Por Carlos Chagas
Irresponsabilidade ou necessidade? Tanto faz, mas avolumam-se as especulações sobre o futuro ministério, desde que ficou previsível a vitória de Dilma Rousseff nas eleições de amanhã. A candidata não admite conversar a respeito, fica brava e talvez nem com o presidente Lula tenha tratado da composição de sua equipe.
Correndo o risco de não emplacar nenhuma das especulações que se seguem, vale registrar o que anda circulando pelos céus de Brasília, ficando as referências por nossa conta e risco.
CASA CIVIL. Talvez a mais importante peça do novo governo, afastada a abominável hipótese de Erenice Guerra, o nome mais falado é do atual ministro do Planejamento, PAULO BERNARDO. Seu entrosamento com a futura presidente da República vem de longe, desde os tempos em que ela ocupava o ministério das Minas e Energia.
FAZENDA. Não apenas no PT, mas em círculos do empresariado, cresce o cacife do atual presidente do BNDES, LUCIANO COUTINHO. Ideologicamente próximo de Dilma e respeitado nos círculos nacionalistas, seu papel no principal instrumento de incentivo ao desenvolvimento tem merecido elogios de todos os setores, até da oposição.
MINAS E ENERGIA. A importância de amplo entendimento entre o futuro governo e o PMDB conduz o maior partido nacional a dispor de forte representação no novo ministério, sendo que a ainda candidata foi pródiga em elogios ao seu sucessor na pasta considerada das mais importantes para a nova administração. O senador EDISON LOBÃO concentra as maiores atenções para retornar também em nome de seu partido ao antigo gabinete, onde a única modificação promovida por seu sucessor foi a compra de um tapete de luxo para substituir
PETROBRÁS. Tendo sido especulado para a Fazenda e para a Casa Civil, parece a possibilidade mais recente para a presidência da empresa o ex-ministro ANTÔNIO PALOCCI, podendo o atual presidente Sergio Gabrielli, ser aproveitado em algum outro ministério.
CIÊNCIA E TECNOLOGIA. O lugar estaria reservado para alguém duplamente qualificado: primeiro, para dar à pasta o relevo que ela merece, com vistas à inclusão do Brasil no rol das nações desenvolvidas. Depois, como retribuição a mais um sacrifício feito por um companheiro fundador do PT, que foi para as recentes eleições com a certeza da derrota. ALOYSIO MERCADANTE é nome cogitado nos círculos mais próximos do presidente Lula e, em conseqüência, de Dilma Rousseff.
COMUNICAÇÕES. Elemento chave no governo e um dos artífices da indicação e da consolidação da candidata, FRANKLIN MARTINS poderia ser deslocado da Comunicação Social, que exerce, para o ministério tido como dos mais sensíveis na definição dos rumos da futura administração.
DEFESA. Ignora-se o número de ministros que Dilma Rousseff conservará, dos atuais designados pelo presidente Lula. Não deverão ser muitos, dada a importância da apresentação de uma equipe renovada e pessoalmente ligada à nova presidente da República. Uma exceção, porém, seria a manutenção de NELSON JOBIM no cargo, pelo motivo principal de que deu certo num dos mais delicados setores do governo.
RELAÇÕES EXTERIORES. Outra hipótese de continuidade estaria na preservação por mais um ano do chanceler CELSO AMORIM no Itamaraty, menos porque baterá o recorde de permanência do Barão do Rio Branco, mais porque sua presença seria penhor de afirmação da nova política externa, uma sinalização para a comunidade internacional.
Vale repetir, essas ilações correm por conta e risco de quem as apresenta, sem qualquer chance de provir da candidata ou de seus principais auxiliares de campanha, porque tanto eles, quanto ela, fogem de cogitações sobre o futuro como o diabo foge da cruz. Será preciso conhecer, primeiro, as diretrizes que Dilma avançará uma vez proclamados os resultados da eleição e em seguida à entrevista coletiva ainda sem data marcada que fatalmente concederá. A premissa é de que não há pressa na composição da nova equipe, com os meses de novembro e dezembro destinados a entendimentos e conversas prolongadas. Claro que, em primeiro lugar, com o presidente Lula, que se continuar matreiro como tem sido, não indicará ninguém...
PARTITURAS RENOVADAS
No âmago do ninho dos tucanos começaram, há dias, trocas de idéias a respeito do futuro, no caso da provável derrota de José Serra. Será preciso coragem para recompor a terra arrasada pela vitória de Dilma Rousseff e traçar novos rumos. De início, abandonar a postura que a campanha eleitoral acirrou, de conflitos, confrontos e agressões injustificáveis até quando se disputam votos. Por certo que, no reverso da medalha, jamais a adesão, muito menos a complacência
Substantivos em vez de adjetivos, seria uma diretriz certamente comandada pelo senador Aécio Neves, tanto por sua liderança inconteste quanto como preparação para as eleições de 2014. Volta a proposta sempre tentadora para as oposições, mas tantas vezes tornada inexeqüível, da constituição de um shadow gabinet, ou seja, de um anti-ministério funcionando na sombra, com cada setor do novo governo examinado e, se necessário, criticado por figuras de competência pinçadas nas bancadas parlamentares do PSDB, do DEM e adjacências.
Nada de radicalismos, mas firmeza na apresentação de alternativas para o modelo praticado pelo PT e aliados. Inflexibilidade na apuração de possíveis denúncias de irregularidades, se acontecerem, mas compreensão diante de propostas consideradas essenciais para o desenvolvimento do país.
No correr de novembro deverão reunir-se os principais líderes e as bancadas recém eleitas da oposição, com ênfase para os governadores e sem desconsiderar antigas figuras de destaque no passado. Em suma, uma orquestra capaz de executar partituras renovadas.
EXCESSO OPOSTO
Protestaram alguns ministros do Supremo Tribunal Federal contra o que lhes pareceu a prepotência do Congresso, aprovando a lei da ficha limpa fora do prazo e criando constrangimentos para as coisas julgadas. Gilmar Mendes chegou a rotular de casuística a lei complementar 135, capaz de ser seguida, no futuro, por novas sanções a atos jurídicos perfeitos praticados, quem sabe, há mais de vinte anos. Tudo, para ele, por motivos de perseguição político-partidária, das maiorias contra as minorias. Para o ex-presidente da mais alta corte nacional de justiça, melhor seria fechá-la se suprimidas suas prerrogativas de interpretar a Constituição.
O problema é que raciocínios opostos também começaram a ser feitos em Brasília. Não estaria havendo, com perdão do trocadilho, uma tentativa de “supremacia por parte do Supremo”? Afinal, se o Congresso decidiu por uma determinada legislação, teria o Judiciário poderes para torná-la letra morta, no caso de não desrespeitar a Constituição? Aqui dividiram-se as opiniões, mas teria o tribunal poderes para conceder ou suprimir direitos eleitorais?
Sobrecarregado por centenas de recursos de candidatos impugnados e sem registro, não estaria o Supremo exorbitando ao arvorar-se em árbitro maior de decisões tomadas pelo eleitorado? A dúvida prosseguirá, de um lado e de outro.
OUTRO PAÍS?
Quando nascer o sol, segunda-feira, estaremos habitando outro país? Qualquer que tenha sido a decisão do eleitorado na escolha do futuro presidente da República, mudará alguma coisa?
O regime continuará o mesmo, o sistema de governo, também. Os três poderes da República permanecerão funcionando. As instituições, da mesma forma.
Quanto ao cidadão comum, deixará de pagar impostos, de seguir para o trabalho e de pretender realizar sonhos e objetivos práticos?
É preciso manter os pés no chão e deixar de imaginar, como pretendem alguns, que tudo mudou. Até porque não será o governo Dilma Rousseff, como apregoado durante dois anos, a continuidade do governo Lula?Missão | Política de Transparência
sábado, 30 de outubro de 2010
DIZER, NEGAR E FAZER
Assim como o verbo se conjuga em três tempos: Presente, Passado e Futuro, o politico só pode ser considerado profissional, experiente, amadurecido, quando sabe lidar com as três etapas mais comum da vida partidária.
A primeira delas é afirmar tal objetivo, anunciar antecipadamente tal roteiro ou percurso, o segundo momento será negar tudo que afirmou antes e o terceiro tempo do jogo jogado, é fazer tudo que prometeu, tudo que negou inicialmente, deixando seus interlocutores perplexos, seus seguidores de crista caida e seus adversários cada vez mais desapontados.
Não precisamos citar nomes, mas exemplo existe até demais, basta que queiramos nos aprofundar no assunto pra saber que os milagres do disse não quero, dá sempre lugar para o que exatamente desejam fazer.
Melhor ainda, os santos milagreiros estão bem próximos de nós, nos municipios, nos estados e no país, independentes de cargos indicados ou escolhidos soberanamente pelo o voto popular.
Estão em todos os partidos, dentro e fora do poder, o importante é que implaquem sempre algo do seu próprio gosto.
Usam sempre uma verdade, típica de quem quer pegar galinha, não grita chou! Todos mentem, iludem, pra confundir ou realizar o que dizem nunca fazer.
Todavia, cada um conduz seu andor de acordo com o que achar coveniente pra sí ou pra alguém do seu interesse.
Uns usam a desfaçatez par alcançar os objetivos, estes são artistas... outros o fazem com a cara mais lambida do mundo, querendo também chegar no topo da colina, estes podemos chamar medíocres...para não rotulamos de canalhas, trambiqueiros etc e tal.
Escrito por aluiziolacerda às 17h31
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A primeira delas é afirmar tal objetivo, anunciar antecipadamente tal roteiro ou percurso, o segundo momento será negar tudo que afirmou antes e o terceiro tempo do jogo jogado, é fazer tudo que prometeu, tudo que negou inicialmente, deixando seus interlocutores perplexos, seus seguidores de crista caida e seus adversários cada vez mais desapontados.
Não precisamos citar nomes, mas exemplo existe até demais, basta que queiramos nos aprofundar no assunto pra saber que os milagres do disse não quero, dá sempre lugar para o que exatamente desejam fazer.
Melhor ainda, os santos milagreiros estão bem próximos de nós, nos municipios, nos estados e no país, independentes de cargos indicados ou escolhidos soberanamente pelo o voto popular.
Estão em todos os partidos, dentro e fora do poder, o importante é que implaquem sempre algo do seu próprio gosto.
Usam sempre uma verdade, típica de quem quer pegar galinha, não grita chou! Todos mentem, iludem, pra confundir ou realizar o que dizem nunca fazer.
Todavia, cada um conduz seu andor de acordo com o que achar coveniente pra sí ou pra alguém do seu interesse.
Uns usam a desfaçatez par alcançar os objetivos, estes são artistas... outros o fazem com a cara mais lambida do mundo, querendo também chegar no topo da colina, estes podemos chamar medíocres...para não rotulamos de canalhas, trambiqueiros etc e tal.
Escrito por aluiziolacerda às 17h31
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DILMA E SERRA NO ÚLTIMO DEBATE DE CAMPANHA
Serra e Dilma encerram campanha em
debate sem confronto na Rede Globo
TV Globo
DILMA E SERRA NO ÚLTIMO DEBATE DE CAMPANHA
Foi "soft" e "didático" , sem confronto, o último debate de campanha, promovido nesta sexta (29), entre os dois candidatos à Presidência. A plateia em formato de arena, as perguntas de eleitores indecisos de todo o país, clicadas aleatoriamente num telão e depois dirigida pessoalmente aos candidatos, ajudaram no clima "paz e amor" e promessas mil. Três funcionários públicos questionaram os candidatos, a primeira reclamou aumento: Serra "enrolou" como diz sua adversária, que também enrolou, com a habitual promessa de valorizar o funcionalismo. O tucano falou da necessidade de concursos - uma questão que toca na turma terceirizada do PT no governo - e traumatiza uma legião de brasileiros em busca de emprego estável.
Corrupção passou ao largo - Finalmente, um jovem advogado perguntou sobre corrupção, mas não esquentou o debate. Serra evita citar a ex-ministra Erenice Guerra (Casa Civil), mas lembra os "aloprados", ressaltando que "o bom exemplo vem de cima" e o combate à impunidade. Dilma cita prisões de empresários e governador pela PF, o trabalho da Controladoria-Geral da União e afirma que "é preciso punir". O meio ambiente relax do confronto que não houve não ajudou a candidata Dilma a caprichar na língua portuguesa: lembrou que é professora, mas falou "foram atingidos pessoas", "a gente que somos" e "ciclo vicioso" virou "círculo virtuoso.
"Ditadismo" e "cola": muitas propostas dos candidatos se embaralharam, numa espécie de "cola" - Dilma falando das "policlínicas" propostas por Serra. Na Educação, o tucano voltou a defender um "pacto nacional", de "dois professores em sala de aula". Dilma defendeu aumento de salário do professor. Na Saúde, Serra lembra a situação precárias das Santas Casas e filantrópicas, que dependem de repasses do governo, Dilma retomo a "Rede Cegonha", de atendimento desde a gravidez e falou das filas no SUS, esquecendo que, para Lula, o sistema é "quase perfeito". E prometeu estender a todo o país as Unidades de Pronto Atendimento do Rio (UPAs).
