”
Rudolfo Lago*
“Dilma – ao que tudo indica – chegará ao governo convicta de que a grande mídia é toda contra ela. E boa parte da grande mídia será mesmo – por convicção ou por ter sido empurrada a essa situação pela forma como o governo enxerga o trabalho da imprensa”
Há um saldo perigoso retirado das denúncias e dos acontecimentos das últimas semanas, que culminaram com a demissão de Erenice Guerra da Casa Civil da Presidência. É o acirramento de uma guerra entre o PT e o governo, de um lado, e a imprensa, de outro. Uma guerra que, sem a figura popular e carismática do presidente Lula no país, pode se tornar um bocado perigosa.
Quem me acompanha desde os tempos de Correio Braziliense sabe que essa relação belicosa entre o governo Lula, o PT e a imprensa tem sido um tema de preocupação frequente. É um bocado complicado estabelecer quem começou, quem atirou a primeira pedra e como essa relação tensa se sacramentou.
Lá no começo do primeiro governo Lula, escrevi um artigo no Correio no qual observava que ficava clara uma estratégia de estabelecer com a população um canal direto de comunicação que ultrapassasse a tradicional mediação feita pela imprensa. Ao diminuir o número de entrevistas e o contato com os jornalistas e ao aumentar o número de discursos, Lula deixava claro que não queria que a mensagem do governo fosse pautada pela mídia. Ou seja: ele não queria ser pautado. Ele queria pautar. Em vez de responder às perguntas dos jornalistas, ele mandaria os recados que o interessavam e que a imprensa não poderia ignorar.
Até o episódio do mensalão, não restava à imprensa alternativa que não fosse seguir, por menos que gostasse, essa estratégia do presidente. Qualquer jornalista de Brasília confirmará que essa primeira etapa é marcada pela tentativa de estabelecer contatos, fazer fontes. Alguns se abriam, mas a regra geral era de distanciamento. Ali, começou a se estabelecer a noção de que governo e jornalistas estavam em campos opostos, eram inimigos.
Quanto estourou o mensalão, alguns veículos viram como a oportunidade do troco. Do que era inicialmente apuração jornalística, surgiu um setor que passou a fazer claramente campanha contra o governo, numa certeza de que Lula, fragilizado, não se reelegeria. Alguns veículos passaram a ser ideológicos até nas resenhas que faziam de desenhos animados. O problema é que o governo passou a generalizar, ampliando a visão que tinha dos veículos que assim agiam para o todo.
Até descobrir o que havia de cômodo em se generalizar a visão de uma imprensa golpista. Se ao governo passasse a ser possível classificar como luta política qualquer denúncia que surgisse em jornais e revistas, o lado cômodo dessa situação era que ao governo já não era mais necessário explicar nem esclarecer nada. Tudo pode ser diminuído, tudo pode ser reduzido, desqualificado, a mera “tentativa desesperada do PIG para desestabilizar o governo e a campanha da nossa companheira Dilma”.
Do que aconteceu nas últimas semanas, poderá o PT e o governo desconfiar, de forma justa, do fato de a chuva de denúncias coincidir com a fase final da campanha eleitoral. É justo desconfiar da coincidência de tudo aparecer agora. Mas não é justo colocar tudo no mesmo balaio. Se é exagero – reconhecido pela própria ombudsman da Folha – querer atribuir a Dilma a responsabilidade única por um prejuízo de R$ 1 bilhão no setor elétrico, é um absurdo querer reduzir a jogo político a denúncia contra Erenice Guerra. Não é possível que o filho da responsável por tocar as grandes obras do país abra uma empresa para fazer “consultoria” às empresas que se habilitam para essas grandes obras. É menos possível ainda que esse filho, de fato, viabilize encontros dessas empresas com a sua mãe. É simplesmente inadmissível que ele ganhe dinheiro dessas empresas. Se a motivação inicial da denúncia era política, isso se torna algo menor. A denúncia de que algo assim ocorria um andar acima da cabeça do presidente Lula é o típico serviço público que é papel da imprensa. É para isso mesmo que a imprensa serve.
