixar o PSDB. Na minha imaginação, tive mais facilidade para enxergar os tucanos caminhando para o lado do bloco petista (de centro-esquerda) do que para o bloco peemedebista (de centro-direita). As lideranças dos dois partidos - ambas surgidas na oposição de esquerda ao regime militar - estariam enfim reunificadas.
Será que exagerei na minha "viagem"? Acho melhor voltar correndo para o meu ceticismo original!
* Consultor político, com doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Foi professor da Universidade de São Paulo (USP), da PUC-SP e da Fesp-SP. Publicou o livro Partidos políticos do Brasil: 1945-2000 (Jorge Zahar Editor, 2000) e co-organizou a coletânea Partidos e coligações eleitorais no Brasil (Unesp/Fundação Konrad Adenauer, 2005).
Fonte: O Congresso em Foco
Rogério Schmitt*
Dediquei a maior parte da minha carreira acadêmica ao estudo do papel dos partidos no nosso sistema político. Depois que passei a trabalhar com consultoria no setor privado, continuei analisando (ainda mais de perto) a consolidação do sistema partidário brasileiro. Sem falsa modéstia, posso dizer que entendo bem desse assunto. Por isso, não resisti à tentação e resolvi revisitar a questão partidária na atual conjuntura.
Desde o fim das eleições presidenciais, venho acompanhando com bastante interesse as notícias sobre o que seria uma iminente e generalizada reorganização dos nossos partidos políticos. Se todos esses relatos fossem verdadeiros, não sobraria pedra sobre pedra.
O PT poderia incorporar os seus aliados tradicionais (PSB, PDT e PCdoB). Os partidos de oposição (PSDB, DEM e PPS) poderiam se fundir numa única sigla. O PMDB lideraria um "blocão" com outros partidos centristas (PTB, PP, PR e PSC). Alguns chegam até a mencionar uma possível incorporação do DEM ao PMDB. E como poderia me esquecer do emergente bloco parlamentar dos "nanicos" (PRTB, PRP, PTC e PSL)?
Já tenho tempo suficiente de janela para saber que essas notícias sobre fusões e incorporações de partidos são blefes típicos do período que vai da eleição presidencial até a posse do novo governo. Ao longo dessas semanas, o que as legendas estão realmente buscando é aumentar o seu cacife político, seja para participar do governo (no primeiro ou no segundo escalões), seja para influenciar a composição das comissões do Congresso na legislatura seguinte. Na melhor das hipóteses, as supostas fusões acabam se convertendo em meros blocos parlamentares. É como se a montanha parisse um rato.
Portanto, sou extremamente cético em relação à viabilidade do surgimento de um novo sistema partidário - composto por menos partidos e/ou por partidos programaticamente mais homogêneos. Essa não foi a primeira, e certamente não será a última vez, em que o tema frequentará as manchetes dos jornais.
Por outro lado, apesar de todo o meu racionalismo, devo confessar que, desta vez, me permiti usar um pouco mais a minha imaginação. Decidi levar a sério uma hipótese: e se todas essas fusões partidárias acontecessem de verdade? Em outras palavras, quais seriam as suas consequências práticas?
Ao explorar mentalmente essa "realidade alternativa", consegui visualizar a formação de um sistema partidário totalmente novo - composto por duas grandes frentes partidárias. Seria uma espécie de bipartidarismo informal. No campo da centro-esquerda, um bloco liderado pelo PT - ao qual se agregariam os seus aliados tradicionais e mais alguns convidados (PV? PPS?). No campo da centro-direita, um bloco liderado pelo PMDB - e reforçado pelas outras siglas do suposto "blocão" e pelo DEM.
E não é que a coisa até parece fazer algum sentido, inclusive do ponto de vista ideológico? De fato, esses são os dois blocos que darão sustentação ao governo Dilma. E ambos teriam força política suficiente para apresentar candidatos competitivos na eleição presidencial de 2014.
O único problema desse "mundo paralelo" seria em qual dos blocos encaixar o PSDB. Na minha imaginação, tive mais facilidade para enxergar os tucanos caminhando para o lado do bloco petista (de centro-esquerda) do que para o bloco peemedebista (de centro-direita). As lideranças dos dois partidos - ambas surgidas na oposição de esquerda ao regime militar - estariam enfim reunificadas.
Será que exagerei na minha "viagem"? Acho melhor voltar correndo para o meu ceticismo original!
* Consultor político, com doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Foi professor da Universidade de São Paulo (USP), da PUC-SP e da Fesp-SP. Publicou o livro Partidos políticos do Brasil: 1945-2000 (Jorge Zahar Editor, 2000) e co-organizou a coletânea Partidos e coligações eleitorais no Brasil (Unesp/Fundação Konrad Adenauer, 2005).
Fonte: O Congresso em Foco
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Tá no Portal de Luis Nassif
INFLAÇÃO À VISTA
Por causa das ações policiais no Rio de Janeiro ( ocupação do complexo de favelas do Alemão ) a inflação disparou.
Isso mesmo, as drogas agora, somente encontradas no câmbio negro estão com um acréscimo de até 1.200 %
Enquanto isso o movimento cresceu no Estados vizinhos ao Rio de Janeiro - São Paulo - Minas Gerais - Paraná e
Mato Grosso do Sul, estão recebendo consumidores de drogas oriundos do RJ.
Isso esta alavancando um movimento recorde nas transações drogas / armas
Espera-se das autoridades competentes uma reação imediata para conter o preço abusivo cometido pelos traficantes.
Transcrito do Jornal " Diário da Tarde - Colômbia 26/11 )
Por causa das ações policiais no Rio de Janeiro ( ocupação do complexo de favelas do Alemão ) a inflação disparou.