"Escolinha com aviõezinhos" - O cenário, com um mapa ao fundo, reforçou o esquema de "escolinha do professor Serra e da professora Dilma" - uma sucessão de promessas e números repetidos, com os "mestres" andando pela "sala". Serra citou a criação do Infocrime, cadastro nacional de crimes, Dilma falou de novo os aviões não tripulados de Israel "na guerra" (não disse contra que país) para combater o crime no Brasil. O tucano rebateu a "formalização" do trabalho conquistada no governo Lula, dizendo que 50% dos brasileiros continuam na informalidade. Dilma esqueceu de novo que é herdeira do governo Lula na questão sobre Agricultura, dizendo que "não tem educação nem habitação de qualidade no campo". Serra reforçou a importância da agricultura familiar, no tom didático de velho professor. Outra promessa da candidata do governo: desonerar a folha de pagamento numa reforma tributária, prometendo aumentar o limite de faturamento do Super Simples. Serra aliás, disse que "não é simples" uma reforma tributária.
O gongo da meia-noite - Na questão do Ambiente - pergunta de um indeciso do Pará - Dilma reafirma "compromisso de tolerância zero" com desmatamento que não significa "desmatamento zero". Serra prometeu oferecer "alternativa econonômica para a população combater'' (o desmatamento). Uma operadora de telemarketing indecisa reclama que tem "valão onde mora". Dilma acha "uma vergonha o Brasil do século XXI ter problema de saneamento". Serra defende uma força nacional de defesa civil para socorro em caso de calamidades, quando entrou a questão das enchentes. Dilma diz que "já começou a resolver" e "vai investir em dragagem". A "explanação" dos candidatos virou uma "apostila" de propostas para os indecisos decorarem antes de votar. O final da "aula" se aproxima: o "debate" deve terminar antes da meia-noite, como determina a legislação eleitoral e acontece nos contos de fada - é nessa hora que as carruagens viram abóbora. Faltou "cascudo" nessa escolinha noturna da Globo.
Fonte: Blog do claudiohumbertto
debate sem confronto na Rede Globo
TV Globo
DILMA E SERRA NO ÚLTIMO DEBATE DE CAMPANHA
Foi "soft" e "didático" , sem confronto, o último debate de campanha, promovido nesta sexta (29), entre os dois candidatos à Presidência. A plateia em formato de arena, as perguntas de eleitores indecisos de todo o país, clicadas aleatoriamente num telão e depois dirigida pessoalmente aos candidatos, ajudaram no clima "paz e amor" e promessas mil. Três funcionários públicos questionaram os candidatos, a primeira reclamou aumento: Serra "enrolou" como diz sua adversária, que também enrolou, com a habitual promessa de valorizar o funcionalismo. O tucano falou da necessidade de concursos - uma questão que toca na turma terceirizada do PT no governo - e traumatiza uma legião de brasileiros em busca de emprego estável.
Corrupção passou ao largo - Finalmente, um jovem advogado perguntou sobre corrupção, mas não esquentou o debate. Serra evita citar a ex-ministra Erenice Guerra (Casa Civil), mas lembra os "aloprados", ressaltando que "o bom exemplo vem de cima" e o combate à impunidade. Dilma cita prisões de empresários e governador pela PF, o trabalho da Controladoria-Geral da União e afirma que "é preciso punir". O meio ambiente relax do confronto que não houve não ajudou a candidata Dilma a caprichar na língua portuguesa: lembrou que é professora, mas falou "foram atingidos pessoas", "a gente que somos" e "ciclo vicioso" virou "círculo virtuoso.
"Ditadismo" e "cola": muitas propostas dos candidatos se embaralharam, numa espécie de "cola" - Dilma falando das "policlínicas" propostas por Serra. Na Educação, o tucano voltou a defender um "pacto nacional", de "dois professores em sala de aula". Dilma defendeu aumento de salário do professor. Na Saúde, Serra lembra a situação precárias das Santas Casas e filantrópicas, que dependem de repasses do governo, Dilma retomo a "Rede Cegonha", de atendimento desde a gravidez e falou das filas no SUS, esquecendo que, para Lula, o sistema é "quase perfeito". E prometeu estender a todo o país as Unidades de Pronto Atendimento do Rio (UPAs).
"Escolinha com aviõezinhos" - O cenário, com um mapa ao fundo, reforçou o esquema de "escolinha do professor Serra e da professora Dilma" - uma sucessão de promessas e números repetidos, com os "mestres" andando pela "sala". Serra citou a criação do Infocrime, cadastro nacional de crimes, Dilma falou de novo os aviões não tripulados de Israel "na guerra" (não disse contra que país) para combater o crime no Brasil. O tucano rebateu a "formalização" do trabalho conquistada no governo Lula, dizendo que 50% dos brasileiros continuam na informalidade. Dilma esqueceu de novo que é herdeira do governo Lula na questão sobre Agricultura, dizendo que "não tem educação nem habitação de qualidade no campo". Serra reforçou a importância da agricultura familiar, no tom didático de velho professor. Outra promessa da candidata do governo: desonerar a folha de pagamento numa reforma tributária, prometendo aumentar o limite de faturamento do Super Simples. Serra aliás, disse que "não é simples" uma reforma tributária.
O gongo da meia-noite - Na questão do Ambiente - pergunta de um indeciso do Pará - Dilma reafirma "compromisso de tolerância zero" com desmatamento que não significa "desmatamento zero". Serra prometeu oferecer "alternativa econonômica para a população combater'' (o desmatamento). Uma operadora de telemarketing indecisa reclama que tem "valão onde mora". Dilma acha "uma vergonha o Brasil do século XXI ter problema de saneamento". Serra defende uma força nacional de defesa civil para socorro em caso de calamidades, quando entrou a questão das enchentes. Dilma diz que "já começou a resolver" e "vai investir em dragagem". A "explanação" dos candidatos virou uma "apostila" de propostas para os indecisos decorarem antes de votar. O final da "aula" se aproxima: o "debate" deve terminar antes da meia-noite, como determina a legislação eleitoral e acontece nos contos de fada - é nessa hora que as carruagens viram abóbora. Faltou "cascudo" nessa escolinha noturna da Globo.
Fonte: Blog do claudiohumbertto
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
A COR DO VOTO
Enviado por Ricardo Noblat
Do blog de José Roberto de Toledo
José Serra (PSDB) tem mais chances entre brancos e amarelos. Dilma Rousseff (PT) vai melhor entre pretos e pardos. Se cor da pele equivale a origem étnica, o tucano ganha por 5 pontos nos caucasianos/orientais. Entre os negros, a petista tem 15 pontos de vantagem.
A divisão do eleitorado por cor obedece às mesmas categorias do IBGE. Como no Censo 2010, os entrevistados se auto-classificaram aos pesquisadores do Ibope. Os dois grupos correspondem a 46% (brancos/amarelos) e 53% (pretos/pardos) do eleitorado pesquisado.
A variável não havia sido analisada até agora nesta eleição. Foi incluída na pesquisa pelo Ibope a pedido de grupos militantes do movimento negro.
Uma das conclusões mais importantes dessa análise é que a preferência de pretos/pardos por Dilma e de brancos/amarelos por Serra sobrevive ao controle dos resultados pela renda e escolaridade dos eleitores.
Negros que ganham mais e/ou que cursaram mais séries na escola continuam votando até 30% mais na petista. É um comportamento eleitoral muito diferente dos caucasianos e orientais das mesmas faixas de renda e escolaridade, que votam até 44% mais no adversário.
Considerando-se apenas os eleitores que frequentaram o ensino médio ou superior, Dilma tem 38% entre brancos/amarelos e 51% entre pretos/pardos. Serra tem praticamente os porcentuais inversos: 52% e 42%, respectivamente.
Entre os eleitores com renda superior a 5 salários mínimos, o topo da pirâmide eleitoral, a divisão do voto por cor segue na mesma proporção. Dilma tem 36% entre os brancos (contra 52% de Serra) e 51% entre os negros (contra 40% do adversário).
Há, portanto, fatores que diferenciam o voto dos dois grupos que vão além das condições sócio-econômicas em que vivem. A explicação parece ser tampouco a identificação entre eleitores e candidatos da mesma cor. Tanto Dilma quanto Serra são brancos e filhos de imigrantes europeus.
A sondagem do Ibope fornece pistas, mas não todos os elementos para explicar a clivagem do voto em função da auto-definição do eleitorado.
O conjunto de pesquisas deixa claro, porém, que a cor não é o único fator, nem sequer o principal, para a escolha do presidenciável.
O voto é uma combinação da cor, religião, renda, escolaridade, ocupação e local de moradia do eleitor - não necessariamente nessa ordem. Essas variáveis têm pesos diferentes para cada um.
O religioso dá mais importância à opinião do candidato sobre o aborto, por exemplo. Mas se esse eleitor for beneficiário do Bolsa-Família a opção por um ou outro presidenciável será mais complexa: a balança penderá às vezes para o bolso, às vezes para a orientação religiosa.
Esses pesos e contra-pesos matizam a importância da cor do eleitor na decisão do voto.
Nos segmentos intermediários de renda e escolaridade, Serra ainda vai melhor do que Dilma entre brancos/amarelos, embora sua vantagem não seja tão grande quanto entre os mais ricos e escolarizados da mesma cor.
Já entre os mais pobres (renda até 2 salários mínimos), o tucano apenas empata com a petista no eleitorado branco (45% a 47%), e perde por 20 pontos no negro: 36% a 56%.
A divisão do eleitorado segundo a cor de sua pele encontra um paralelo na geografia do voto nas metrópoles brasileiras. Em São Paulo, os candidatos a presidente do PSDB em 2006 e 2010 obtiveram vantagens maciças nas zonas centrais, mais ricas e tradicionais da cidade.
Em bairros como os Jardins e Pinheiros, onde a grande maioria dos moradores é branca, Geraldo Alckmin (PSDB) obteve até 79% dos votos válidos em 2006. Serra ficou em 68%, mas porque parte desses eleitores optaram por Marina Silva (PV) - uma candidata que, dependendo dos olhos de quem a vê, poderia ser enquadrada em qualquer uma das categorias étnicas.
Substitua-se esses bairros por Copacabana, Leblon e Gávea e o quadro se repete no Rio de Janeiro. A única diferença é que o voto petista não fica limitado à periferia. Está também encastelado nas zonas eleitorais dos morros da Zona Sul, como Rocinha e Vidigal, onde Dilma teve maioria absoluta de votos no primeiro turno.
Os dados sugerem pauta para novas pesquisas e investigações. Por ora, indicam que os que ascenderam recentemente a condições sócio-econômicas melhores mas ainda moram nas mesmas áreas onde viviam seus pais votam majoritariamente em presidenciáveis do PT.
Será curioso observar o comportamento desses emergentes ao longo das próximas eleições. Será que eles se manterão fiéis aos partidos que reivindicam tê-los ajudado a melhorar de vida, ou assimilarão a preferência eleitoral dos novos vizinhos?
Do blog de José Roberto de Toledo
José Serra (PSDB) tem mais chances entre brancos e amarelos. Dilma Rousseff (PT) vai melhor entre pretos e pardos. Se cor da pele equivale a origem étnica, o tucano ganha por 5 pontos nos caucasianos/orientais. Entre os negros, a petista tem 15 pontos de vantagem.
A divisão do eleitorado por cor obedece às mesmas categorias do IBGE. Como no Censo 2010, os entrevistados se auto-classificaram aos pesquisadores do Ibope. Os dois grupos correspondem a 46% (brancos/amarelos) e 53% (pretos/pardos) do eleitorado pesquisado.
A variável não havia sido analisada até agora nesta eleição. Foi incluída na pesquisa pelo Ibope a pedido de grupos militantes do movimento negro.
Uma das conclusões mais importantes dessa análise é que a preferência de pretos/pardos por Dilma e de brancos/amarelos por Serra sobrevive ao controle dos resultados pela renda e escolaridade dos eleitores.
Negros que ganham mais e/ou que cursaram mais séries na escola continuam votando até 30% mais na petista. É um comportamento eleitoral muito diferente dos caucasianos e orientais das mesmas faixas de renda e escolaridade, que votam até 44% mais no adversário.
Considerando-se apenas os eleitores que frequentaram o ensino médio ou superior, Dilma tem 38% entre brancos/amarelos e 51% entre pretos/pardos. Serra tem praticamente os porcentuais inversos: 52% e 42%, respectivamente.
Entre os eleitores com renda superior a 5 salários mínimos, o topo da pirâmide eleitoral, a divisão do voto por cor segue na mesma proporção. Dilma tem 36% entre os brancos (contra 52% de Serra) e 51% entre os negros (contra 40% do adversário).
Há, portanto, fatores que diferenciam o voto dos dois grupos que vão além das condições sócio-econômicas em que vivem. A explicação parece ser tampouco a identificação entre eleitores e candidatos da mesma cor. Tanto Dilma quanto Serra são brancos e filhos de imigrantes europeus.
A sondagem do Ibope fornece pistas, mas não todos os elementos para explicar a clivagem do voto em função da auto-definição do eleitorado.
O conjunto de pesquisas deixa claro, porém, que a cor não é o único fator, nem sequer o principal, para a escolha do presidenciável.
O voto é uma combinação da cor, religião, renda, escolaridade, ocupação e local de moradia do eleitor - não necessariamente nessa ordem. Essas variáveis têm pesos diferentes para cada um.
O religioso dá mais importância à opinião do candidato sobre o aborto, por exemplo. Mas se esse eleitor for beneficiário do Bolsa-Família a opção por um ou outro presidenciável será mais complexa: a balança penderá às vezes para o bolso, às vezes para a orientação religiosa.
Esses pesos e contra-pesos matizam a importância da cor do eleitor na decisão do voto.
Nos segmentos intermediários de renda e escolaridade, Serra ainda vai melhor do que Dilma entre brancos/amarelos, embora sua vantagem não seja tão grande quanto entre os mais ricos e escolarizados da mesma cor.