O que há de ruim e perigoso nisso tudo é que a falta de compreensão sobre o papel de uma imprensa livre, de um lado, e o exagero do engajamento político de alguns veículos contrários ao governo, por outro, criou um cenário de contornos perigosos. Dilma – ao que tudo indica – chegará ao governo convicta de que a grande mídia é toda contra ela. E boa parte da grande mídia será mesmo – por convicção ou por ter sido empurrada a essa situação pela forma como o governo enxerga o trabalho da imprensa.
Dilma não tem o carisma de Lula. Não tem a capacidade de comunicação direta com a população que tem o atual presidente. É incipiente e pouco representativa a imprensa totalmente alinhada ao governo. E seria péssimo, de qualquer modo, para o país trocar uma imprensa contrária por uma imprensa a favor. Uma imprensa laudatória e subserviente é tudo o que um país não precisa. Mas isso não haverá. O que pode haver é um governo que, sem capacidade de relacionamento direto com a sociedade, e às turras com os meios tradicionais de intermediação via imprensa, se isole. Eis aí o perigo.
Como diz o outro, se conselho fosse bom o sujeito não dava, vendia. Mas eu, se fosse Dilma, trataria de dar uma olhada no espectro dos jornais, revistas, TVs e veículos da nova mídia na internet e tratava de estabelecer meus canais preferenciais. Pra não ficar falando sozinha.
*É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, Rudolfo Lago atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultaram na cassação do senador Luiz Estevão
FONTE - O CONGRESSO EM FOCO
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
VELHOS PRECONCEITOS
Deu no Correio Braziliense
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Domingo, um de nossos melhores cartunistas publicou uma charge que merece ser discutida. Nem é preciso lembrar a importância que elas têm na política. Uma boa charge vale mil palavras.
Néo Correia divulgou em seu site uma alegoria a respeito do momento político pelo qual passamos. Nela, estão Dilma e Lula imersos em uma água escura – um “mar de lama” (ele com olhar carregado e a barba típica do Lula de antigamente, ela levantando acima da cabeça e tentando proteger um par de sapatos vermelhos de salto alto). Para os dois, o risco de afundar é grande, pois a lama já os alcança na altura do pescoço. Vemos, ainda, duas mãos femininas se debatendo, de alguém cujo rosto não se identifica, pois já foi engolida. Qualquer um imaginaria que são as mãos de Erenice.
Bóiam, na superfície, a logomarca da Receita Federal e uma placa dizendo “Casa Civil”.
Dentre as várias coisas que se podem comentar sobre a charge, a mais relevante é sobre seu terceiro elemento: vinda de cima, aparece uma bolsa escura (uma mala preta?), à qual Lula se agarra para não ser sugado. Nela, está escrito “Bolsa Família”.
O recado é claro: Dilma e Lula estão sendo tragados pelo lodaçal dos escândalos da Receita e da Casa Civil. O que os salva é o Bolsa Família.
Antes de discutir a conclusão do raciocínio implícito na ilustração, vale considerar os elementos empregados para caracterizar os personagens: a barba e o salto alto vermelho. O Lula “barbudinho” e com olhos esbugalhados repete os traços que os cartunistas usavam para representá-lo quando apareceu na vida política brasileira há mais de 30 anos (e não apenas a ele, individualmente, mas a todos seus companheiros, os “barbudos”, com sua referência aos revolucionários cubanos). Utilizá-los hoje equivale a dizer que Lula e seus amigos petistas não mudaram.
Quanto a Dilma, a mensagem subliminar é mais crítica. Seus sapatos vermelhos significam o quê? A “falsidade” de uma líder de esquerda que “finge” ser uma mulher bem vestida? A futilidade da candidata, agora que passou a se preocupar com a imagem, cuidando de seus saltos altos enquanto é devorada pela lama?
Na charge, são esse Lula e essa Dilma que o Bolsa Família socorre para que não soçobrem no lamaçal. Sem ele, parece dizer o desenhista, não sobreviveriam.
Se a avaliação de ambos é uma questão de foro íntimo, a tese a respeito do programa é factual. Ou seja, todos são livres para gostar ou não de Dilma e Lula, mas dizer que são “salvos” pelo Bolsa Família não é matéria de opinião. Ou há elementos para sustentar a hipótese ou não há.
E nada indica que a tese seja verdadeira. Ao contrário, a evidência disponível mostra que as relações entre a candidatura Dilma e o programa são bem diferentes do que imagina muita gente.