Isso mesmo, as drogas agora, somente encontradas no câmbio negro estão com um acréscimo de até 1.200 %
Enquanto isso o movimento cresceu no Estados vizinhos ao Rio de Janeiro - São Paulo - Minas Gerais - Paraná e
Mato Grosso do Sul, estão recebendo consumidores de drogas oriundos do RJ.
Isso esta alavancando um movimento recorde nas transações drogas / armas
Espera-se das autoridades competentes uma reação imediata para conter o preço abusivo cometido pelos traficantes.
Transcrito do Jornal " Diário da Tarde - Colômbia 26/11 )
GUERRA AO NARCOTRÁFICO
Tráfico usou serviços públicos para sair com armas do Alemão
Os serviços públicos, como coleta de lixo e obras de saneamento, foram usados por traficantes que conseguiram fugir por galerias pluviais do Complexo do Alemão e também por bandidos que ainda se escondem na favela, de onde tentam retirar armas, munição e drogas. Policiais e militares acharam no lixo, ontem, um fuzil, carregadores e munições para fuzis 762 e 556, a1ém de duas granadas, um sinalizador e um caderno da contabilidade do tráfico. A polícia também descobriu o trecho da galeria pluvial que traficantes usaram, segundo testemunhas, para fugir do Complexo do Alemão. Por essa tubulação, teriam escapado ainda na noite de sábado os chefes do tráfico Fabiano Atanázio da Silva, o FB, e Paulo Roberto de Souza Paz, o Mica. Eles teriam deixado o esconderijo com mais 50 bandidos, todos armados de fuzis, em direção ao Morro do Adeus, que fica bem em frente. De lá, teriam partido para outras comunidades. Como o GLOBO mostrou anteontem, bandidos destruíram a tampa que cobria a rede pluvial na Rua Joaquim de Queiroz, escapando por baixo da Estrada do Itararé, onde forças de segurança se preparavam para o que se temia ser um banho de sangue. E assim, tal como a Batalha do Itararé paulista, na Revolução de 30, a do Alemão também não houve.
Polícia investiga desvios de drogas e dinheiro
A cúpula de Segurança do Rio investiga o envolvimento de policiais no desvio de dinheiro, drogas e armas apreendidas, além de facilitação de fuga de traficantes. As polícias Militar e Civil, cujos contingentes somam 1.600 homens, não relataram nenhuma apreensão de dinheiro. A Polícia Federal, que atua com 300 homens, anunciou ter recolhido R$ 39.850, segundo informou. O Exército, que tem 800 soldados, relatou R$ 106 mil. Suspeita-se que dinheiro tenha saído das favelas em mochilas, enquanto carros foram usados para levar outros pertences.
Tudo isso é Complexo
Complexo não é só a palavra que define a região que concentra dezenas de favelas no Rio. O termo também reflete o emaranhado de acusações e problemas.
Moradores citam policiais ligados a milícias e constrangendo mulheres, porcos comendo corpos e traficantes pagando para fugir, relata Plínio Fraga (Folha de São Paulo).
Exército pode ficar no Rio até a Copa e atuar em outras capitais
As Forças Armadas serão usadas na segurança pública do Rio até pelo menos a Copa de 2014, informa a repórter Bruno Paes Manso. Foi o que ficou definido em reunião da presidente eleita Dilma Rousseff com o governador do Rio, Sergio Cabral, o vice, Luiz Fernando Pezão, e o futuro ministro Antonio Palocci (Casa Civil). Além disso, há a possibilidade de replicar a ação militar que liberou a Complexo do Alemão em outras capitais do Brasil com problemas semelhantes.
Tropas querem nova missão bem definida
O governo do Rio de Janeiro se reúne hoje para discutir o prosseguimento da operação de ocupação de favelas. As Forças Armadas querem saber exatamente por quanto tempo terão de atuar, para definir o tipo e a quantidade de soldados empregados. O ministro Nelson Jobim (Defesa) está orientando as providências. Para vencer resistências jurídicas e atender ao apelo da sociedade, ele avisou que é preciso “romper paradigmas”.
Tranquilidade no Alemão e medo na Baixada
Moradores de Duque de Caxias viram pelo menos três vans lotadas de bandidos fugidos do Alemão e temem que outros marginais migrem para o município, onde o governo estadual já promete ocupar comunidades com as Unidades de Polícia Pacificadora.
O pó que vai virar pó
A quantidade de drogas apreendidas até ontem no A1emão impressiona. São 33 toneladas de maconha, 225 quilos de cocaína, 37 quilos de crack e muito lança-perfume. Só o que já foi periciado pela polícia. Vão virar cinzas na CSN.
FONTE: Blog do Mirandasá
Os serviços públicos, como coleta de lixo e obras de saneamento, foram usados por traficantes que conseguiram fugir por galerias pluviais do Complexo do Alemão e também por bandidos que ainda se escondem na favela, de onde tentam retirar armas, munição e drogas. Policiais e militares acharam no lixo, ontem, um fuzil, carregadores e munições para fuzis 762 e 556, a1ém de duas granadas, um sinalizador e um caderno da contabilidade do tráfico. A polícia também descobriu o trecho da galeria pluvial que traficantes usaram, segundo testemunhas, para fugir do Complexo do Alemão. Por essa tubulação, teriam escapado ainda na noite de sábado os chefes do tráfico Fabiano Atanázio da Silva, o FB, e Paulo Roberto de Souza Paz, o Mica. Eles teriam deixado o esconderijo com mais 50 bandidos, todos armados de fuzis, em direção ao Morro do Adeus, que fica bem em frente. De lá, teriam partido para outras comunidades. Como o GLOBO mostrou anteontem, bandidos destruíram a tampa que cobria a rede pluvial na Rua Joaquim de Queiroz, escapando por baixo da Estrada do Itararé, onde forças de segurança se preparavam para o que se temia ser um banho de sangue. E assim, tal como a Batalha do Itararé paulista, na Revolução de 30, a do Alemão também não houve.