Já entre os mais pobres (renda até 2 salários mínimos), o tucano apenas empata com a petista no eleitorado branco (45% a 47%), e perde por 20 pontos no negro: 36% a 56%.
A divisão do eleitorado segundo a cor de sua pele encontra um paralelo na geografia do voto nas metrópoles brasileiras. Em São Paulo, os candidatos a presidente do PSDB em 2006 e 2010 obtiveram vantagens maciças nas zonas centrais, mais ricas e tradicionais da cidade.
Em bairros como os Jardins e Pinheiros, onde a grande maioria dos moradores é branca, Geraldo Alckmin (PSDB) obteve até 79% dos votos válidos em 2006. Serra ficou em 68%, mas porque parte desses eleitores optaram por Marina Silva (PV) - uma candidata que, dependendo dos olhos de quem a vê, poderia ser enquadrada em qualquer uma das categorias étnicas.
Substitua-se esses bairros por Copacabana, Leblon e Gávea e o quadro se repete no Rio de Janeiro. A única diferença é que o voto petista não fica limitado à periferia. Está também encastelado nas zonas eleitorais dos morros da Zona Sul, como Rocinha e Vidigal, onde Dilma teve maioria absoluta de votos no primeiro turno.
Os dados sugerem pauta para novas pesquisas e investigações. Por ora, indicam que os que ascenderam recentemente a condições sócio-econômicas melhores mas ainda moram nas mesmas áreas onde viviam seus pais votam majoritariamente em presidenciáveis do PT.
Será curioso observar o comportamento desses emergentes ao longo das próximas eleições. Será que eles se manterão fiéis aos partidos que reivindicam tê-los ajudado a melhorar de vida, ou assimilarão a preferência eleitoral dos novos vizinhos?
terça-feira, 12 de outubro de 2010
ENVIADO POR RICARDO NOBLAT
Deu na Folha de S. Paulo
A fé nos boatos (Editorial)
Mais do que razões religiosas, escândalos fizeram eleitor mudar o voto no final do 1º turno, corrigindo análises precipitadas sobre o pleito
Embora tenham dominado as especulações acerca das causas da fuga de votos da candidata Dilma Rousseff no primeiro turno eleitoral, questões relacionadas à religião exerceram pouca influência no resultado.
Revelações sobre irregularidades cometidas pela ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, e notícias relativas à quebra dos sigilos fiscais de tucanos e parentes do ex-governador José Serra pesaram quase três vezes mais na decisão do eleitor -e seus efeitos colaterais atingiram o próprio candidato do PSDB.
Na reta final, de acordo com pesquisa Datafolha publicada ontem, cerca de 6% do eleitorado decidiu mudar o voto. A candidata do PT perdeu quatro pontos percentuais; Serra, dois.
Segundo o levantamento, 75% das perdas de Dilma foram provocadas pelos escândalos, o mesmo motivo apontado pela parcela que desistiu de votar no postulante do PSDB - talvez apreensiva quanto à correção fiscal dos citados e ao papel da militância tucana nos bastidores desses episódios.
Diante dos dados da pesquisa, a estratégia situacionista de apresentar Dilma Rousseff como vítima de calúnias e preconceitos religiosos - como se viu no debate de domingo à noite, na Rede Bandeirantes - pode resultar de uma análise precipitada.
Mesmo assim, a insistência em abordar esses assuntos, por mais espinhosos que de fato sejam para o petismo, não deixou de ter um aspecto de conveniência. Ao imputar aos adversários a divulgação de boatos e a promoção de uma espécie de cruzada ultraconservadora com o intuito de desmoralizá-la, Dilma deixou em segundo plano o que mais importava - as explicações sobre os desvios na Casa Civil e os critérios que nortearam a escolha de Erenice Guerra para ser sua principal assessora e, posteriormente, ministra.
Ao mesmo tempo, é legítimo que praticantes das diversas religiões desejem saber sobre as convicções pessoais dos candidatos e que sacerdotes procurem orientar os fiéis. O Estado é laico e assegura a liberdade de fé. Dentro desses parâmetros, a participação dos religiosos no debate eleitoral é parte da democracia.
Embora seja evidente o crescimento das igrejas evangélicas no país, parte delas demasiado inclinadas ao reino de César, nada sugere que uma agenda religiosa comece a substituir os temas que tradicionalmente disputam a atenção do eleitorado, ligados ao bem-estar econômico e social.
Os resultados apresentados pelo Datafolha reiteram, ainda, a função da imprensa na configuração do espaço público e do debate democrático. A internet constitui inestimável avanço técnico a serviço de todos os campos da atividade humana. Por mais notável, porém, que seja sua contribuição na área das comunicações, é o jornalismo profissional e independente que, seja na forma impressa, seja na eletrônica, vem iluminando a disputa eleitoral.
A fé nos boatos (Editorial)
Mais do que razões religiosas, escândalos fizeram eleitor mudar o voto no final do 1º turno, corrigindo análises precipitadas sobre o pleito
Embora tenham dominado as especulações acerca das causas da fuga de votos da candidata Dilma Rousseff no primeiro turno eleitoral, questões relacionadas à religião exerceram pouca influência no resultado.
Revelações sobre irregularidades cometidas pela ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, e notícias relativas à quebra dos sigilos fiscais de tucanos e parentes do ex-governador José Serra pesaram quase três vezes mais na decisão do eleitor -e seus efeitos colaterais atingiram o próprio candidato do PSDB.
Na reta final, de acordo com pesquisa Datafolha publicada ontem, cerca de 6% do eleitorado decidiu mudar o voto. A candidata do PT perdeu quatro pontos percentuais; Serra, dois.
Segundo o levantamento, 75% das perdas de Dilma foram provocadas pelos escândalos, o mesmo motivo apontado pela parcela que desistiu de votar no postulante do PSDB - talvez apreensiva quanto à correção fiscal dos citados e ao papel da militância tucana nos bastidores desses episódios.
Diante dos dados da pesquisa, a estratégia situacionista de apresentar Dilma Rousseff como vítima de calúnias e preconceitos religiosos - como se viu no debate de domingo à noite, na Rede Bandeirantes - pode resultar de uma análise precipitada.
Mesmo assim, a insistência em abordar esses assuntos, por mais espinhosos que de fato sejam para o petismo, não deixou de ter um aspecto de conveniência. Ao imputar aos adversários a divulgação de boatos e a promoção de uma espécie de cruzada ultraconservadora com o intuito de desmoralizá-la, Dilma deixou em segundo plano o que mais importava - as explicações sobre os desvios na Casa Civil e os critérios que nortearam a escolha de Erenice Guerra para ser sua principal assessora e, posteriormente, ministra.
Ao mesmo tempo, é legítimo que praticantes das diversas religiões desejem saber sobre as convicções pessoais dos candidatos e que sacerdotes procurem orientar os fiéis. O Estado é laico e assegura a liberdade de fé. Dentro desses parâmetros, a participação dos religiosos no debate eleitoral é parte da democracia.
Embora seja evidente o crescimento das igrejas evangélicas no país, parte delas demasiado inclinadas ao reino de César, nada sugere que uma agenda religiosa comece a substituir os temas que tradicionalmente disputam a atenção do eleitorado, ligados ao bem-estar econômico e social.
Os resultados apresentados pelo Datafolha reiteram, ainda, a função da imprensa na configuração do espaço público e do debate democrático. A internet constitui inestimável avanço técnico a serviço de todos os campos da atividade humana. Por mais notável, porém, que seja sua contribuição na área das comunicações, é o jornalismo profissional e independente que, seja na forma impressa, seja na eletrônica, vem iluminando a disputa eleitoral.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
TÁ NO BLOG DE JOSIAS DE SOUSA
Boato de lesbianismo levou à agressividade de Dilma
Moacyr Lopes Jr./Folha
O tom agressivo empregado por Dilma Rousseff no debate presidencial da noite passada tem origem num boato.
O comitê de campanha da pupila de Lula foi informado acerca de um falso processo judicial que circula na internet.
Na peça, um suposto advogado aciona Dilma em nome de uma hipotética ex-doméstica da candidata.
A empregada fictícia sustenta no processo de fancaria ter mantido com Dilma um relacionamento amoroso de 15 anos. Cobra indenização.
Há três dias, o deputado eleito Gabriel Chalita (PSB-SP) tratou do tema em conversa com um petista ligado ao comando da campanha de Dilma.
Chalita contou que um religioso o havia procurado para dizer que recebera cópia de processo em que Dilma era acusada de lesbianismo.
O interlocutor pediu a Chalita que aconselhasse o bispo a checar o número de registro na OAB do advogado que assina o processo. “Não existe. É falso”, disse.
Em diálogos privados que antecederam o debate nos estúdios da TV Bandeirantes, Dilma e seus operadores atribuíram a aleivosia à campanha de José Serra.
Entre quatro paredes, a candidata petista se disse “indignada”. Para ela, o boato do processo tornou incontornável a inclusão da "baixaria" no rol de temas do debate.
Vem daí a decisão de Dilma de inquirir Serra, já na primeira pergunta, acerca da boataria que viceja no “submundo” virtual.
Como as suspeitas contra Serra não estão escoradas em provas, Dilma evitou mencionar o falso processo. Soou genérica:
“Acredito que uma candidatura à Presidência tem por objetivo engrandecer o Brasil, discutir valores e projetos para o futuro”, disse ela para Serra.
“Sua campanha procura me atingir por meio de calúnias, mentiras e difamações. [...] Seu vice, Índio da Costa, a única coisa que ele faz é criar e organizar grupos, até para me atingir com questões religiosas...”
“[...]...Você considera que essa forma de fazer campanha, que usa o submundo, é correta?”
Serra centrou sua resposta na polêmica sobre o aborto e no ‘Erenicegate’. Disse que Dilma confunde “verdades e reportagens com ataques”.
Um integrante do comitê petista contou ao repórter que, antes do início do debate, chegou aos ouvidos de Dilma outra “informação”.
Segundo ele, um panfleto apócrifo contendo ataques à candidata teria sido distribuído em templos evangélicos do Rio, neste domingo (10).
No folheto, Dilma é associada, de novo, à defesa do aborto. O texto a acusa de ser a favor da “matança de criancinhas”.
Foi por essa razão, informa o operador da campanha petista, que a candidata levou aos holofotes o nome da mulher do antagonista.
“Sua esposa, Mônica Serra, disse o seguinte: ‘A Dilma é a favor da morte de criancinhas’.”
Mônica teria dirigido o comentário a um eleitor, durante caminhada pelas ruas de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense (RJ). Coisa do mês passado.
Serra esquivou-se de responder. Presente à platéia da TV Bandeirantes, Mônica não se deu por aludida. Disse que não sabe do que Dilma está falando.
Ouvido pelo blog, um membro da campanha tucana tachou de “alucinação” a alegada vinculação de Serra ao falso processo que retrata Dilma como lésbica.
Como se vê, a disputa eleitoral de 2010 caminha a passos largos para um lodaçal que não dignifica a atividade política.
Moacyr Lopes Jr./Folha
O tom agressivo empregado por Dilma Rousseff no debate presidencial da noite passada tem origem num boato.
O comitê de campanha da pupila de Lula foi informado acerca de um falso processo judicial que circula na internet.
Na peça, um suposto advogado aciona Dilma em nome de uma hipotética ex-doméstica da candidata.
A empregada fictícia sustenta no processo de fancaria ter mantido com Dilma um relacionamento amoroso de 15 anos. Cobra indenização.
Há três dias, o deputado eleito Gabriel Chalita (PSB-SP) tratou do tema em conversa com um petista ligado ao comando da campanha de Dilma.
Chalita contou que um religioso o havia procurado para dizer que recebera cópia de processo em que Dilma era acusada de lesbianismo.
O interlocutor pediu a Chalita que aconselhasse o bispo a checar o número de registro na OAB do advogado que assina o processo. “Não existe. É falso”, disse.
Em diálogos privados que antecederam o debate nos estúdios da TV Bandeirantes, Dilma e seus operadores atribuíram a aleivosia à campanha de José Serra.
Entre quatro paredes, a candidata petista se disse “indignada”. Para ela, o boato do processo tornou incontornável a inclusão da "baixaria" no rol de temas do debate.
Vem daí a decisão de Dilma de inquirir Serra, já na primeira pergunta, acerca da boataria que viceja no “submundo” virtual.
Como as suspeitas contra Serra não estão escoradas em provas, Dilma evitou mencionar o falso processo. Soou genérica:
“Acredito que uma candidatura à Presidência tem por objetivo engrandecer o Brasil, discutir valores e projetos para o futuro”, disse ela para Serra.
“Sua campanha procura me atingir por meio de calúnias, mentiras e difamações. [...] Seu vice, Índio da Costa, a única coisa que ele faz é criar e organizar grupos, até para me atingir com questões religiosas...”
“[...]...Você considera que essa forma de fazer campanha, que usa o submundo, é correta?”
Serra centrou sua resposta na polêmica sobre o aborto e no ‘Erenicegate’. Disse que Dilma confunde “verdades e reportagens com ataques”.
Um integrante do comitê petista contou ao repórter que, antes do início do debate, chegou aos ouvidos de Dilma outra “informação”.
Segundo ele, um panfleto apócrifo contendo ataques à candidata teria sido distribuído em templos evangélicos do Rio, neste domingo (10).
No folheto, Dilma é associada, de novo, à defesa do aborto. O texto a acusa de ser a favor da “matança de criancinhas”.