Pouco mais que 20% da intenção de voto em Dilma vem de pessoas que residem em domicílios onde alguém recebe o benefício. Isso quer dizer que 80% de seus possíveis eleitores não está nesse grupo. Em outras palavras: se todos os que se beneficiam diretamente do programa fossem proibidos de votar, ela continuaria com (grandes) chances de vencer as eleições no primeiro turno.
Pode soar estranha a ideia de impedir que clientes de programas sociais tenham o direito de voto, mas já foi regra. Na Inglaterra do século XIX, por exemplo, era assim que as coisas funcionavam. Quem recebia alguma ajuda pública, através das Leis dos Pobres, era obrigado a abdicar da cidadania política.
Hoje, ninguém apoiaria, às claras, uma restrição desse tipo. Mas há quem, no fundo, pense de forma parecida. São os que acham que Lula e Dilma existem por que existe o programa.
Resta o quarto elemento da charge. Mergulhado no mar de lama, junto a sua candidata, sendo içado para a salvação pelo Bolsa Família, Lula brada: “Calma! Não existe escândalo. É tudo invenção da imprensa!”. É certo que não é tudo. Tão certo quanto que boa parte é.
Mas o que importa é que é uma boa charge. Ela condensa um modo de pensar o momento que vivemos e nos leva a refletir sobre ele. O que mais se pode querer de uma?
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De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Domingo, um de nossos melhores cartunistas publicou uma charge que merece ser discutida. Nem é preciso lembrar a importância que elas têm na política. Uma boa charge vale mil palavras.
Néo Correia divulgou em seu site uma alegoria a respeito do momento político pelo qual passamos. Nela, estão Dilma e Lula imersos em uma água escura – um “mar de lama” (ele com olhar carregado e a barba típica do Lula de antigamente, ela levantando acima da cabeça e tentando proteger um par de sapatos vermelhos de salto alto). Para os dois, o risco de afundar é grande, pois a lama já os alcança na altura do pescoço. Vemos, ainda, duas mãos femininas se debatendo, de alguém cujo rosto não se identifica, pois já foi engolida. Qualquer um imaginaria que são as mãos de Erenice.
Bóiam, na superfície, a logomarca da Receita Federal e uma placa dizendo “Casa Civil”.
Dentre as várias coisas que se podem comentar sobre a charge, a mais relevante é sobre seu terceiro elemento: vinda de cima, aparece uma bolsa escura (uma mala preta?), à qual Lula se agarra para não ser sugado. Nela, está escrito “Bolsa Família”.
O recado é claro: Dilma e Lula estão sendo tragados pelo lodaçal dos escândalos da Receita e da Casa Civil. O que os salva é o Bolsa Família.
Antes de discutir a conclusão do raciocínio implícito na ilustração, vale considerar os elementos empregados para caracterizar os personagens: a barba e o salto alto vermelho. O Lula “barbudinho” e com olhos esbugalhados repete os traços que os cartunistas usavam para representá-lo quando apareceu na vida política brasileira há mais de 30 anos (e não apenas a ele, individualmente, mas a todos seus companheiros, os “barbudos”, com sua referência aos revolucionários cubanos). Utilizá-los hoje equivale a dizer que Lula e seus amigos petistas não mudaram.
Quanto a Dilma, a mensagem subliminar é mais crítica. Seus sapatos vermelhos significam o quê? A “falsidade” de uma líder de esquerda que “finge” ser uma mulher bem vestida? A futilidade da candidata, agora que passou a se preocupar com a imagem, cuidando de seus saltos altos enquanto é devorada pela lama?
Na charge, são esse Lula e essa Dilma que o Bolsa Família socorre para que não soçobrem no lamaçal. Sem ele, parece dizer o desenhista, não sobreviveriam.
Se a avaliação de ambos é uma questão de foro íntimo, a tese a respeito do programa é factual. Ou seja, todos são livres para gostar ou não de Dilma e Lula, mas dizer que são “salvos” pelo Bolsa Família não é matéria de opinião. Ou há elementos para sustentar a hipótese ou não há.
E nada indica que a tese seja verdadeira. Ao contrário, a evidência disponível mostra que as relações entre a candidatura Dilma e o programa são bem diferentes do que imagina muita gente.