Polícia investiga desvios de drogas e dinheiro
A cúpula de Segurança do Rio investiga o envolvimento de policiais no desvio de dinheiro, drogas e armas apreendidas, além de facilitação de fuga de traficantes. As polícias Militar e Civil, cujos contingentes somam 1.600 homens, não relataram nenhuma apreensão de dinheiro. A Polícia Federal, que atua com 300 homens, anunciou ter recolhido R$ 39.850, segundo informou. O Exército, que tem 800 soldados, relatou R$ 106 mil. Suspeita-se que dinheiro tenha saído das favelas em mochilas, enquanto carros foram usados para levar outros pertences.
Tudo isso é Complexo
Complexo não é só a palavra que define a região que concentra dezenas de favelas no Rio. O termo também reflete o emaranhado de acusações e problemas.
Moradores citam policiais ligados a milícias e constrangendo mulheres, porcos comendo corpos e traficantes pagando para fugir, relata Plínio Fraga (Folha de São Paulo).
Exército pode ficar no Rio até a Copa e atuar em outras capitais
As Forças Armadas serão usadas na segurança pública do Rio até pelo menos a Copa de 2014, informa a repórter Bruno Paes Manso. Foi o que ficou definido em reunião da presidente eleita Dilma Rousseff com o governador do Rio, Sergio Cabral, o vice, Luiz Fernando Pezão, e o futuro ministro Antonio Palocci (Casa Civil). Além disso, há a possibilidade de replicar a ação militar que liberou a Complexo do Alemão em outras capitais do Brasil com problemas semelhantes.
Tropas querem nova missão bem definida
O governo do Rio de Janeiro se reúne hoje para discutir o prosseguimento da operação de ocupação de favelas. As Forças Armadas querem saber exatamente por quanto tempo terão de atuar, para definir o tipo e a quantidade de soldados empregados. O ministro Nelson Jobim (Defesa) está orientando as providências. Para vencer resistências jurídicas e atender ao apelo da sociedade, ele avisou que é preciso “romper paradigmas”.
Tranquilidade no Alemão e medo na Baixada
Moradores de Duque de Caxias viram pelo menos três vans lotadas de bandidos fugidos do Alemão e temem que outros marginais migrem para o município, onde o governo estadual já promete ocupar comunidades com as Unidades de Polícia Pacificadora.
O pó que vai virar pó
A quantidade de drogas apreendidas até ontem no A1emão impressiona. São 33 toneladas de maconha, 225 quilos de cocaína, 37 quilos de crack e muito lança-perfume. Só o que já foi periciado pela polícia. Vão virar cinzas na CSN.
FONTE: Blog do Mirandasá
Tá no blog de claudiohumberto
A FALTA QUE FAZ O MURRO NA MESA
Por Carlos Chagas
Como se não bastasse essa luta de foice em quarto escuro entre os partidos da base governista, disputando lugares no ministério, revela-se agora uma sub-briga de características ainda mais singulares: engalfinham-se as diversas facções em que o PT se divide. A turma do “Construindo um Novo Brasil”, dizendo-se majoritária, protesta contra a entrega do ministério da Justiça a José Eduardo Cardoso e a perspectiva de se tornarem ministros Fernando Pimentel, Idely Salvatti e Patrus Ananias, entre outros.
Nessa época em que, de trás para a frente, uniram-se até o “Comando Vermelho”, o “Terceiro Comando” e o “Amigos dos Amigos”, felizmente derrotadas as três quadrilhas nos morros do Rio, não deixa de ser irônico que o PT, em vez de unir-se, ofereça o espetáculo de um tiroteio explícito e sem quartel.
O presidente Lula e a sucessora, Dilma Rousseff, parecem estar acima dos diversos grupos do PT, mas insurgem-se com a ambição dos companheiros. O resultado final poderá ser o aparecimento de muito mais ressentidos do que de agradecidos.
Para demonstrar que não apenas o partido oficial se divide, tome-se o PMDB. O governador Sérgio Cabral, posto no alto do prestígio nacional, acaba de vetar a ida de Moreira Franco para o ministério. Ignora-se a reação da presidente eleita diante da inusitada intervenção, mas o vice-presidente eleito e presidente do partido, Michel Temer, não gostou nem um pouco. Ele é Moreira e não abre, apesar das reverências devidas ao governador fluminense por conta da vitória no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro.
Assim continua a novela da composição da nova equipe de governo, que, vale repetir pela milésima vez, só se resolverá com um murro na mesa, a ser dado por Dilma. Afinal, o sistema é presidencialista, onde só um deveria mandar e os outros, obedecer.
E NÓS, COMO FICAMOS?
Anunciou o ministro do presente e do futuro, Guido Mantega, que continuará por mais um ano a redução do IPI para materiais de construção. Excelente iniciativa, capaz de oxigenar o mercado de trabalho e contribuir para a diminuição do déficit habitacional. O empresariado exultou porque pagar menos imposto nesses tempos bicudos de taxações exorbitantes é um refrigério.
Fica a pergunta, no entanto, sobre que bondades o governo Lula-Dilma poderá fazer para o assalariado de classe média, aquele que só tem se defrontado com maldades, há décadas. Deixando para outro dia discutir se salário é renda, porque não é, apesar da distorção mundial da premissa, que tal a nova equipe econômica preparar alguma boa surpresa para as dezenas de milhões que vivem de salário no país inteiro? As massas menos favorecidas recebem o bolsa-família. As elites vão muito bem, obrigado, envoltas em benesses e privilégios. Mas para o cidadão que paga impostos e se defronta com a precariedade dos serviços públicos, sobra o quê?