Foi por essa razão, informa o operador da campanha petista, que a candidata levou aos holofotes o nome da mulher do antagonista.
“Sua esposa, Mônica Serra, disse o seguinte: ‘A Dilma é a favor da morte de criancinhas’.”
Mônica teria dirigido o comentário a um eleitor, durante caminhada pelas ruas de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense (RJ). Coisa do mês passado.
Serra esquivou-se de responder. Presente à platéia da TV Bandeirantes, Mônica não se deu por aludida. Disse que não sabe do que Dilma está falando.
Ouvido pelo blog, um membro da campanha tucana tachou de “alucinação” a alegada vinculação de Serra ao falso processo que retrata Dilma como lésbica.
Como se vê, a disputa eleitoral de 2010 caminha a passos largos para um lodaçal que não dignifica a atividade política.
TÁ NO BLOG DO NOBLAT
Comentário
O lance arriscado de Dilma
A partir de hoje, os comerciais da campanha de Dilma Rousseff na TV passarão a bater mais duro em José Serra. Na linha do discurso agressivo adotado por Dilma no debate promovido pela Rede Bandeirantes de Televisão ontem à noite.
Dilma nunca foi tão Dilma quanto no debate. Quem trabalha com ela sabe disso. Com uma diferença: o reencontro de Dilma com ela mesma atendeu a claros objetivos eleitorais.
Era preciso afastar o clima sombrio que pairava sobre os militantes do PT e os aliados de Dilma desde que se desmanchara no ar a certeza da vitória certa no primeiro turno.
De resto, surgira mais um agravante: a primeira pesquisa de intenção de votos do Datafolha para o segundo turno confirmou o viés de queda de Dilma. Diminuiu a vantagem dela sobre Serra.
Era preciso, também, encontrar uma saída para o problema criado pela própria Dilma quando em duas ocasiões defendeu a descriminalização do aborto.
A saída foi fornecida pela mulher de Serra, Mônica, que outro dia acusou Dilma de querer "matar criacinhas".
Dilma culpou Mônica pela "mais sórdida" onda de ataques já sofrida por um político brasileiro - no caso, ela.
Evidente exagero, é claro. Dilma não apanhou até agora metade do que apanharam no passado, por exemplo, Getúlio Vargas, o próprio Lula.
Dilma repetiu contra Serra a manobra que foi fatal para Geraldo Alckmin em 2006: acusou-o de pretender seguir privatizando empresas.
Por fim, Dilma chamou Serra de homem de mil caras, apontou supostos defeitos de sua administração como governador de São Paulo e reforçou a ligação dele com o governo mal avaliado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Os estudiosos de eleições e os marqueteiros costumam dizer que perde quem bate muito. Esquecem que perde igualmente quem não se defende.
Dilma defendeu-se atacando.
Supreendido por uma adversária que não conhecia, da qual apenas ouvira falar, Serra reagiu na maioria das ocasiões com uma excessiva frieza.
Foi cuidadoso ao tratar da questão do aborto. Não defendeu sequer sua mulher. Mas soube explorar, e mais de uma vez, os recentes escândalos que subtraíram de Dilma preciosos votos.
A saber: a quebra do sigilo fiscal de nomes ligados ao PSDB e a queda de Erenice Guerra, ex-ministra da Casa Civil, acusada de ter acobertado as atividades suspeitas dos seus dois filhos na intermediação de negócios com o governo.
No primeiro turno, Serra foi melhor do que sua propaganda política - ao contrário de Dilma que foi pior.
No debate promovido pela Rede Bandeirantes, os papéis se inverteram.
Somente as próximas pesquisas poderão confirmar se Dilma ganhou votos ou se parou de perdê-los ao se apresentar como é.
Foi um lance arriscado dela, esse. Mas não se ganha eleição sem correr riscos.
No mínimo, o PT amanheceu, hoje, mais feliz. E também mais disposto a tentar eleger a candidata que Lula lhe empurrou goela abaixo.
O lance arriscado de Dilma
A partir de hoje, os comerciais da campanha de Dilma Rousseff na TV passarão a bater mais duro em José Serra. Na linha do discurso agressivo adotado por Dilma no debate promovido pela Rede Bandeirantes de Televisão ontem à noite.
Dilma nunca foi tão Dilma quanto no debate. Quem trabalha com ela sabe disso. Com uma diferença: o reencontro de Dilma com ela mesma atendeu a claros objetivos eleitorais.
Era preciso afastar o clima sombrio que pairava sobre os militantes do PT e os aliados de Dilma desde que se desmanchara no ar a certeza da vitória certa no primeiro turno.
De resto, surgira mais um agravante: a primeira pesquisa de intenção de votos do Datafolha para o segundo turno confirmou o viés de queda de Dilma. Diminuiu a vantagem dela sobre Serra.
Era preciso, também, encontrar uma saída para o problema criado pela própria Dilma quando em duas ocasiões defendeu a descriminalização do aborto.
A saída foi fornecida pela mulher de Serra, Mônica, que outro dia acusou Dilma de querer "matar criacinhas".
Dilma culpou Mônica pela "mais sórdida" onda de ataques já sofrida por um político brasileiro - no caso, ela.
Evidente exagero, é claro. Dilma não apanhou até agora metade do que apanharam no passado, por exemplo, Getúlio Vargas, o próprio Lula.
Dilma repetiu contra Serra a manobra que foi fatal para Geraldo Alckmin em 2006: acusou-o de pretender seguir privatizando empresas.
Por fim, Dilma chamou Serra de homem de mil caras, apontou supostos defeitos de sua administração como governador de São Paulo e reforçou a ligação dele com o governo mal avaliado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Os estudiosos de eleições e os marqueteiros costumam dizer que perde quem bate muito. Esquecem que perde igualmente quem não se defende.
Dilma defendeu-se atacando.
Supreendido por uma adversária que não conhecia, da qual apenas ouvira falar, Serra reagiu na maioria das ocasiões com uma excessiva frieza.
Foi cuidadoso ao tratar da questão do aborto. Não defendeu sequer sua mulher. Mas soube explorar, e mais de uma vez, os recentes escândalos que subtraíram de Dilma preciosos votos.
A saber: a quebra do sigilo fiscal de nomes ligados ao PSDB e a queda de Erenice Guerra, ex-ministra da Casa Civil, acusada de ter acobertado as atividades suspeitas dos seus dois filhos na intermediação de negócios com o governo.
No primeiro turno, Serra foi melhor do que sua propaganda política - ao contrário de Dilma que foi pior.
No debate promovido pela Rede Bandeirantes, os papéis se inverteram.
Somente as próximas pesquisas poderão confirmar se Dilma ganhou votos ou se parou de perdê-los ao se apresentar como é.
Foi um lance arriscado dela, esse. Mas não se ganha eleição sem correr riscos.
No mínimo, o PT amanheceu, hoje, mais feliz. E também mais disposto a tentar eleger a candidata que Lula lhe empurrou goela abaixo.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
POR CARLOS CHAGAS - COLUNISTA
O ELOGIO DA LOUCURA
Por Carlos Chagas
É conhecida a história do Barão de Itararé, preso em plena ditadura do Estado Novo quando desceu de seu escritório, na Avenida Rio Branco, para tomar um café. Ficou semanas na cadeia sem acusação formal, processo ou, sequer, chamado a dar depoimento. Amigos do inesquecível Aparício Torelli, seu nome de batismo, organizaram-se e levaram o caso a um ministro do Supremo Tribunal Federal, que convocou o Barão. Perguntou porque ele estava preso e veio a resposta irreverente que fez o jornalista continuar mais algumas semanas atrás das grades:
“Excelência, foi aquele maldito cafezinho!”
Sem entender, o ministro quis detalhes e o réu sem culpa explicou que estava trabalhando há horas na elaboração de mais um número de seu jornal, “A Manha”, quando resolveu ir ao botequim tomar um café. Pediu, pagou e quando ia levando a pequena xícara aos lábios, um investigador de polícia botou a mão no seu ombro e disse o clássico “teje preso”. Só pode ter sido o cafezinho, completou o Barão.
Pois é. José Serra perdeu a eleição, ainda que tenha conseguido uma nova chance, preparando-se para disputar o segundo turno com Dilma Rousseff. Por que perdeu?
A explicação do Alto Tucanato é digna daquela que deu o Barão, décadas atrás: Serra perdeu porque em sua campanha ignorou a obra de Fernando Henrique Cardoso, em especial as privatizações...
O grotesco nesse episódio é que o PSDB conseguiu convencer o candidato a voltar atrás e a iniciar uma ladainha de “Meas Culpas”, desde segunda-feira homenageando o sociólogo como o grande inspirador de sua campanha. Mudou de diretriz em meio ao percurso, iniciativa mais do que perigosa. Pode não ganhar nada com os louvores ao antecessor e até perder votos, se insistir. Porque o povão não está nem aí para o Plano Real, aliás, de autoria do então presidente Itamar Franco e dos ministros Rubem Ricúpero e Ciro Gomes.
Do que o eleitorado quer saber, e a observação vale também para Dilma Rousseff, é sobre planos, projetos e programas dos candidatos para o futuro. Que setores merecerão seus maiores cuidados, e como? Centralizar a campanha no Plano Real e nas privatizações dos anos noventa será tão eficaz para Serra quanto pegar uma toalha e começar a enxugar gelo...
CÂNDIDE, OU O OTIMISMO
Começamos com a lembrança de Erasmo de Rotterdã, autor do famoso “Elogio da Loucura”, que quase o levou para a fogueira mas serviu para a demolição dos arcaicos dogmas e conceitos sustentados pela Igreja durante a Idade Média.
Vale passarmos para uma entre centenas de magistrais obras de François Marie Arouet, o Voltaire. Ele rejeitava verdades absolutas, sofreu com perseguições, prisões, exílios e penduricalhos. Não raro tinha que fugir das maiores cortes euopéias para não ser preso. Decidiu, então, escrever uma obra que agradasse a todos, uma ode ao otimismo capaz de agradar à nobreza, ao clero e aos poderosos. Num fim de semana produziu “Cândide, ou o Otimismo” onde relata as agruras e os dissabores de um jovem ingênuo e seu professor, o dr. Pangloss, cujos óculos transformavam desgraças em maravilhosas benesses.
Se o “Elogio da Loucura”presta-se a uma advertência a José Serra, por estar deixando levar-se pelo que de mais reacionário existiu no governo Fernando Henrique, “Cândide” serve como uma luva para expor as entranhas do grupo que pretende engessar Dilma Rousseff, transmitindo-lhe uma visão infame, pronta para ser esmagada, daquilo que seria sua presença na presidência da República. Se é para ver o Brasil pelas lentes do professor Lula (perdão, do professor Pangloss), o destino da candidata será o mesmo do personagem de Voltaire: enganar-se permanentemente.
Por Carlos Chagas
É conhecida a história do Barão de Itararé, preso em plena ditadura do Estado Novo quando desceu de seu escritório, na Avenida Rio Branco, para tomar um café. Ficou semanas na cadeia sem acusação formal, processo ou, sequer, chamado a dar depoimento. Amigos do inesquecível Aparício Torelli, seu nome de batismo, organizaram-se e levaram o caso a um ministro do Supremo Tribunal Federal, que convocou o Barão. Perguntou porque ele estava preso e veio a resposta irreverente que fez o jornalista continuar mais algumas semanas atrás das grades:
“Excelência, foi aquele maldito cafezinho!”
Sem entender, o ministro quis detalhes e o réu sem culpa explicou que estava trabalhando há horas na elaboração de mais um número de seu jornal, “A Manha”, quando resolveu ir ao botequim tomar um café. Pediu, pagou e quando ia levando a pequena xícara aos lábios, um investigador de polícia botou a mão no seu ombro e disse o clássico “teje preso”. Só pode ter sido o cafezinho, completou o Barão.
Pois é. José Serra perdeu a eleição, ainda que tenha conseguido uma nova chance, preparando-se para disputar o segundo turno com Dilma Rousseff. Por que perdeu?
A explicação do Alto Tucanato é digna daquela que deu o Barão, décadas atrás: Serra perdeu porque em sua campanha ignorou a obra de Fernando Henrique Cardoso, em especial as privatizações...
O grotesco nesse episódio é que o PSDB conseguiu convencer o candidato a voltar atrás e a iniciar uma ladainha de “Meas Culpas”, desde segunda-feira homenageando o sociólogo como o grande inspirador de sua campanha. Mudou de diretriz em meio ao percurso, iniciativa mais do que perigosa. Pode não ganhar nada com os louvores ao antecessor e até perder votos, se insistir. Porque o povão não está nem aí para o Plano Real, aliás, de autoria do então presidente Itamar Franco e dos ministros Rubem Ricúpero e Ciro Gomes.
Do que o eleitorado quer saber, e a observação vale também para Dilma Rousseff, é sobre planos, projetos e programas dos candidatos para o futuro. Que setores merecerão seus maiores cuidados, e como? Centralizar a campanha no Plano Real e nas privatizações dos anos noventa será tão eficaz para Serra quanto pegar uma toalha e começar a enxugar gelo...
CÂNDIDE, OU O OTIMISMO
Começamos com a lembrança de Erasmo de Rotterdã, autor do famoso “Elogio da Loucura”, que quase o levou para a fogueira mas serviu para a demolição dos arcaicos dogmas e conceitos sustentados pela Igreja durante a Idade Média.