Pouco mais que 20% da intenção de voto em Dilma vem de pessoas que residem em domicílios onde alguém recebe o benefício. Isso quer dizer que 80% de seus possíveis eleitores não está nesse grupo. Em outras palavras: se todos os que se beneficiam diretamente do programa fossem proibidos de votar, ela continuaria com (grandes) chances de vencer as eleições no primeiro turno.
Pode soar estranha a ideia de impedir que clientes de programas sociais tenham o direito de voto, mas já foi regra. Na Inglaterra do século XIX, por exemplo, era assim que as coisas funcionavam. Quem recebia alguma ajuda pública, através das Leis dos Pobres, era obrigado a abdicar da cidadania política.
Hoje, ninguém apoiaria, às claras, uma restrição desse tipo. Mas há quem, no fundo, pense de forma parecida. São os que acham que Lula e Dilma existem por que existe o programa.
Resta o quarto elemento da charge. Mergulhado no mar de lama, junto a sua candidata, sendo içado para a salvação pelo Bolsa Família, Lula brada: “Calma! Não existe escândalo. É tudo invenção da imprensa!”. É certo que não é tudo. Tão certo quanto que boa parte é.
Mas o que importa é que é uma boa charge. Ela condensa um modo de pensar o momento que vivemos e nos leva a refletir sobre ele. O que mais se pode querer de uma?
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010
POSTADO POR JOSIAS DE SOUSA
FHC compara Lula a Mussolini: ‘Ele quer poder total’
Ex-presidente diz que sucessor sofre de ‘apoteose mental’
Para ele, sucessor se comporta como 'chefe de uma facção'
Folha
Em entrevista ao sítio Mobiliza, da campanha de José Serra, Fernando Henrique Cardoso disse que Lula soou “autoritário” ao dizer que deseja “extirpar” da política brasileira o DEM.
“Na medida em que o presidente quer eliminar um competidor, liquidar, ele tem poder total. É autoristarismo isso. É uma tremenda vontade de poder, que se expressa dessa forma incorreta. Um presidente da República não pode fazer isso”.
Condidera normal que, como presidente, Lula apoie sua candidata, Dilma Rousseff. Recordou que, em 2002, também apoiou José Serra, contra o próprio Lula. “Mas eu não fiz isso”, ressalvou. “Quando o presidente fala, envolve um prestígio que não é dele como chefe de partido, mas de uma instituição”.
Para FHC, Lula incorre no crime de “abuso de poder político”, previsto na legislação eleitoral. Acha que as legendas de oposição deveriam encaminhar uma “consulta” à Justiça Eleitoral”, para frear o que chamou de “apoteose mental" de Lula.
A certa altura, FHC disse que Lula se comporta na campanha eleitoral com a liberalidade de um “camelô”. Mais adiante, comparou-o a Benito Mussolini. “Não estou dizendo que seja a mesma coisa, mas Mussolini tinha a unanimidade. E faltou quem o freasse”.
Referido-se à falta de cerimônia de Lula na campanha, acrescentou: “Esse estilo de dizer ‘eu sou tudo, quero ter poder total’, isso tem que parar”. Para FHC, o sucessor virou "militante, chefe de uma facção. Extrapola os limites do estado de direito democrático".
Declarou que, no passado, quando havia corrupção e abusos, recorria-se às Forças Armadas. “Isso acabou, felizmente. Mas não pode acabar o Supremo Tribunal Federal. Alguma instância tem que dizer que o presidente está extrapolando do poder político de maneira contrária aos fundamentos da democracia”.
FHC submeteu-se a uma espécie de sabatina na internet. Falou a partir de seu instituto, em São Paulo. Instado a comentar a insistência com que Lula e o PT renegam os “êxitos” de sua gestão, disse que o comportamento é “mesquinho”.
“Fiz algumas coisas boas, meus antecessores fizeram e o Lula está fazendo. Por que essa ideia de herança maldita se ele vive dela até hoje? Não é necessário”. Disse que só Sigmund Freud pode explicar a fixação que Lula nutre por ele:
“O Lula perdeu duas vezes de mim [1994 e 1998]. Ele agora quer me derrotar. Não dá mais. Não sou candidato. Ele não precisava ser tão mesquino, torcendo dados. Não precisa. Ele está fazendo coisas boas também. Podia somar em vez de subtrair”.