MEGALÓPOLIS
eleições de 1945 venceu o general Eurico Dutra porque 80% da população vivia no interior, apenas 20% nas cidades. Hoje, conforme o censo recém-realizado, oito em cada dez brasileiros residem nas cidades. Como ultrapassamos os 190 milhões de habitantes, eis aí a explicação de porque Dilma Rousseff elegeu-se com a maioria do voto urbano. Não demora para que certas regiões, mesmo inter-estaduais como Rio e São Paulo venham constituir-se numa imensa megalópolis. O trem-bala passaria, do começo ao fim de seu trajeto, entre um emaranhado de casas, edifícios, casebres e sucedâneos.
É preciso tomar cuidado. Virou mistificação o discurso da necessidade de fixação do homem no campo. Se ele continua demandando as cidades, com todas as suas agruras, é porque a vida no interior fica sempre pior em matéria de necessidades básicas, a começar pelo emprego, a saúde e a educação.
NÃO FOI À RUA DA ALFÂNDEGA NEM À 25 DE MARÇO
A divulgação de milhares de mensagens reservadas dos embaixadores dos Estados Unidos à Secretaria de Estado revela o despreparo de muitos deles diante da realidade dos países onde serviram. Não dá para aceitar a versão de Clifford Sobel sobre o Brasil vir prendendo, punindo e até expulsando terroristas, ainda que os acusando da prática de outros delitos. Terrorismo, por aqui, só aquele promovido pelos narcotraficantes, jamais com conotações geopolíticas, ideológicas, religiosas ou de berço. O ex-embaixador bem que poderia ter dedicado parte de seu tempo passado entre nós para visitar a rua da Alfândega, no Rio, ou a 25 de Março, em São Paulo, para verificar como é possível conviverem árabes e judeus em ambiente de paz e cordialidade. Como não deu um exemplo sequer da versão enviada para Washington, fica devendo...
Por Carlos Chagas
Como se não bastasse essa luta de foice em quarto escuro entre os partidos da base governista, disputando lugares no ministério, revela-se agora uma sub-briga de características ainda mais singulares: engalfinham-se as diversas facções em que o PT se divide. A turma do “Construindo um Novo Brasil”, dizendo-se majoritária, protesta contra a entrega do ministério da Justiça a José Eduardo Cardoso e a perspectiva de se tornarem ministros Fernando Pimentel, Idely Salvatti e Patrus Ananias, entre outros.
Nessa época em que, de trás para a frente, uniram-se até o “Comando Vermelho”, o “Terceiro Comando” e o “Amigos dos Amigos”, felizmente derrotadas as três quadrilhas nos morros do Rio, não deixa de ser irônico que o PT, em vez de unir-se, ofereça o espetáculo de um tiroteio explícito e sem quartel.
O presidente Lula e a sucessora, Dilma Rousseff, parecem estar acima dos diversos grupos do PT, mas insurgem-se com a ambição dos companheiros. O resultado final poderá ser o aparecimento de muito mais ressentidos do que de agradecidos.
Para demonstrar que não apenas o partido oficial se divide, tome-se o PMDB. O governador Sérgio Cabral, posto no alto do prestígio nacional, acaba de vetar a ida de Moreira Franco para o ministério. Ignora-se a reação da presidente eleita diante da inusitada intervenção, mas o vice-presidente eleito e presidente do partido, Michel Temer, não gostou nem um pouco. Ele é Moreira e não abre, apesar das reverências devidas ao governador fluminense por conta da vitória no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro.
Assim continua a novela da composição da nova equipe de governo, que, vale repetir pela milésima vez, só se resolverá com um murro na mesa, a ser dado por Dilma. Afinal, o sistema é presidencialista, onde só um deveria mandar e os outros, obedecer.
E NÓS, COMO FICAMOS?
Anunciou o ministro do presente e do futuro, Guido Mantega, que continuará por mais um ano a redução do IPI para materiais de construção. Excelente iniciativa, capaz de oxigenar o mercado de trabalho e contribuir para a diminuição do déficit habitacional. O empresariado exultou porque pagar menos imposto nesses tempos bicudos de taxações exorbitantes é um refrigério.
Fica a pergunta, no entanto, sobre que bondades o governo Lula-Dilma poderá fazer para o assalariado de classe média, aquele que só tem se defrontado com maldades, há décadas. Deixando para outro dia discutir se salário é renda, porque não é, apesar da distorção mundial da premissa, que tal a nova equipe econômica preparar alguma boa surpresa para as dezenas de milhões que vivem de salário no país inteiro? As massas menos favorecidas recebem o bolsa-família. As elites vão muito bem, obrigado, envoltas em benesses e privilégios. Mas para o cidadão que paga impostos e se defronta com a precariedade dos serviços públicos, sobra o quê?
MEGALÓPOLIS
eleições de 1945 venceu o general Eurico Dutra porque 80% da população vivia no interior, apenas 20% nas cidades. Hoje, conforme o censo recém-realizado, oito em cada dez brasileiros residem nas cidades. Como ultrapassamos os 190 milhões de habitantes, eis aí a explicação de porque Dilma Rousseff elegeu-se com a maioria do voto urbano. Não demora para que certas regiões, mesmo inter-estaduais como Rio e São Paulo venham constituir-se numa imensa megalópolis. O trem-bala passaria, do começo ao fim de seu trajeto, entre um emaranhado de casas, edifícios, casebres e sucedâneos.
É preciso tomar cuidado. Virou mistificação o discurso da necessidade de fixação do homem no campo. Se ele continua demandando as cidades, com todas as suas agruras, é porque a vida no interior fica sempre pior em matéria de necessidades básicas, a começar pelo emprego, a saúde e a educação.