Vale passarmos para uma entre centenas de magistrais obras de François Marie Arouet, o Voltaire. Ele rejeitava verdades absolutas, sofreu com perseguições, prisões, exílios e penduricalhos. Não raro tinha que fugir das maiores cortes euopéias para não ser preso. Decidiu, então, escrever uma obra que agradasse a todos, uma ode ao otimismo capaz de agradar à nobreza, ao clero e aos poderosos. Num fim de semana produziu “Cândide, ou o Otimismo” onde relata as agruras e os dissabores de um jovem ingênuo e seu professor, o dr. Pangloss, cujos óculos transformavam desgraças em maravilhosas benesses.
Se o “Elogio da Loucura”presta-se a uma advertência a José Serra, por estar deixando levar-se pelo que de mais reacionário existiu no governo Fernando Henrique, “Cândide” serve como uma luva para expor as entranhas do grupo que pretende engessar Dilma Rousseff, transmitindo-lhe uma visão infame, pronta para ser esmagada, daquilo que seria sua presença na presidência da República. Se é para ver o Brasil pelas lentes do professor Lula (perdão, do professor Pangloss), o destino da candidata será o mesmo do personagem de Voltaire: enganar-se permanentemente.
O CONGRESSO EM FOCO
Em defesa do Tiririca
Rogério Schmitt*
Com um título provocativo desses, já imagino que esta minha coluna irá despertar muita polêmica entre os meus leitores. Imagino também que receberei uma maioria de comentários bastante críticos. Também, quem me mandou escolher justamente esse assunto entre todos aqueles sobre os quais poderia ter escrito nesta semana pós-primeiro turno? Mas resolvi nadar contra a corrente!
Não posso ignorar os relatos de que o lançamento da candidatura do Tiririca fez parte de uma elaboradíssima estratégia eleitoral dos partidos reunidos na coligação que o lançou. Mas pretendo explorar o assunto a partir de um outro ângulo.
Antes de tudo, posso assegurar aos internautas que não votei no Tiririca. Aliás, sequer cogitei a possibilidade de votar no Tiririca. Nunca conheci o Tiririca pessoalmente, e nem ao menos conheço alguém que já tenha privado da sua companhia. Em compensação, confesso que me diverti bastante nas últimas semanas com as imitações do Tiririca feitas lá em casa pelo meu enteado de sete anos.
O fato é que o Tiririca despontou como a maior atração dessa campanha eleitoral, pelo menos no estado de São Paulo. Foi candidato a deputado federal e obteve nada menos do que 1 milhão e 353 mil 820 votos. Em outras palavras, um em cada 16 eleitores paulistas (considerando os votos válidos para deputado federal) escolheram o Tiririca como seu representante na Câmara. Ele será o deputado mais votado do país na próxima legislatura. A votação obtida pelo Tiririca elegeu ainda mais três deputados da sua coligação partidária.
Esse resultado já vinha sendo antecipado desde agosto, quanto teve início a campanha eleitoral na televisão. A imprensa noticiou que as pesquisas de intenção de voto para deputado feitas pelo Ibope em São Paulo apontavam que o Tiririca seria o recordista de votos nesta eleição. Os analistas especializados também advertiram precocemente que o Tiririca ajudaria a eleger outros candidatos da mesma coligação partidária. De fato, todas essas previsões se consumaram.
Nesse tempo todo, o Tiririca foi objeto de inúmeras reportagens jornalísticas, editoriais e colunas de opinião. Quase sempre, o tom dessas matérias era negativo. Em alguns casos, a própria candidatura do Tiririca foi apresentada como uma desmoralização da democracia. Em outros casos, o voto no Tiririca foi reduzido a um simples voto de protesto. Essas análises sempre me incomodaram. Algumas vezes, pelo seu indisfaçável viés elitista e/ou autoritário. Outras vezes, pela total falta de comprovação empírica das hipóteses levantadas.
O fato de figuras como o Tiririca disputarem eleições absolutamente não coloca em risco a nossa democracia. Artistas de televisão, ex-jogadores de futebol e palhaços têm o mesmo direito de serem candidatos que qualquer um de nós. Eles sempre estiveram presentes nas campanhas eleitorais desde o fim do regime militar. A grande maioria deles simplesmente não consegue se eleger. E os que conseguem, quase sempre acabam integrando o chamado "baixo clero" parlamentar.
No caso específico do Tiririca, duvido que a maoria dos seus eleitores sejam jovens abastados de classe média que encontraram uma forma bem-humorada de protestar contra a nossa classe política. Será que ninguém parou para pensar no fato de que a região metropolitana de São Paulo concentra a maior população nordestina do país fora do Nordeste? No meu entender, o voto no Tiririca foi predominantemente um voto "sociológico". Os eleitores pobres de origem nordestina radicados na terra da garoa simplesmente se viram refletidos num candidato com o mesmo perfil social que eles. Não vejo problema algum em escolher um candidato a deputado com base nesses critérios. Ainda por cima, o cara é engraçado!
Alguns de nós podem não gostar da ideia de ter o Tiririca como nosso representante, mas ele merece ser deixado em paz. Pensando bem, vou procurar no You Tube o clássico clip de "Florentina" para mostrar ao meu enteado. Acho que ambos iremos nos divertir muito juntos!
Veja ainda:
Juiz dá prazo para Tiririca provar que lê e escreve
Lewandowski: Tiririca não deve ser considerado
Tiririca admite em programa que não sabe ler
Os resultados das eleições no primeiro turno
* Consultor político, com doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Foi professor da Universidade de São Paulo (USP), da PUC-SP e da Fesp-SP. Publicou o livro Partidos políticos do Brasil: 1945-2000 (Jorge Zahar Editor, 2000) e co-organizou a coletânea Partidos e coligações eleitorais no Brasil (Unesp/Fundação Konrad Adenauer, 2005).
Outros textos do colunista Rogério Schmitt*
Rogério Schmitt*
Com um título provocativo desses, já imagino que esta minha coluna irá despertar muita polêmica entre os meus leitores. Imagino também que receberei uma maioria de comentários bastante críticos. Também, quem me mandou escolher justamente esse assunto entre todos aqueles sobre os quais poderia ter escrito nesta semana pós-primeiro turno? Mas resolvi nadar contra a corrente!
Não posso ignorar os relatos de que o lançamento da candidatura do Tiririca fez parte de uma elaboradíssima estratégia eleitoral dos partidos reunidos na coligação que o lançou. Mas pretendo explorar o assunto a partir de um outro ângulo.
Antes de tudo, posso assegurar aos internautas que não votei no Tiririca. Aliás, sequer cogitei a possibilidade de votar no Tiririca. Nunca conheci o Tiririca pessoalmente, e nem ao menos conheço alguém que já tenha privado da sua companhia. Em compensação, confesso que me diverti bastante nas últimas semanas com as imitações do Tiririca feitas lá em casa pelo meu enteado de sete anos.
O fato é que o Tiririca despontou como a maior atração dessa campanha eleitoral, pelo menos no estado de São Paulo. Foi candidato a deputado federal e obteve nada menos do que 1 milhão e 353 mil 820 votos. Em outras palavras, um em cada 16 eleitores paulistas (considerando os votos válidos para deputado federal) escolheram o Tiririca como seu representante na Câmara. Ele será o deputado mais votado do país na próxima legislatura. A votação obtida pelo Tiririca elegeu ainda mais três deputados da sua coligação partidária.
Esse resultado já vinha sendo antecipado desde agosto, quanto teve início a campanha eleitoral na televisão. A imprensa noticiou que as pesquisas de intenção de voto para deputado feitas pelo Ibope em São Paulo apontavam que o Tiririca seria o recordista de votos nesta eleição. Os analistas especializados também advertiram precocemente que o Tiririca ajudaria a eleger outros candidatos da mesma coligação partidária. De fato, todas essas previsões se consumaram.
Nesse tempo todo, o Tiririca foi objeto de inúmeras reportagens jornalísticas, editoriais e colunas de opinião. Quase sempre, o tom dessas matérias era negativo. Em alguns casos, a própria candidatura do Tiririca foi apresentada como uma desmoralização da democracia. Em outros casos, o voto no Tiririca foi reduzido a um simples voto de protesto. Essas análises sempre me incomodaram. Algumas vezes, pelo seu indisfaçável viés elitista e/ou autoritário. Outras vezes, pela total falta de comprovação empírica das hipóteses levantadas.
O fato de figuras como o Tiririca disputarem eleições absolutamente não coloca em risco a nossa democracia. Artistas de televisão, ex-jogadores de futebol e palhaços têm o mesmo direito de serem candidatos que qualquer um de nós. Eles sempre estiveram presentes nas campanhas eleitorais desde o fim do regime militar. A grande maioria deles simplesmente não consegue se eleger. E os que conseguem, quase sempre acabam integrando o chamado "baixo clero" parlamentar.
No caso específico do Tiririca, duvido que a maoria dos seus eleitores sejam jovens abastados de classe média que encontraram uma forma bem-humorada de protestar contra a nossa classe política. Será que ninguém parou para pensar no fato de que a região metropolitana de São Paulo concentra a maior população nordestina do país fora do Nordeste? No meu entender, o voto no Tiririca foi predominantemente um voto "sociológico". Os eleitores pobres de origem nordestina radicados na terra da garoa simplesmente se viram refletidos num candidato com o mesmo perfil social que eles. Não vejo problema algum em escolher um candidato a deputado com base nesses critérios. Ainda por cima, o cara é engraçado!
Alguns de nós podem não gostar da ideia de ter o Tiririca como nosso representante, mas ele merece ser deixado em paz. Pensando bem, vou procurar no You Tube o clássico clip de "Florentina" para mostrar ao meu enteado. Acho que ambos iremos nos divertir muito juntos!
Veja ainda:
Juiz dá prazo para Tiririca provar que lê e escreve
Lewandowski: Tiririca não deve ser considerado
Tiririca admite em programa que não sabe ler
Os resultados das eleições no primeiro turno
* Consultor político, com doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Foi professor da Universidade de São Paulo (USP), da PUC-SP e da Fesp-SP. Publicou o livro Partidos políticos do Brasil: 1945-2000 (Jorge Zahar Editor, 2000) e co-organizou a coletânea Partidos e coligações eleitorais no Brasil (Unesp/Fundação Konrad Adenauer, 2005).
Outros textos do colunista Rogério Schmitt*
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artigo
Hora de comparar projetos
As fileiras tucanas estão exultantes com o segundo turno para as eleições presidenciais: a sobrevida de José Serra na disputa foi vista como uma grande vitória para o partido. Mas essa é uma leitura enviesada e bastante questionável.
Inicialmente, porque as grandes vitoriosas no primeiro turno das eleições foram as duas candidatas mulheres: Dilma Rousseff, que confirmou o que já era esperado e somou 47,6 milhões de votos, quase vencendo no primeiro turno; e Marina Silva, uma candidata que partiu do zero e alcançou notáveis 19% dos votos.
Mas a pauta do segundo turno estará voltada à comparação das propostas de Dilma e Serra e também do que fizeram o Governo Lula e a gestão Fernando Henrique Cardoso. Esse confronto se dará em um contexto em que Dilma obteve 14 milhões de votos a mais que Serra no primeiro turno e em que a oposição colecionou revezes.
O saldo negativo para a oposição inclui as cadeiras no Congresso Nacional: o PSDB perdeu representantes que fizeram oposição sistemática e até raivosa no Senado —entre eles, Tasso Jereissati e Arthur Virgílio, reprovados nas urnas. Juntos, PSDB, DEM e PPS viram a bancada da oposição na Câmara perder 42 vagas.
Mas a maior dificuldade que os tucanos terão neste segundo turno é fazer um debate programático, de comparação dos dois modos de governar e das propostas apresentadas. O candidato José Serra passou o primeiro turno inteiro fugindo disso, escondendo FHC e como o PSDB agiu quando foi governo. Mas também adotou uma linha de não apresentar um programa de governo e ficar prometendo coisas aqui e ali.
Serra vai tentar focar sua campanha apenas na comparação das biografias, mas não tem como negar que Dilma tem excelente trabalho prestado ao Governo Lula, tanto no Ministério de Minas e Energia, quanto na Casa Civil, coordenando programas bem-sucedidos como o “Minha Casa, Minha Vida”, o “Luz para Todos” e o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento).
Além desses programas, o Governo Lula deixa um legado positivo ao país, que nos permitiu ganhar prestígio internacional, crescer de forma vigorosa com geração de empregos, fortalecer a indústria nacional (com possibilidade de nos tornarmos a quinta economia mundial na próxima década) e melhorar nos indicadores sociais.
Some-se a isso a democratização do acesso à renda, conduzida por meio de programas de transferência de renda como o Bolsa Família, a política de valorização constante do salário mínimo e a facilitação de crédito para a população. Foram decisões políticas que permitiram a mais de 28 milhões de pessoas que viviam em situação de miséria ingressar na roda da economia, tornando-se consumidoras-cidadãs. Nada disso se viu na gestão de FHC e Serra.
Sem a competência de Dilma à frente do Ministério de Minas e Energia (onde conduziu o programa Luz para Todos) e na Casa Civil, período em que coordenou os PACs 1 e 2, o Governo Lula não teria sido tão eficiente. Já Serra representa, como ministro do Planejamento de FHC, o apagão, a dívida externa nas alturas, o desemprego em massa e a ausência de programas sociais capazes de mudar a vida das pessoas.