FHC recordou os primórdios do Plano Real, editado à época em que era ministro da Fazenda de Itamar Franco. Atribuiu o sucesso do Real à inversão da lógica que prevalecera nos planos anteriores.
Em vez de surpreender as pessoas com mudanças anunciadas de sopetão, via Diário Oficial, sua equipe teve o cuidado de informar ao país o que ocorreria com a moeda.
Em dado momento, FHC voltou-se novamente para Lula, como se estivesse, também ele, vidrado no sucessor: "O Lula diz que, quando recebeu o governo, a inflação estava em dois dígitos. Como ele dizia coisas contra o Real, na eleição dele as pessoas, os investidores achavam que ia ser fim do mundo...”
“...Começou a desordem no Brasil. Eu tive que aumentar os juros. Ele esquece de dizer que os juros foram para 20% porque a campanha dele tinha provocado a insegurança que me levou a tomar providencias”. Disse ter agido “pensando no Brasil, não na eleição”.
Preocupava-se, segundo disse, justamente em não entregar a Lula “o caos”. Recordou que, antes de solicitar empréstimo emergencial ao FMI, chamou para uma conversa os candidatos à sua sucessão. Disse-lhes que não seria ele que utilizaria os recursos, mas o próximo presidente. Perguntou se estavam de acordo.
Lula, disse FHC, concordou. “Fui pedir o empréstimo sabendo que haveria desgaste político” Repisou que pensava “no Brasil”, não na “eleição”. Perguntou-se a FHC se acha que o excesso de gastos do governo põe em risco a estabilidade econômica.
E ele: “Sempre pode haver a volta da inflação. Devo dizer que Banco Central tem atuado de forma responsável. Mas, se eu fosse presidente, estaria preparando para o ano que vem um plano de contenção de gastos. Se não fizer, a estabilidade corre risco, sim”.
Antes de encerrar a entrevista, FHC instou os "webmilitantes" da campanha de Serra a manter o entusiasmo. Realçou que, na sucessão presidencial da Colômbia, "todas as pesquisas previam a vitória de um candidato e venceu outro". O que decide, disse ele, é voto não urna, não pesquisa.
Ex-presidente diz que sucessor sofre de ‘apoteose mental’
Para ele, sucessor se comporta como 'chefe de uma facção'
Folha
Em entrevista ao sítio Mobiliza, da campanha de José Serra, Fernando Henrique Cardoso disse que Lula soou “autoritário” ao dizer que deseja “extirpar” da política brasileira o DEM.
“Na medida em que o presidente quer eliminar um competidor, liquidar, ele tem poder total. É autoristarismo isso. É uma tremenda vontade de poder, que se expressa dessa forma incorreta. Um presidente da República não pode fazer isso”.
Condidera normal que, como presidente, Lula apoie sua candidata, Dilma Rousseff. Recordou que, em 2002, também apoiou José Serra, contra o próprio Lula. “Mas eu não fiz isso”, ressalvou. “Quando o presidente fala, envolve um prestígio que não é dele como chefe de partido, mas de uma instituição”.
Para FHC, Lula incorre no crime de “abuso de poder político”, previsto na legislação eleitoral. Acha que as legendas de oposição deveriam encaminhar uma “consulta” à Justiça Eleitoral”, para frear o que chamou de “apoteose mental" de Lula.
A certa altura, FHC disse que Lula se comporta na campanha eleitoral com a liberalidade de um “camelô”. Mais adiante, comparou-o a Benito Mussolini. “Não estou dizendo que seja a mesma coisa, mas Mussolini tinha a unanimidade. E faltou quem o freasse”.
Referido-se à falta de cerimônia de Lula na campanha, acrescentou: “Esse estilo de dizer ‘eu sou tudo, quero ter poder total’, isso tem que parar”. Para FHC, o sucessor virou "militante, chefe de uma facção. Extrapola os limites do estado de direito democrático".
Declarou que, no passado, quando havia corrupção e abusos, recorria-se às Forças Armadas. “Isso acabou, felizmente. Mas não pode acabar o Supremo Tribunal Federal. Alguma instância tem que dizer que o presidente está extrapolando do poder político de maneira contrária aos fundamentos da democracia”.