NÃO FOI À RUA DA ALFÂNDEGA NEM À 25 DE MARÇO
A divulgação de milhares de mensagens reservadas dos embaixadores dos Estados Unidos à Secretaria de Estado revela o despreparo de muitos deles diante da realidade dos países onde serviram. Não dá para aceitar a versão de Clifford Sobel sobre o Brasil vir prendendo, punindo e até expulsando terroristas, ainda que os acusando da prática de outros delitos. Terrorismo, por aqui, só aquele promovido pelos narcotraficantes, jamais com conotações geopolíticas, ideológicas, religiosas ou de berço. O ex-embaixador bem que poderia ter dedicado parte de seu tempo passado entre nós para visitar a rua da Alfândega, no Rio, ou a 25 de Março, em São Paulo, para verificar como é possível conviverem árabes e judeus em ambiente de paz e cordialidade. Como não deu um exemplo sequer da versão enviada para Washington, fica devendo...
EXTRAIDO DO BLOG O CONGRESSO EM FOCO
Michel Temer, o vice que virou problema
“Como aliado, ele é uma graça. Sem combinar antes com Dilma, assumiu compromisso com aumentos salariais bilionários e não para de defender, às vezes ostensivamente, posições – leia-se: cargos e orçamentos – para o seu partido”
Sylvio Costa*
Dizer que o PMDB e sua notória voracidade por cargos, verbas e outros nacos de poder são neste momento o maior problema político no caminho de Dilma Rousseff é contar parte da história. Para ser preciso, é o presidente nacional do PMDB e vice-presidente da República eleito, Michel Temer, a grande encrenca que Dilma tem enfrentado nas últimas semanas.
Como aliado, Temer é uma graça. Sem ouvir antes Dilma, assumiu com policiais, parlamentares e outras categorias o compromisso de usar seus últimos momentos de presidente da Câmara dos Deputados para aprovar aumentos salariais bilionários, que podem criar um grave problema econômico interno numa conjuntura em que a realidade externa – de recessão e pressão cambial – já é desfavorável. Mostra disposição para brigar se o PMDB, segunda bancada da Câmara, não ficar com a presidência da Casa. E não para de defender, às vezes ostensivamente, posições – leia-se: cargos e orçamentos – para o seu partido, como a manutenção dos seis ministérios já ocupados pelo PMDB (tese descartada por Dilma) ou a indicação do braço direito, Moreira Franco, para o primeiro escalão. Com mais discrição, se articula para influenciar até as escolhas de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e do novo procurador-geral da República (o mandato do atual, Roberto Gurgel, acaba em julho de 2011).
Mais do que nunca, Temer encarna a figura de dirigente máximo do seu partido, cargo que exerce com gosto desde setembro de 2001. São quase dez anos no controle de uma das principais máquinas partidárias do país, e ele parece determinado a mantê-lo em suas mãos. Mais que isso. Dá demonstrações de que chega ao governo com a pretensão de ampliar tanto o seu poder pessoal quanto o do PMDB. Emitiu o primeiro sinal nesse sentido, em almoço em Brasília, realizado ainda na campanha eleitoral. “Estamos aqui partilhando este pão, assim como partilhamos este governo e estaremos no futuro partilhando o governo com a presidente Dilma", proclamou.
Soube-se depois, graças à colunista Mônica Bergamo, que o então candidato a vice já engatilhava um plano B naqueles dias em que saudava as delícias do pão petista. O ex-governador do Rio Moreira Franco (de novo ele!) negociava à época uma aproximação com Gilberto Kassab (DEM) no estilo Bombril, ou seja, com mil e uma utilidades. No mínimo, estaria estabelecida uma ponte para composição com José Serra na hipótese de vitória tucana contra Dilma. No máximo, as conversas poderiam resultar em fusão do partido do prefeito paulistano com o PMDB. Tratava-se, em qualquer circunstância, de construir alianças para aumentar o cacife do partido na partilha da administração federal.
Ambos os cenários (Serra presidente ou a fusão PMDB/DEM) estão descartados, no primeiro caso possivelmente para sempre, mas o namoro com Kassab prossegue em São Paulo, assim como o desejo de se cacifar para vender mais caro o apoio a Dilma. É nesse contexto que deve ser compreendida a ameaça de formação de um bloco na Câmara juntando os peemedebistas a quatro notáveis insígnias da devoção ao interesse público, o PR de Valdemar Costa Neto, o PTB de Roberto Jefferson, o PP de Paulo Maluf e o PSC de Joaquim Roriz.
O grupo reúne, por coincidência, os partidos que apresentaram nas últimas eleições os mais altos índices de candidatos enrolados. Nenhuma novidade para o decadente PMDB de hoje, uma organização que em nada lembra a agremiação que no passado simbolizou a defesa da democracia e a luta contra o arbítrio. Esse PMDB em que Temer é rei, e no qual políticos de boa reputação como os senadores Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE) ficaram em minoria, é o campeão em número de parlamentares processados no Supremo.
Temer é doutor em Direito e constitucionalista, disciplina sobre a qual lecionou e escreveu vários livros. Sabe perfeitamente o que diz a Constituição sobre as atribuições do vice-presidente da República. O seu papel se restringe a substituir o presidente, nos casos de ausência deste, e a participar de órgãos consultivos ou realizar missões especiais, quando convocado pelo chefe do Executivo. Constitucionalmente, portanto, cabe a Dilma, e só a ela, decidir sobre nomeações.