Esse conjunto de transformações não terá continuidade com Serra. Afinal, é Dilma a candidata que representa esse projeto. Por isso, entre outras coisas, consta de seu programa de governo: construir 6.000 creches; levar adiante o PAC 2 para preparar o país para a Copa e as Olimpíadas e atacar de vez os principais problemas das grandes cidades (mobilidade, moradias em situação de risco, trânsito, saneamento); construir 500 UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento), utilizar recursos do pré-sal em educação, saúde e proteção ao meio ambiente; e levar para todo o país o modelo das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), de parceria entre governos municipal, estadual e federal para combater a violência, programa que tem trazido ótimos resultados no Rio de Janeiro.
O povo brasileiro já conhece as duas histórias e fará sua escolha entre o Brasil que cresce de forma sustentável a caminho de se tornar uma potência, representado por Dilma e o Governo Lula, e o país que estava definhando política, econômica e socialmente, representado por FHC e Serra. O brasileiro reconhecerá em Dilma a candidata que irá continuar a obra de Lula na mesma direção, a primeira mulher presidente do Brasil.
José Dirceu, 64, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e integrante do Diretório Nacional do PT
Hora de comparar projetos
As fileiras tucanas estão exultantes com o segundo turno para as eleições presidenciais: a sobrevida de José Serra na disputa foi vista como uma grande vitória para o partido. Mas essa é uma leitura enviesada e bastante questionável.
Inicialmente, porque as grandes vitoriosas no primeiro turno das eleições foram as duas candidatas mulheres: Dilma Rousseff, que confirmou o que já era esperado e somou 47,6 milhões de votos, quase vencendo no primeiro turno; e Marina Silva, uma candidata que partiu do zero e alcançou notáveis 19% dos votos.
Mas a pauta do segundo turno estará voltada à comparação das propostas de Dilma e Serra e também do que fizeram o Governo Lula e a gestão Fernando Henrique Cardoso. Esse confronto se dará em um contexto em que Dilma obteve 14 milhões de votos a mais que Serra no primeiro turno e em que a oposição colecionou revezes.
O saldo negativo para a oposição inclui as cadeiras no Congresso Nacional: o PSDB perdeu representantes que fizeram oposição sistemática e até raivosa no Senado —entre eles, Tasso Jereissati e Arthur Virgílio, reprovados nas urnas. Juntos, PSDB, DEM e PPS viram a bancada da oposição na Câmara perder 42 vagas.
Mas a maior dificuldade que os tucanos terão neste segundo turno é fazer um debate programático, de comparação dos dois modos de governar e das propostas apresentadas. O candidato José Serra passou o primeiro turno inteiro fugindo disso, escondendo FHC e como o PSDB agiu quando foi governo. Mas também adotou uma linha de não apresentar um programa de governo e ficar prometendo coisas aqui e ali.
Serra vai tentar focar sua campanha apenas na comparação das biografias, mas não tem como negar que Dilma tem excelente trabalho prestado ao Governo Lula, tanto no Ministério de Minas e Energia, quanto na Casa Civil, coordenando programas bem-sucedidos como o “Minha Casa, Minha Vida”, o “Luz para Todos” e o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento).
Além desses programas, o Governo Lula deixa um legado positivo ao país, que nos permitiu ganhar prestígio internacional, crescer de forma vigorosa com geração de empregos, fortalecer a indústria nacional (com possibilidade de nos tornarmos a quinta economia mundial na próxima década) e melhorar nos indicadores sociais.
Some-se a isso a democratização do acesso à renda, conduzida por meio de programas de transferência de renda como o Bolsa Família, a política de valorização constante do salário mínimo e a facilitação de crédito para a população. Foram decisões políticas que permitiram a mais de 28 milhões de pessoas que viviam em situação de miséria ingressar na roda da economia, tornando-se consumidoras-cidadãs. Nada disso se viu na gestão de FHC e Serra.
Sem a competência de Dilma à frente do Ministério de Minas e Energia (onde conduziu o programa Luz para Todos) e na Casa Civil, período em que coordenou os PACs 1 e 2, o Governo Lula não teria sido tão eficiente. Já Serra representa, como ministro do Planejamento de FHC, o apagão, a dívida externa nas alturas, o desemprego em massa e a ausência de programas sociais capazes de mudar a vida das pessoas.
Esse conjunto de transformações não terá continuidade com Serra. Afinal, é Dilma a candidata que representa esse projeto. Por isso, entre outras coisas, consta de seu programa de governo: construir 6.000 creches; levar adiante o PAC 2 para preparar o país para a Copa e as Olimpíadas e atacar de vez os principais problemas das grandes cidades (mobilidade, moradias em situação de risco, trânsito, saneamento); construir 500 UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento), utilizar recursos do pré-sal em educação, saúde e proteção ao meio ambiente; e levar para todo o país o modelo das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), de parceria entre governos municipal, estadual e federal para combater a violência, programa que tem trazido ótimos resultados no Rio de Janeiro.
O povo brasileiro já conhece as duas histórias e fará sua escolha entre o Brasil que cresce de forma sustentável a caminho de se tornar uma potência, representado por Dilma e o Governo Lula, e o país que estava definhando política, econômica e socialmente, representado por FHC e Serra. O brasileiro reconhecerá em Dilma a candidata que irá continuar a obra de Lula na mesma direção, a primeira mulher presidente do Brasil.
José Dirceu, 64, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e integrante do Diretório Nacional do PT
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Em debate ‘vencido’ por Bonner, Dilma saiu incólume
Felipe Dana/AP
Por sorte, o último dabate do primeiro turno foi de graça. Se tivesse bilheteria, a platéia ia pedir o dinheiro de volta.
Depois de toda a expectativa, o embate foi só aquilo? Tempo livre para a preparação, assessores, a estrutura da Globo, camarins, comes de bebes, maquiador, boa audiência, estúdio climatizado, iluminação, câmeras, som.
Enfim, um palco perfeito, condizente com a dramaticidade de um evento à beira das urnas. Tudo isso para os contendores darem aquele espetáculo pobre? Ora, francamente!
Estava entendido que não teria troca de socos ou mordidas na orelha. Mas esperava-se um pouco mais. Uma boa frase, uma metáfora elaborada, uma ironia fina. Qualquer coisa que compensasse o desperdício do sono de quem não dormiu.
Foi uma discussão soporífera. Vencedor? O Willian Bonner. Perdedor? O telespectador. Não se diga que eram adversários de pouca expressão. Sob os holofotes, os dois pesos pesados da sucessão.
Dilma e Serra não se dignaram a dirigir um ao outro uma mísera pergunta. No caso dela, compreensível. As pesquisas já lhe dão a vitória por pontos. Subiu no ringue para expor a braçadeira de Lula e exercitar a esquiva.
Mas e quanto a ele? Precisava de um nocaute verbal. E refugiou-se atrás de sua própria inexpressividade. Nem de Erenice Guerra Serra se animou a falar. O caso da violação fiscal? Nem pensar.
No raro instante em que ergueu os punhos, Serra esmurrou a peso leve Marina. Sim, isso mesmo, Serra socou sua única e escassa esperança de segundo turno.
Aliás, diferentemente de Serra, Plínio e Marina retiraram da cena global o máximo proveito. O peso pena Plínio, sabendo-se inviável, distribuiu provocações. E fez a propaganda dos candidatos do PSOL ao Legislativo.
Marina estava desenvolta. Quando lhe coube perguntar, dirigiu-se ora a Dilma ora a Serra. “São muito parecidos”, jabeou. Dois gerentes “sem visão estratégica”.
Numa das perguntas a Serra, Marina lembrou que tucanos e ‘demos’ torciam o nariz para o Bolsa Família. Cobrou autocrítica.
Serra avocou para si a gênese do programa. Na Saúde, disse, criou o Bolsa Alimentação, que junto com outros programas de FHC, Lula unificou. “Acho estranho. Toda vez vem a mesma pergunta e volta a mesma resposta”, reclamou.
Marina não se deu por achada: “Faço questão de perguntar, porque, para mim, os programas sociais são importantes”, disse ela na réplica. Acusou Serra de ajustar o discurso conforme à “conveniência” eleitoral.
O tucano perdeu a calma. “Não use a sua régua para medir os outros”. Devolveu a comparação que Marina fizera com Dilma. “Vocês tem coisas muito parecidas”, bateu.
Até recentemente, era do PT. Pior: “Ficou no governo do mensalão”.
Alcançado pelo celular, um aliado de Serra disse ao repórter que murchou na poltrana do estúdio. Imaginava que seu candidato acionaria miraria em Dilma, não em Marina. De alvo potencial, a pupila de Lula tornou-se expectadora.
Guiando-se pela cartilha da marquetagem, Dilma fez o que lhe convinha fazer. Ligou os feitos do “nosso governo” aos desacertos do “governo passado”. E, livre das questões sobre escândalos, portou-se com equilíbrio e ponderação.
Deve-se a Plínio, não a Serra, a única passagem constrangedora de Dilma. Dizendo-se orgulhoso do PSOL, ele perguntou se os rivais tem vergonha de seus partidos. Dilma enalteceu o PT, preferido de “cerca de 30% dos brasileiros”.
Na réplica, Plínio disse que as doações de sua campanha foram à internet. E Dilma: “Registramos as doações no TSE. Gostaria de deixar claro que todas as doações são oficiais”. A platéia (cerca de 200 pessoas) foi às gargalhadas.
“Lamento os risos de quem tem outras práticas. A minha não é essa”, Dilma respondeu. E pôs-se a elogiar a coligação que a rodeia, um consórcio que vai do PMDB ao PCdoB, passando por um imenso etc.
Não se viu nas duas horas de debate um lance capaz de mover a tendência do eleitorado. Quando muito, Marina ganhou uns votinhos a mais. “Duas mulheres no segundo turno”, ela pediu, nas considerações finais.
Depois de Willian Bonner, Dilma foi a principal beneficiária da pasmaceira. Saiu ilesa. Além dos telespectadores, Serra foi o grande prejudicado. Com uma diferença: a platéia foi vítima involuntária. O tucano foi vencido pela própria mediocridade.
Ainda que a gratuidade das cenas dispense os recursos ao Procon, a audiência, se pudesse, dirigiria um pedido coletivo à Globo: Por favor, sem replays. Nada de ficar reproduzindo o impensável nos telejornais.
- Siga o blog no twitter.
Escrito por Josias de Souza
Por sorte, o último dabate do primeiro turno foi de graça. Se tivesse bilheteria, a platéia ia pedir o dinheiro de volta.
Depois de toda a expectativa, o embate foi só aquilo? Tempo livre para a preparação, assessores, a estrutura da Globo, camarins, comes de bebes, maquiador, boa audiência, estúdio climatizado, iluminação, câmeras, som.
Enfim, um palco perfeito, condizente com a dramaticidade de um evento à beira das urnas. Tudo isso para os contendores darem aquele espetáculo pobre? Ora, francamente!
Estava entendido que não teria troca de socos ou mordidas na orelha. Mas esperava-se um pouco mais. Uma boa frase, uma metáfora elaborada, uma ironia fina. Qualquer coisa que compensasse o desperdício do sono de quem não dormiu.
Foi uma discussão soporífera. Vencedor? O Willian Bonner. Perdedor? O telespectador. Não se diga que eram adversários de pouca expressão. Sob os holofotes, os dois pesos pesados da sucessão.
Dilma e Serra não se dignaram a dirigir um ao outro uma mísera pergunta. No caso dela, compreensível. As pesquisas já lhe dão a vitória por pontos. Subiu no ringue para expor a braçadeira de Lula e exercitar a esquiva.
Mas e quanto a ele? Precisava de um nocaute verbal. E refugiou-se atrás de sua própria inexpressividade. Nem de Erenice Guerra Serra se animou a falar. O caso da violação fiscal? Nem pensar.
No raro instante em que ergueu os punhos, Serra esmurrou a peso leve Marina. Sim, isso mesmo, Serra socou sua única e escassa esperança de segundo turno.
Aliás, diferentemente de Serra, Plínio e Marina retiraram da cena global o máximo proveito. O peso pena Plínio, sabendo-se inviável, distribuiu provocações. E fez a propaganda dos candidatos do PSOL ao Legislativo.
Marina estava desenvolta. Quando lhe coube perguntar, dirigiu-se ora a Dilma ora a Serra. “São muito parecidos”, jabeou. Dois gerentes “sem visão estratégica”.
Numa das perguntas a Serra, Marina lembrou que tucanos e ‘demos’ torciam o nariz para o Bolsa Família. Cobrou autocrítica.
Serra avocou para si a gênese do programa. Na Saúde, disse, criou o Bolsa Alimentação, que junto com outros programas de FHC, Lula unificou. “Acho estranho. Toda vez vem a mesma pergunta e volta a mesma resposta”, reclamou.
Marina não se deu por achada: “Faço questão de perguntar, porque, para mim, os programas sociais são importantes”, disse ela na réplica. Acusou Serra de ajustar o discurso conforme à “conveniência” eleitoral.
O tucano perdeu a calma. “Não use a sua régua para medir os outros”. Devolveu a comparação que Marina fizera com Dilma. “Vocês tem coisas muito parecidas”, bateu.
Até recentemente, era do PT. Pior: “Ficou no governo do mensalão”.
Alcançado pelo celular, um aliado de Serra disse ao repórter que murchou na poltrana do estúdio. Imaginava que seu candidato acionaria miraria em Dilma, não em Marina. De alvo potencial, a pupila de Lula tornou-se expectadora.
Guiando-se pela cartilha da marquetagem, Dilma fez o que lhe convinha fazer. Ligou os feitos do “nosso governo” aos desacertos do “governo passado”. E, livre das questões sobre escândalos, portou-se com equilíbrio e ponderação.