FHC submeteu-se a uma espécie de sabatina na internet. Falou a partir de seu instituto, em São Paulo. Instado a comentar a insistência com que Lula e o PT renegam os “êxitos” de sua gestão, disse que o comportamento é “mesquinho”.
“Fiz algumas coisas boas, meus antecessores fizeram e o Lula está fazendo. Por que essa ideia de herança maldita se ele vive dela até hoje? Não é necessário”. Disse que só Sigmund Freud pode explicar a fixação que Lula nutre por ele:
“O Lula perdeu duas vezes de mim [1994 e 1998]. Ele agora quer me derrotar. Não dá mais. Não sou candidato. Ele não precisava ser tão mesquino, torcendo dados. Não precisa. Ele está fazendo coisas boas também. Podia somar em vez de subtrair”.
FHC recordou os primórdios do Plano Real, editado à época em que era ministro da Fazenda de Itamar Franco. Atribuiu o sucesso do Real à inversão da lógica que prevalecera nos planos anteriores.
Em vez de surpreender as pessoas com mudanças anunciadas de sopetão, via Diário Oficial, sua equipe teve o cuidado de informar ao país o que ocorreria com a moeda.
Em dado momento, FHC voltou-se novamente para Lula, como se estivesse, também ele, vidrado no sucessor: "O Lula diz que, quando recebeu o governo, a inflação estava em dois dígitos. Como ele dizia coisas contra o Real, na eleição dele as pessoas, os investidores achavam que ia ser fim do mundo...”
“...Começou a desordem no Brasil. Eu tive que aumentar os juros. Ele esquece de dizer que os juros foram para 20% porque a campanha dele tinha provocado a insegurança que me levou a tomar providencias”. Disse ter agido “pensando no Brasil, não na eleição”.
Preocupava-se, segundo disse, justamente em não entregar a Lula “o caos”. Recordou que, antes de solicitar empréstimo emergencial ao FMI, chamou para uma conversa os candidatos à sua sucessão. Disse-lhes que não seria ele que utilizaria os recursos, mas o próximo presidente. Perguntou se estavam de acordo.
Lula, disse FHC, concordou. “Fui pedir o empréstimo sabendo que haveria desgaste político” Repisou que pensava “no Brasil”, não na “eleição”. Perguntou-se a FHC se acha que o excesso de gastos do governo põe em risco a estabilidade econômica.
E ele: “Sempre pode haver a volta da inflação. Devo dizer que Banco Central tem atuado de forma responsável. Mas, se eu fosse presidente, estaria preparando para o ano que vem um plano de contenção de gastos. Se não fizer, a estabilidade corre risco, sim”.
Antes de encerrar a entrevista, FHC instou os "webmilitantes" da campanha de Serra a manter o entusiasmo. Realçou que, na sucessão presidencial da Colômbia, "todas as pesquisas previam a vitória de um candidato e venceu outro". O que decide, disse ele, é voto não urna, não pesquisa.
ENVIADO POR NOBLAT
Deu em o globo
Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
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Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
ENVIADO POR NOBLAT
Deu em o globo
Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
ENVIADO POR NOBLAT
Deu em o globo
Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
ENVIADO POR NOBLAT
Deu em o globo
Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
Inversão de valores
De Merval Pereira
O mais grave que está acontecendo no país não é nem mesmo o inacreditável vale-tudo em que se transformou a campanha presidencial, mas a banalização das atitudes mais perniciosas do governo nesses últimos anos, especialmente após o episódio do mensalão em 2005, e de maneira mais acentuada no segundo mandato do presidente Lula.
São praticamente oito anos solapando as instituições do país, provocando ao final um anestesiamento na sociedade brasileira, que tudo justifica porque parte de um governo popular, aprovado por mais de 80% da população.
Como se a popularidade desse a qualquer governo o direito de ignorar leis, ou mesmo que as consequências benéficas desta ou daquela política social justificassem abusos de poder, ou os atenuassem.
O governo Lula está conseguindo transformar críticas em atitudes mesquinhas e antipatrióticas, e, assim como mistura o público com o privado, confunde o líder partidário com o poder do cargo de presidente da República, sem que a sociedade se indigne.
E quem critica esse abuso de poder político nunca antes visto neste país corre o risco de ser considerado um sujeito "do contra", que não reconhece os avanços havidos.