Por que então, sabendo disso, Michel Temer cria tantos problemas? Uma razão provável é que acredite que tenha chegado a sua grande chance. Com 70 anos, um currículo vistoso e um patrimônio que apresentou excepcional crescimento nos últimos anos, Temer quer mais. E se tornar vice-presidente, acumulando o comando de um partido importante, equivale a um bilhete premiado para alguém que, como ele, fez carreira política em razão da reconhecida habilidade nos bastidores e não do poder de fogo eleitoral. Assumiu como suplente dois dos seis mandatos que desempenhou como deputado federal por Sâo Paulo. Nas eleições de 2006, em que apoiou Geraldo Alckmin (PSDB) contra Lula (PT), elegeu-se com dificuldades. Votação boa mesmo teve em 1998 e em 2002, quando recebeu, respectivamente, 206.154 e 252.229 votos. Foi bastante ajudado pela proximidade com a cúpula do PSDB e do governo Fernando Henrique, do qual foi um dos principais pilares no Congresso durante oito anos. Foi naqueles tempos que ganhou do então senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) o apelido de “mordomo de filme de terror”.
É um achado. Combinam-se nele o semblante inflexível, e pouco dado a risos; a oratória correta, mas que não empolga; e a eventual condição de suspeito. Temer, definitivamente, não é bom de imagem. Por isso, os marqueteiros de Dilma trataram de escondê-lo ao longo da maior parte da campanha eleitoral. Durante o panetonegate, veio à tona vídeo em que o empresário Alcir Collaço o acusava de receber R$ 100 mil por mês do mensalão do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (o que o vice nega). Temer também foi uma das mais reluzentes estrelas da farra das passagens aéreas, revelada pelo Congresso em Foco. Junto com a família, fez turismo na Bahia com passagens pagas pela Câmara. Em nota, argumentou que “o crédito era do parlamentar”, incorrendo em lamentável confusão entre o público e o privado. Se a verba era pública, não podia ser do parlamentar. E a ilegalidade do procedimento, desde o primeiro instante atestada por diversas fontes jurídicas procuradas pelo site, ficou patente na decisão do Tribunal de Contas da União.
Fernando Henrique teve o vice dos sonhos de qualquer presidente: o senador Marco Maciel (DEM-PE), que é conhecido pela discrição e pela lealdade. Lula encontrou em José Alencar, mais do que um vice, um grande amigo, estabelecendo-se entre os dois caso raro de admiração e afeto mútuos. Nem mesmo as pancadas que Alencar dava na política econômica, sobretudo no primeiro mandato de Lula, abalaram esse relacionamento. É igual a zero a chance de Temer trazer para Dilma nos próximos quatro anos a tranquilidade que Maciel e José Alencar trouxeram nos últimos 16 anos a FHC e Lula. Resta saber até onde irá a sua capacidade de criar problemas.
* Jornalista, criou e dirige o site Congresso em Foco.
“Como aliado, ele é uma graça. Sem combinar antes com Dilma, assumiu compromisso com aumentos salariais bilionários e não para de defender, às vezes ostensivamente, posições – leia-se: cargos e orçamentos – para o seu partido”
Sylvio Costa*
Dizer que o PMDB e sua notória voracidade por cargos, verbas e outros nacos de poder são neste momento o maior problema político no caminho de Dilma Rousseff é contar parte da história. Para ser preciso, é o presidente nacional do PMDB e vice-presidente da República eleito, Michel Temer, a grande encrenca que Dilma tem enfrentado nas últimas semanas.
Como aliado, Temer é uma graça. Sem ouvir antes Dilma, assumiu com policiais, parlamentares e outras categorias o compromisso de usar seus últimos momentos de presidente da Câmara dos Deputados para aprovar aumentos salariais bilionários, que podem criar um grave problema econômico interno numa conjuntura em que a realidade externa – de recessão e pressão cambial – já é desfavorável. Mostra disposição para brigar se o PMDB, segunda bancada da Câmara, não ficar com a presidência da Casa. E não para de defender, às vezes ostensivamente, posições – leia-se: cargos e orçamentos – para o seu partido, como a manutenção dos seis ministérios já ocupados pelo PMDB (tese descartada por Dilma) ou a indicação do braço direito, Moreira Franco, para o primeiro escalão. Com mais discrição, se articula para influenciar até as escolhas de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e do novo procurador-geral da República (o mandato do atual, Roberto Gurgel, acaba em julho de 2011).
Mais do que nunca, Temer encarna a figura de dirigente máximo do seu partido, cargo que exerce com gosto desde setembro de 2001. São quase dez anos no controle de uma das principais máquinas partidárias do país, e ele parece determinado a mantê-lo em suas mãos. Mais que isso. Dá demonstrações de que chega ao governo com a pretensão de ampliar tanto o seu poder pessoal quanto o do PMDB. Emitiu o primeiro sinal nesse sentido, em almoço em Brasília, realizado ainda na campanha eleitoral. “Estamos aqui partilhando este pão, assim como partilhamos este governo e estaremos no futuro partilhando o governo com a presidente Dilma", proclamou.
Soube-se depois, graças à colunista Mônica Bergamo, que o então candidato a vice já engatilhava um plano B naqueles dias em que saudava as delícias do pão petista. O ex-governador do Rio Moreira Franco (de novo ele!) negociava à época uma aproximação com Gilberto Kassab (DEM) no estilo Bombril, ou seja, com mil e uma utilidades. No mínimo, estaria estabelecida uma ponte para composição com José Serra na hipótese de vitória tucana contra Dilma. No máximo, as conversas poderiam resultar em fusão do partido do prefeito paulistano com o PMDB. Tratava-se, em qualquer circunstância, de construir alianças para aumentar o cacife do partido na partilha da administração federal.
Ambos os cenários (Serra presidente ou a fusão PMDB/DEM) estão descartados, no primeiro caso possivelmente para sempre, mas o namoro com Kassab prossegue em São Paulo, assim como o desejo de se cacifar para vender mais caro o apoio a Dilma. É nesse contexto que deve ser compreendida a ameaça de formação de um bloco na Câmara juntando os peemedebistas a quatro notáveis insígnias da devoção ao interesse público, o PR de Valdemar Costa Neto, o PTB de Roberto Jefferson, o PP de Paulo Maluf e o PSC de Joaquim Roriz.