Deve-se a Plínio, não a Serra, a única passagem constrangedora de Dilma. Dizendo-se orgulhoso do PSOL, ele perguntou se os rivais tem vergonha de seus partidos. Dilma enalteceu o PT, preferido de “cerca de 30% dos brasileiros”.
Na réplica, Plínio disse que as doações de sua campanha foram à internet. E Dilma: “Registramos as doações no TSE. Gostaria de deixar claro que todas as doações são oficiais”. A platéia (cerca de 200 pessoas) foi às gargalhadas.
“Lamento os risos de quem tem outras práticas. A minha não é essa”, Dilma respondeu. E pôs-se a elogiar a coligação que a rodeia, um consórcio que vai do PMDB ao PCdoB, passando por um imenso etc.
Não se viu nas duas horas de debate um lance capaz de mover a tendência do eleitorado. Quando muito, Marina ganhou uns votinhos a mais. “Duas mulheres no segundo turno”, ela pediu, nas considerações finais.
Depois de Willian Bonner, Dilma foi a principal beneficiária da pasmaceira. Saiu ilesa. Além dos telespectadores, Serra foi o grande prejudicado. Com uma diferença: a platéia foi vítima involuntária. O tucano foi vencido pela própria mediocridade.
Ainda que a gratuidade das cenas dispense os recursos ao Procon, a audiência, se pudesse, dirigiria um pedido coletivo à Globo: Por favor, sem replays. Nada de ficar reproduzindo o impensável nos telejornais.
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Escrito por Josias de Souza
Por Carlos Chagas
MAIS UMA OPORTUNIDADE PERDIDA
Por Carlos Chagas
Firulas jurídicas à parte, a reação na voz rouca das ruas está sendo de que o Supremo Tribunal Federal perdeu mais uma oportunidade de decidir se a lei ficha-limpa vale ou não para as eleições de domingo. Como suas opiniões se dividem, os doutos meretíssimos preferiram empurrar com a barriga essa grave questão constitucional referente ao país inteiro.
Por 6 votos a 4, a mais alta corte nacional de justiça considerou sem objeto o recurso de Joaquim Roriz contra decisão do Tribunal Superior Eleitoral que recusou-lhe registro de candidato ao governo de Brasília. Isso pela simples questão de que Roriz renunciou à candidatura, indicando sua mulher.
Esperava-se que mesmo mandando arquivar o recurso do ex-governador, o Supremo aproveitasse para decidir o principal, ou seja, a constitucionalidade da lei ficha-limpa para ser aplicada de imediato. Como o plenário ainda estava rachado, 5 pela aplicação imediata, 5 em favor dos dispositivos constitucionais impedindo a lei de retroagir e sustentando ter ela sido sancionada fora do prazo, o remédio foi não fazer nada. Deixar a questão ser apreciada quando outros recursos iguais aos de Roriz entrarem em pauta. Dois, pelo menos, já tramitam, ainda que sem data para o julgamento: do candidato a deputado, Francisco das Chagas, do Ceará, que teve seu registro negado pelo TRE daquele estado e depois pelo TSE, e da candidata a senadora pelo Distrito Federal, Maria de Lourdes Abadia, pelas mesmas razões. O problema é que inexiste prazo para essas matérias serem apreciadas no Supremo. Antes das eleições de domingo, nem por milagre.
Resultado: poderão disputar a eleição todos os ficha suja, quase trezentos, impugnados nos respectivos tribunais regionais eleitorais de seus estados e até alguns com a sentença confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral, mas beneficiados pela prerrogativa de um último recurso ao Supremo Tribunal Federal, mesmo ainda não impetrado. Muitos serão cassados pelo eleitorado, mas aqueles que tiverem sido eleitos ficarão com monumental espada sobre suas cabeças: terão direito de ser diplomados? Em caso positivo, tomarão posse, ainda que sujeitos a perda de mandato posterior, caso adotada a decisão final sobre a constitucionalidade da lei?
Tudo isso o Supremo poderia ter evitado caso, na quarta-feira que passou, tivesse avocado a solução maior, de definir-se sobre a aplicação constitucional da lei. Como o empate parece haver persistido, a confusão também continua.
É claro que essa olímpica trapalhada não existiria caso o presidente Lula tivesse nomeado o décimo-primeiro ministro do Supremo, vaga aberta desde agosto com a aposentadoria de Eros Grau. Para evitar empates é que a corte se compõe de 11 ministros.
Em suma, as cúpulas do Judiciário e do Executivo deixaram de fazer o dever de casa. Quem sofre é a escola, cujas paredes tremem há algum tempo, por enquanto beneficiando candidatos antes condenados por crimes variados mas prontos para receber votos daqui a dois dias.
Quanto à canhestra cautela de Joaquim Roriz, renunciando à candidatura e apresentando sua mulher, de todo despreparada para o exercício da função pública de governar o Distrito Federal, a moda não pegou. Procuradores da justiça eleitoral contestam a manobra, mas dificilmente obterão sucesso na tentativa de barrar o registro de dona Wesley, porque, afinal, todos são iguais perante a Constituição. Menos o Tiririca, se não provar que sabe ler e escrever. Toda essa lambança demonstra como é longo o percurso até que nos tornemos uma democracia exemplar...
Por Carlos Chagas
Firulas jurídicas à parte, a reação na voz rouca das ruas está sendo de que o Supremo Tribunal Federal perdeu mais uma oportunidade de decidir se a lei ficha-limpa vale ou não para as eleições de domingo. Como suas opiniões se dividem, os doutos meretíssimos preferiram empurrar com a barriga essa grave questão constitucional referente ao país inteiro.
Por 6 votos a 4, a mais alta corte nacional de justiça considerou sem objeto o recurso de Joaquim Roriz contra decisão do Tribunal Superior Eleitoral que recusou-lhe registro de candidato ao governo de Brasília. Isso pela simples questão de que Roriz renunciou à candidatura, indicando sua mulher.
Esperava-se que mesmo mandando arquivar o recurso do ex-governador, o Supremo aproveitasse para decidir o principal, ou seja, a constitucionalidade da lei ficha-limpa para ser aplicada de imediato. Como o plenário ainda estava rachado, 5 pela aplicação imediata, 5 em favor dos dispositivos constitucionais impedindo a lei de retroagir e sustentando ter ela sido sancionada fora do prazo, o remédio foi não fazer nada. Deixar a questão ser apreciada quando outros recursos iguais aos de Roriz entrarem em pauta. Dois, pelo menos, já tramitam, ainda que sem data para o julgamento: do candidato a deputado, Francisco das Chagas, do Ceará, que teve seu registro negado pelo TRE daquele estado e depois pelo TSE, e da candidata a senadora pelo Distrito Federal, Maria de Lourdes Abadia, pelas mesmas razões. O problema é que inexiste prazo para essas matérias serem apreciadas no Supremo. Antes das eleições de domingo, nem por milagre.
Resultado: poderão disputar a eleição todos os ficha suja, quase trezentos, impugnados nos respectivos tribunais regionais eleitorais de seus estados e até alguns com a sentença confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral, mas beneficiados pela prerrogativa de um último recurso ao Supremo Tribunal Federal, mesmo ainda não impetrado. Muitos serão cassados pelo eleitorado, mas aqueles que tiverem sido eleitos ficarão com monumental espada sobre suas cabeças: terão direito de ser diplomados? Em caso positivo, tomarão posse, ainda que sujeitos a perda de mandato posterior, caso adotada a decisão final sobre a constitucionalidade da lei?
Tudo isso o Supremo poderia ter evitado caso, na quarta-feira que passou, tivesse avocado a solução maior, de definir-se sobre a aplicação constitucional da lei. Como o empate parece haver persistido, a confusão também continua.
É claro que essa olímpica trapalhada não existiria caso o presidente Lula tivesse nomeado o décimo-primeiro ministro do Supremo, vaga aberta desde agosto com a aposentadoria de Eros Grau. Para evitar empates é que a corte se compõe de 11 ministros.
Em suma, as cúpulas do Judiciário e do Executivo deixaram de fazer o dever de casa. Quem sofre é a escola, cujas paredes tremem há algum tempo, por enquanto beneficiando candidatos antes condenados por crimes variados mas prontos para receber votos daqui a dois dias.
Quanto à canhestra cautela de Joaquim Roriz, renunciando à candidatura e apresentando sua mulher, de todo despreparada para o exercício da função pública de governar o Distrito Federal, a moda não pegou. Procuradores da justiça eleitoral contestam a manobra, mas dificilmente obterão sucesso na tentativa de barrar o registro de dona Wesley, porque, afinal, todos são iguais perante a Constituição. Menos o Tiririca, se não provar que sabe ler e escrever. Toda essa lambança demonstra como é longo o percurso até que nos tornemos uma democracia exemplar...
A HORA E A VEZ DO BRASIL
“A América Latina e o Brasil estão vivendo um desses momentos de “revolução intelectual”, uma mudança radical da sua forma de olhar para si mesmo e para o mundo”
Márcia Denser*
Um dos nossos mais conceituados cientistas políticos, José Luís Fiori, demorou um pouco para se manifestar e quando o fez, nesta quinta-feira, 30/9, às vésperas duma histórica eleição presidencial, propôs um diagnóstico para o maior paradoxo já vivido pelo Brasil, manifesto principalmente a partir do segundo mandato do governo Lula: o abissal distanciamento entre a posição da grande mídia e o que pensa a maioria da população, uma vez que, apesar dos avanços da internet, ainda é inegável seu poder no agendamento do debate público, como no caso do rádio e da tevê.
Segundo Fiori, a América Latina e o Brasil estão vivendo um desses momentos de “revolução intelectual”, uma mudança radical da sua forma de olhar para si mesmo e para o mundo. De um lado, observa-se um “paradigma intelectual” em franco declínio, incluindo ideias e teorias, sejam de esquerda ou de direita, que já não dão conta das transformações do continente em geral, e do Brasil, em particular. Suas idéias soam como chavões velhos e repetitivos, razão pela qual interpretam as novidades em ascensão de forma extremamente reativa, defensiva e medrosa. Isto é, como ameaças.
Os “intelectuais orgânicos” desse velho paradigma continuam fascinados pela idéia do “fim”, seja da democracia, do capitalismo, das espécies, dos estados-nação, da História ou da própria Terra; outros, prosseguem lamentando as “imperfeições constitutivas” da sociedade latino-americana – tão distantes dos seus modelos ideais de sociedade civil, de classe social, de partido político, ou mesmo, de estado e de capitalismo, nostálgicos e apegados ao bom e velhíssimo hábito de manter as “idéias fora do lugar”.
E quase todos apavorados, julgando-se ameaçados por supostos “populismo”, “nacional-desenvolvimentismo”, “estatismo” ou “assistencialismo”, entre outras alucinações passadas, sem perceber que as velhas teorias sociológicas e econômicas descolaram-se da realidade, bem como perderam a eficácia como ferramentas analíticas e instrumentos estratégicos voltados para a construção do futuro. A despeito de ainda não terem emergido novas teorias e análises críticas e do próprio continente não ter superado seus grandes desafios sociais e econômicos, já se pode falar de uma “revolução intelectual”, um novo “paradigma”, porque já se consolidou uma nova maneira do continente olhar para si mesmo e para o mundo, vistos agora como escolhas a serem feitas a partir de sua própria identidade e de seus interesses.
Quer dizer, comprovamos agora que temos alternativas, sobretudo após a crise mundial de 2008, ao contrário da apregoada TINA, “There is no alternative”, cunhada por Thatcher e repetida por FHC, o já velhíssimo clichê do neoliberalismo financeirizado que ora agoniza no Ocidente, uma vez que as escolhas do governo Lula caminharam na direção oposta, isto é, no sentido de voltar-se para o mercado interno, promover a inclusão social, aliar-se aos vizinhos e demais países do Bric.
E deram certo.
Concluindo sua análise, Fiori lembra: “Certa vez, Jean Paul Sartre disse que era mais fácil ser escravo do que senhor, e talvez, seja mais fácil pensar como escravo do que como senhor”. Mas depois desta “revolução intelectual” da America Latina, já não há necessidade de ninguém seguir pensando como escravo, ou mesmo como aluno primário das “civilizações superiores”.
Civilizações estas que, ultimamente, só têm julgado o Brasil positivamente, uma visão de fora que pesou de forma extraordinária na balança, fazendo o brasileiro recuperar seu orgulho espezinhado durante séculos, além de começar – também pela primeira vez em séculos – a levar a sério seu país. A propósito, relembro a nunca por demais esquecida frase do presidente De Gaulle, dita nos anos 50: “O Brasil não é um país sério.” Frase que, hoje, só faz sentido para a mídia demotucana, prestes aliás, a sofrer uma derrota histórica. Que descanse em paz.
O fato é que o consenso popular, no plano interno, conjugado ao sucesso midiático, no plano externo, indica que é chegada a hora e a vez do Brasil.
*A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), A Ponte das Estrelas (1990), Toda Prosa (2002 - Esgotado), Diana Caçadora/Tango Fantasma (2003,Ateliê Editorial, reedição), Caim (Record, 2006), Toda Prosa II - Obra Escolhida (Record, 2008). É traduzida na Holanda, Bulgária, Hungria, Estados Unidos, Alemanha, Suiça, Argentina e Espanha (catalão e galaico-português). Dois de seus contos - O Vampiro da Alameda Casabranca e Hell's Angel - foram incluídos nos 100 Melhores Contos Brasileiros do Século, sendo que Hell's Angel está também entre os 100 Melhores Contos Eróticos Universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, é pesquisadora de literatura, jornalista e curadora de Literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.