O grupo reúne, por coincidência, os partidos que apresentaram nas últimas eleições os mais altos índices de candidatos enrolados. Nenhuma novidade para o decadente PMDB de hoje, uma organização que em nada lembra a agremiação que no passado simbolizou a defesa da democracia e a luta contra o arbítrio. Esse PMDB em que Temer é rei, e no qual políticos de boa reputação como os senadores Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE) ficaram em minoria, é o campeão em número de parlamentares processados no Supremo.
Temer é doutor em Direito e constitucionalista, disciplina sobre a qual lecionou e escreveu vários livros. Sabe perfeitamente o que diz a Constituição sobre as atribuições do vice-presidente da República. O seu papel se restringe a substituir o presidente, nos casos de ausência deste, e a participar de órgãos consultivos ou realizar missões especiais, quando convocado pelo chefe do Executivo. Constitucionalmente, portanto, cabe a Dilma, e só a ela, decidir sobre nomeações.
Por que então, sabendo disso, Michel Temer cria tantos problemas? Uma razão provável é que acredite que tenha chegado a sua grande chance. Com 70 anos, um currículo vistoso e um patrimônio que apresentou excepcional crescimento nos últimos anos, Temer quer mais. E se tornar vice-presidente, acumulando o comando de um partido importante, equivale a um bilhete premiado para alguém que, como ele, fez carreira política em razão da reconhecida habilidade nos bastidores e não do poder de fogo eleitoral. Assumiu como suplente dois dos seis mandatos que desempenhou como deputado federal por Sâo Paulo. Nas eleições de 2006, em que apoiou Geraldo Alckmin (PSDB) contra Lula (PT), elegeu-se com dificuldades. Votação boa mesmo teve em 1998 e em 2002, quando recebeu, respectivamente, 206.154 e 252.229 votos. Foi bastante ajudado pela proximidade com a cúpula do PSDB e do governo Fernando Henrique, do qual foi um dos principais pilares no Congresso durante oito anos. Foi naqueles tempos que ganhou do então senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) o apelido de “mordomo de filme de terror”.
É um achado. Combinam-se nele o semblante inflexível, e pouco dado a risos; a oratória correta, mas que não empolga; e a eventual condição de suspeito. Temer, definitivamente, não é bom de imagem. Por isso, os marqueteiros de Dilma trataram de escondê-lo ao longo da maior parte da campanha eleitoral. Durante o panetonegate, veio à tona vídeo em que o empresário Alcir Collaço o acusava de receber R$ 100 mil por mês do mensalão do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (o que o vice nega). Temer também foi uma das mais reluzentes estrelas da farra das passagens aéreas, revelada pelo Congresso em Foco. Junto com a família, fez turismo na Bahia com passagens pagas pela Câmara. Em nota, argumentou que “o crédito era do parlamentar”, incorrendo em lamentável confusão entre o público e o privado. Se a verba era pública, não podia ser do parlamentar. E a ilegalidade do procedimento, desde o primeiro instante atestada por diversas fontes jurídicas procuradas pelo site, ficou patente na decisão do Tribunal de Contas da União.
Fernando Henrique teve o vice dos sonhos de qualquer presidente: o senador Marco Maciel (DEM-PE), que é conhecido pela discrição e pela lealdade. Lula encontrou em José Alencar, mais do que um vice, um grande amigo, estabelecendo-se entre os dois caso raro de admiração e afeto mútuos. Nem mesmo as pancadas que Alencar dava na política econômica, sobretudo no primeiro mandato de Lula, abalaram esse relacionamento. É igual a zero a chance de Temer trazer para Dilma nos próximos quatro anos a tranquilidade que Maciel e José Alencar trouxeram nos últimos 16 anos a FHC e Lula. Resta saber até onde irá a sua capacidade de criar problemas.
* Jornalista, criou e dirige o site Congresso em Foco.
A CARA DO NOVO GOVERNO
Deu no Correio Braziliense
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
A reação de parte da imprensa às informações sobre a composição do governo Dilma é curiosa. Em alguns veículos, chega a ser cômica.
Outro dia, um dos jornais de São Paulo estampou em manchete que Dilma estava “montando o núcleo de seu ministério com lulistas”. O que será que o editor imaginava? Que ela fosse recrutar “serristas” para os postos-chave de sua administração?
Como ensinam os manuais do jornalismo, essa não é uma notícia. Ou será que algo tão óbvio merece destaque? “Cachorro come linguiça” não é um título para a primeira página. No dia em que a linguiça comer o cachorro, aí sim a teremos uma notícia (que, aliás, deverá ser impressa em letras garrafais).
Na mesma linha, um jornal carioca achou que era necessário alertar os leitores para o fato de que “Lula está indicando várias pessoas para o governo Dilma”. Em meio a estatísticas sobre quantos nomes já havia emplacado, a matéria era de franca desaprovação.
Na verdade, tanto nessa, quanto na manchete do jornal paulista, estava implícita quase uma denúncia, como se um duplo mal-feito estivesse sendo cometido. Por Lula, ao “se meter” na formação do novo governo, ao “tentar interferir” onde, aparentemente, não deveria ter voz. Por Dilma, ao não reagir à intromissão e o deixar livre para apontar nomes.
Quem publica coisas assim dá mostras de não ter entendido a eleição que acabamos de fazer. Não entendeu como Lula, seu principal arquiteto, a concebeu, como Dilma encarnou a proposta, e como a grande maioria do eleitorado a assimilou.