Outros textos do colunista Márcia Denser*
Fonte: O Congresso em Foco
Márcia Denser*
Um dos nossos mais conceituados cientistas políticos, José Luís Fiori, demorou um pouco para se manifestar e quando o fez, nesta quinta-feira, 30/9, às vésperas duma histórica eleição presidencial, propôs um diagnóstico para o maior paradoxo já vivido pelo Brasil, manifesto principalmente a partir do segundo mandato do governo Lula: o abissal distanciamento entre a posição da grande mídia e o que pensa a maioria da população, uma vez que, apesar dos avanços da internet, ainda é inegável seu poder no agendamento do debate público, como no caso do rádio e da tevê.
Segundo Fiori, a América Latina e o Brasil estão vivendo um desses momentos de “revolução intelectual”, uma mudança radical da sua forma de olhar para si mesmo e para o mundo. De um lado, observa-se um “paradigma intelectual” em franco declínio, incluindo ideias e teorias, sejam de esquerda ou de direita, que já não dão conta das transformações do continente em geral, e do Brasil, em particular. Suas idéias soam como chavões velhos e repetitivos, razão pela qual interpretam as novidades em ascensão de forma extremamente reativa, defensiva e medrosa. Isto é, como ameaças.
Os “intelectuais orgânicos” desse velho paradigma continuam fascinados pela idéia do “fim”, seja da democracia, do capitalismo, das espécies, dos estados-nação, da História ou da própria Terra; outros, prosseguem lamentando as “imperfeições constitutivas” da sociedade latino-americana – tão distantes dos seus modelos ideais de sociedade civil, de classe social, de partido político, ou mesmo, de estado e de capitalismo, nostálgicos e apegados ao bom e velhíssimo hábito de manter as “idéias fora do lugar”.
E quase todos apavorados, julgando-se ameaçados por supostos “populismo”, “nacional-desenvolvimentismo”, “estatismo” ou “assistencialismo”, entre outras alucinações passadas, sem perceber que as velhas teorias sociológicas e econômicas descolaram-se da realidade, bem como perderam a eficácia como ferramentas analíticas e instrumentos estratégicos voltados para a construção do futuro. A despeito de ainda não terem emergido novas teorias e análises críticas e do próprio continente não ter superado seus grandes desafios sociais e econômicos, já se pode falar de uma “revolução intelectual”, um novo “paradigma”, porque já se consolidou uma nova maneira do continente olhar para si mesmo e para o mundo, vistos agora como escolhas a serem feitas a partir de sua própria identidade e de seus interesses.
Quer dizer, comprovamos agora que temos alternativas, sobretudo após a crise mundial de 2008, ao contrário da apregoada TINA, “There is no alternative”, cunhada por Thatcher e repetida por FHC, o já velhíssimo clichê do neoliberalismo financeirizado que ora agoniza no Ocidente, uma vez que as escolhas do governo Lula caminharam na direção oposta, isto é, no sentido de voltar-se para o mercado interno, promover a inclusão social, aliar-se aos vizinhos e demais países do Bric.
E deram certo.
Concluindo sua análise, Fiori lembra: “Certa vez, Jean Paul Sartre disse que era mais fácil ser escravo do que senhor, e talvez, seja mais fácil pensar como escravo do que como senhor”. Mas depois desta “revolução intelectual” da America Latina, já não há necessidade de ninguém seguir pensando como escravo, ou mesmo como aluno primário das “civilizações superiores”.
Civilizações estas que, ultimamente, só têm julgado o Brasil positivamente, uma visão de fora que pesou de forma extraordinária na balança, fazendo o brasileiro recuperar seu orgulho espezinhado durante séculos, além de começar – também pela primeira vez em séculos – a levar a sério seu país. A propósito, relembro a nunca por demais esquecida frase do presidente De Gaulle, dita nos anos 50: “O Brasil não é um país sério.” Frase que, hoje, só faz sentido para a mídia demotucana, prestes aliás, a sofrer uma derrota histórica. Que descanse em paz.
O fato é que o consenso popular, no plano interno, conjugado ao sucesso midiático, no plano externo, indica que é chegada a hora e a vez do Brasil.
*A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), A Ponte das Estrelas (1990), Toda Prosa (2002 - Esgotado), Diana Caçadora/Tango Fantasma (2003,Ateliê Editorial, reedição), Caim (Record, 2006), Toda Prosa II - Obra Escolhida (Record, 2008). É traduzida na Holanda, Bulgária, Hungria, Estados Unidos, Alemanha, Suiça, Argentina e Espanha (catalão e galaico-português). Dois de seus contos - O Vampiro da Alameda Casabranca e Hell's Angel - foram incluídos nos 100 Melhores Contos Brasileiros do Século, sendo que Hell's Angel está também entre os 100 Melhores Contos Eróticos Universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, é pesquisadora de literatura, jornalista e curadora de Literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.
Outros textos do colunista Márcia Denser*
Fonte: O Congresso em Foco
Enviado por Noblat
artigo
Ondas eleitorais
A atual eleição entrará para a história do país como aquela em que, da maneira mais acintosa, procurou-se difundir e impor à população movimentos artificiais de campanha, logicamente, sempre interessados em um determinado candidato.
Da falsa ideia de que a democracia e a liberdade de imprensa estariam em risco à divulgação de pesquisas eleitorais indicando tendências que não se verificaram, buscou-se por diversas vezes, por parte dos grandes veículos de comunicação e da campanha oposicionista, projetar uma imagem irreal com o objetivo de criar ondas eleitorais.
A mais recente tentativa de propagar uma onda se deu a partir da pesquisa Datafolha publicada no início da semana que deu combustível para o uso de páginas e páginas de jornal, seguidos comentários de analistas e correntes na Internet, todos a avaliar e entender o fenômeno da “onda verde”. A base desse movimento foi uma ilusória transferência de votos de Dilma Rousseff para Marina Silva.
Ocorre que as pesquisas CNI/Ibope e CNT/Sensus simplesmente desmistificaram o pilar dessa “onda verde”: ambas as pesquisas fortalecem a tendência de que Dilma saia das urnas no domingo (3/10) como a próxima presidente do Brasil. Tudo porque a soma de todos os demais candidatos é menor do que o índice de Dilma —9 pontos de acordo com o Ibope e 9,3 no Sensus. O Datafolha divulgou, nesta quinta (30/9), nova pesquisa que mostra que a distância entre Dilma e a soma dos adversários é maior do que a apontada na primeira pesquisa do instituto, mas não muda o tom de sua “análise”.
Ora, se há divergências nas pesquisas e em todas Marina está a mais de dez pontos atrás de José Serra, por que se falou tanto na tal da “onda verde”? Porque as pesquisas Datafolha buscam introduzir na cobertura eleitoral a perspectiva de que haverá segundo turno, ou seja, em última análise a “onda verde” é, na verdade, algo favorável a Serra. A tal “onda verde” se revela, assim, um contra-senso.
Nesse sentido, a pesquisa Ibope é esclarecedora, porque revela que: 1) O crescimento de Marina é lento; 2) Não se dá sobre os votos de Dilma, portanto, tem baixo potencial de mudar os rumos das eleições; e, 3) Não se espalha entre seus aliados. Em outras palavras, a tese da “onda verde” pró-Marina não se sustenta, tendo sido uma bem criada estratégia de comunicação que encontrou entusiasmado respaldo em setores da grande mídia.
O jornal “O Estado de S.Paulo”, que declarou voto em Serra, publica um mapa do Brasil que mostra a distribuição do voto com base em 27 pesquisas estaduais do Ibope, feitas em setembro. O critério usado é indicar com uma dada cor (vermelha para Dilma, azul para Serra e amarela para empate) os locais em que há liderança de mais de cinco pontos percentuais em favor de um dos candidatos. O mapa permite visualizar algumas poucas manchas azuis, outras amarelas e o restante todo vermelho. Não há nenhuma mancha verde, a cor que se imagina que seria de Marina.
A conclusão é que, na verdade, a onda existente nestas eleições é vermelha, pró-Dilma. A imagem dá a dimensão exata da força que o PT, sua candidata a presidente e os aliados têm em todo o país. Dilma tem vantagem superior a 5% sobre Serra em todos os Estados, à exceção de pequenas áreas (algumas, capitais) do Acre, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os empates acontecem em regiões do Acre, Pará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Mas é interessante notar que há empate ou Serra está na frente justamente nas porções mais ricas do país. É um indicador claro de que o Governo Lula, representado por Dilma nestas eleições, de fato, trabalhou por oito anos para diminuir as desigualdades sociais e regionais, privilegiando as pessoas mais pobres. É por essa razão, inclusive, que a maioria dos candidatos a governador pró-Dilma lidera, muitos podendo vencer no primeiro turno.
A onda vermelha se projeta também sobre as bancadas para a Câmara dos Deputados e para o Senado, cujo indicativo é de que a maioria seja aliada a Dilma. O fato de que, segundo o Ibope, o PT é disparado, com 27%, o partido preferido dos brasileiros só reforça esse movimento pró-Dilma. Por isso, o chamado da candidata para que a militância petista e aliada ganhe as ruas e assegure a vitória no primeiro turno.
José Dirceu, 64, é advogado e ex-ministro da Casa Civil
Ondas eleitorais
A atual eleição entrará para a história do país como aquela em que, da maneira mais acintosa, procurou-se difundir e impor à população movimentos artificiais de campanha, logicamente, sempre interessados em um determinado candidato.
Da falsa ideia de que a democracia e a liberdade de imprensa estariam em risco à divulgação de pesquisas eleitorais indicando tendências que não se verificaram, buscou-se por diversas vezes, por parte dos grandes veículos de comunicação e da campanha oposicionista, projetar uma imagem irreal com o objetivo de criar ondas eleitorais.
A mais recente tentativa de propagar uma onda se deu a partir da pesquisa Datafolha publicada no início da semana que deu combustível para o uso de páginas e páginas de jornal, seguidos comentários de analistas e correntes na Internet, todos a avaliar e entender o fenômeno da “onda verde”. A base desse movimento foi uma ilusória transferência de votos de Dilma Rousseff para Marina Silva.
Ocorre que as pesquisas CNI/Ibope e CNT/Sensus simplesmente desmistificaram o pilar dessa “onda verde”: ambas as pesquisas fortalecem a tendência de que Dilma saia das urnas no domingo (3/10) como a próxima presidente do Brasil. Tudo porque a soma de todos os demais candidatos é menor do que o índice de Dilma —9 pontos de acordo com o Ibope e 9,3 no Sensus. O Datafolha divulgou, nesta quinta (30/9), nova pesquisa que mostra que a distância entre Dilma e a soma dos adversários é maior do que a apontada na primeira pesquisa do instituto, mas não muda o tom de sua “análise”.
Ora, se há divergências nas pesquisas e em todas Marina está a mais de dez pontos atrás de José Serra, por que se falou tanto na tal da “onda verde”? Porque as pesquisas Datafolha buscam introduzir na cobertura eleitoral a perspectiva de que haverá segundo turno, ou seja, em última análise a “onda verde” é, na verdade, algo favorável a Serra. A tal “onda verde” se revela, assim, um contra-senso.
Nesse sentido, a pesquisa Ibope é esclarecedora, porque revela que: 1) O crescimento de Marina é lento; 2) Não se dá sobre os votos de Dilma, portanto, tem baixo potencial de mudar os rumos das eleições; e, 3) Não se espalha entre seus aliados. Em outras palavras, a tese da “onda verde” pró-Marina não se sustenta, tendo sido uma bem criada estratégia de comunicação que encontrou entusiasmado respaldo em setores da grande mídia.
O jornal “O Estado de S.Paulo”, que declarou voto em Serra, publica um mapa do Brasil que mostra a distribuição do voto com base em 27 pesquisas estaduais do Ibope, feitas em setembro. O critério usado é indicar com uma dada cor (vermelha para Dilma, azul para Serra e amarela para empate) os locais em que há liderança de mais de cinco pontos percentuais em favor de um dos candidatos. O mapa permite visualizar algumas poucas manchas azuis, outras amarelas e o restante todo vermelho. Não há nenhuma mancha verde, a cor que se imagina que seria de Marina.
A conclusão é que, na verdade, a onda existente nestas eleições é vermelha, pró-Dilma. A imagem dá a dimensão exata da força que o PT, sua candidata a presidente e os aliados têm em todo o país. Dilma tem vantagem superior a 5% sobre Serra em todos os Estados, à exceção de pequenas áreas (algumas, capitais) do Acre, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os empates acontecem em regiões do Acre, Pará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Mas é interessante notar que há empate ou Serra está na frente justamente nas porções mais ricas do país. É um indicador claro de que o Governo Lula, representado por Dilma nestas eleições, de fato, trabalhou por oito anos para diminuir as desigualdades sociais e regionais, privilegiando as pessoas mais pobres. É por essa razão, inclusive, que a maioria dos candidatos a governador pró-Dilma lidera, muitos podendo vencer no primeiro turno.
A onda vermelha se projeta também sobre as bancadas para a Câmara dos Deputados e para o Senado, cujo indicativo é de que a maioria seja aliada a Dilma. O fato de que, segundo o Ibope, o PT é disparado, com 27%, o partido preferido dos brasileiros só reforça esse movimento pró-Dilma. Por isso, o chamado da candidata para que a militância petista e aliada ganhe as ruas e assegure a vitória no primeiro turno.
José Dirceu, 64, é advogado e ex-ministro da Casa Civil
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