Tudo mundo sabe que, quando Lula formulou o projeto da candidatura Dilma, a ideia central era de continuidade: do governo, de suas prioridades, de seu estilo. Ele nunca disse o contrário e insistiu no uso de imagens que caracterizavam, com clareza, o que ela representava. Para que ninguém tivesse dúvidas, chegou a afirmar que votar em Dilma era a mesma coisa que votar nele. Foi explícito nos palanques, nas declarações, na televisão.
Dilma sempre falou a mesma coisa. Mostrou-se à vontade como representante de Lula e do governo, seja por sua lealdade para com o presidente, seja pela boa razão de que o governo era dela também. Apresentar-se ao país como candidata de continuidade nunca a deixou desconfortável, pois significava defender aquilo a que havia se dedicado nos últimos oito anos.
Isso foi bem entendido pelos eleitores. Desde o primeiro momento e até o fim da eleição, as pessoas olharam para Dilma sabendo qual era a natureza de sua candidatura. Muitas descobriram suas qualidades pessoais, mas o núcleo da decisão de votar em seu nome foi outro, como mostraram as pesquisas.
Ninguém votou em Dilma para que o “dilmismo” vencesse o “serrismo”. Só quem quis que a eleição fosse essa foi o próprio Serra, que sabia que perderia se o foco da escolha se alargasse, se os eleitores olhassem para o que cada candidato representava e não se limitassem a fazer a velha comparação de biografias.
Agora, quando Dilma escuta Lula na montagem do governo, ela apenas cumpre a promessa fundamental de sua candidatura, a razão principal (para alguns eleitores, a única) dela ter sido votada. Quando dá mostras de que manterá ministros e dirigentes, faz apenas o natural. Se, por exemplo, se comprometeu durante a campanha com a preservação de determinada política, porque razão não seria adequado que o responsável permanecesse?
O governo que está sendo organizado terá a cara da continuidade, política e administrativa. Terá a cara de Lula, do PT e das outras forças partidárias que venceram a eleição. Terá a cara da atual administração, que é aprovada pela maioria da sociedade. Terá a cara de Dilma, pois é ela que o chefiará.
É isso que foi combinado com o país.
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Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
A reação de parte da imprensa às informações sobre a composição do governo Dilma é curiosa. Em alguns veículos, chega a ser cômica.
Outro dia, um dos jornais de São Paulo estampou em manchete que Dilma estava “montando o núcleo de seu ministério com lulistas”. O que será que o editor imaginava? Que ela fosse recrutar “serristas” para os postos-chave de sua administração?
Como ensinam os manuais do jornalismo, essa não é uma notícia. Ou será que algo tão óbvio merece destaque? “Cachorro come linguiça” não é um título para a primeira página. No dia em que a linguiça comer o cachorro, aí sim a teremos uma notícia (que, aliás, deverá ser impressa em letras garrafais).
Na mesma linha, um jornal carioca achou que era necessário alertar os leitores para o fato de que “Lula está indicando várias pessoas para o governo Dilma”. Em meio a estatísticas sobre quantos nomes já havia emplacado, a matéria era de franca desaprovação.
Na verdade, tanto nessa, quanto na manchete do jornal paulista, estava implícita quase uma denúncia, como se um duplo mal-feito estivesse sendo cometido. Por Lula, ao “se meter” na formação do novo governo, ao “tentar interferir” onde, aparentemente, não deveria ter voz. Por Dilma, ao não reagir à intromissão e o deixar livre para apontar nomes.
Quem publica coisas assim dá mostras de não ter entendido a eleição que acabamos de fazer. Não entendeu como Lula, seu principal arquiteto, a concebeu, como Dilma encarnou a proposta, e como a grande maioria do eleitorado a assimilou.
Tudo mundo sabe que, quando Lula formulou o projeto da candidatura Dilma, a ideia central era de continuidade: do governo, de suas prioridades, de seu estilo. Ele nunca disse o contrário e insistiu no uso de imagens que caracterizavam, com clareza, o que ela representava. Para que ninguém tivesse dúvidas, chegou a afirmar que votar em Dilma era a mesma coisa que votar nele. Foi explícito nos palanques, nas declarações, na televisão.
Dilma sempre falou a mesma coisa. Mostrou-se à vontade como representante de Lula e do governo, seja por sua lealdade para com o presidente, seja pela boa razão de que o governo era dela também. Apresentar-se ao país como candidata de continuidade nunca a deixou desconfortável, pois significava defender aquilo a que havia se dedicado nos últimos oito anos.
Isso foi bem entendido pelos eleitores. Desde o primeiro momento e até o fim da eleição, as pessoas olharam para Dilma sabendo qual era a natureza de sua candidatura. Muitas descobriram suas qualidades pessoais, mas o núcleo da decisão de votar em seu nome foi outro, como mostraram as pesquisas.
Ninguém votou em Dilma para que o “dilmismo” vencesse o “serrismo”. Só quem quis que a eleição fosse essa foi o próprio Serra, que sabia que perderia se o foco da escolha se alargasse, se os eleitores olhassem para o que cada candidato representava e não se limitassem a fazer a velha comparação de biografias.
Agora, quando Dilma escuta Lula na montagem do governo, ela apenas cumpre a promessa fundamental de sua candidatura, a razão principal (para alguns eleitores, a única) dela ter sido votada. Quando dá mostras de que manterá ministros e dirigentes, faz apenas o natural. Se, por exemplo, se comprometeu durante a campanha com a preservação de determinada política, porque razão não seria adequado que o responsável permanecesse?
O governo que está sendo organizado terá a cara da continuidade, política e administrativa. Terá a cara de Lula, do PT e das outras forças partidárias que venceram a eleição. Terá a cara da atual administração, que é aprovada pela maioria da sociedade. Terá a cara de Dilma, pois é ela que o chefiará.
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