Cada vez fica mais restrito o campo para as divergências, ao mesmo tempo em que se alargam os caminhos para o autoritarismo e a truculência do Estado.
O presidente Lula começou essa escalada autoritária depois que conseguiu escapar da crise do mensalão.
Entre o momento em que ele próprio disse que havia sido traído dentro do governo, até quando os petistas foram à tribuna do Congresso chorar literalmente de vergonha pelo que estava sendo exposto, houve no país uma indignação que poderia fazer a política andar para a frente, com reformas estruturantes e punição dos responsáveis pelo maior prejuízo institucional que o país já sofreu na História democrática recente.
Mas o presidente Lula, impossibilitado de enfrentar a crise que estava arraigada no seu partido e no seu governo, assumiu em entrevista dada em Paris a versão de que o mensalão não passava de caixa dois, prática normal na política brasileira.
A partir daí, a prometida apuração rigorosa passou a ser uma proteção desabrida de todos os envolvidos, e a promessa implícita de que ninguém sofreria prejuízos se todos se unissem num pacto de silêncio.
O presidente sistematicamente passou a mão sobre a cabeça dos aliados, fossem eles quem fossem, tivessem cometido qualquer tipo de crime.
Essa se tornou a regra do governo, como nas máfias, e acelerou-se no segundo governo Lula a montagem da máquina governamental a serviço dos "companheiros".
A defesa intransigente de qualquer malfeito de aliados é a contrapartida do apoio cego, acrítico.
Lula não teme nenhum limite legal, desmoraliza o Judiciário como fez agora nesta campanha com o TSE, e se jacta de que pode ir para as ruas quando quiser para combater seus adversários.
Foi à televisão na condição de presidente da República para exercer o papel de cabo eleitoral de sua candidata, colocando o principal adversário como um antipatriota que não pensa no bem do país.
Repetiu na segunda à noite em Santa Catarina, quando, misturando mais uma vez o cargo que ocupa com seus interesses partidários, alegou que "em nome da minha honra e da honra do meu país" não perderá as eleições.
E acrescentou que estava fazendo hoje o que fez em 2005: "Vou às ruas para derrotá-los".
Na verdade, essa ameaça de levar os movimentos sociais para as ruas para reagir ao possível pedido de impeachment nunca se concretizou, e Lula chegou mesmo a autorizar uma negociação para não se candidatar à reeleição em troca de poder terminar seu mandato.
Com a recuperação de seu prestígio graças aos bons ventos da economia mundial, Lula voltou a ser aquele líder dado a "bravatas", como ele mesmo confessou que fazia quando esteve na oposição.Inebriado com seu próprio sucesso, Lula foi adiante e, ao lado da sua candidata Dilma Rousseff, afirmou que o "DEM precisa ser extirpado" da política brasileira.
Seu rancor data ainda de 2005, quando, segundo acusou, a família Bornhausen tentou derrubá-lo do poder.
A gravidade desse episódio, além do fato de um presidente da República defender em público o extermínio de um adversário político, é que, anos antes, o então senador Jorge Bornhausen havia provocado em Lula e nos petistas um aparente sentimento de estupor quando disse que na eleição de 2006 o país precisava "se ver livre dessa raça por 30 anos".
Foi chamado de tudo: "fascista", "direitista", "adepto das ditaduras militares", "explorador e assassino de trabalhadores".
Leia a íntegra do artigo em Inversão de valores
domingo, 5 de setembro de 2010
Uma Reflexão Histórica
Ouviram do Ipiranga, mas
esqueceram da história
Sara Vasconcelos
Da Tribuna do Norte
Os versos poéticos do Hino Nacional Brasileiro - escrito pelo jornalista Joaquim Osório Duque Estrada, para ilustrar a ruptura do Brasil com Portugal - parece não ecoar na memória do brasileiro, sobretudo dos mais jovens. Exceto pelo desfile cívico e palestras realizadas em escolas durante a Semana da Pátria, a impressão é que se o brasileiro "ouviu" 'O Grito do Ipiranga', já esqueceu. Assim como a outros acontecimentos da história do país.
Para testar o nível de conhecimento sobre o assunto, o jornal Tribuna do Norte aplicou entre estudantes de duas turmas do 9° ano do ensino fundamental, de escolas das redes pública e privada, um questionário sobre história do Brasil. Foram sete questões feitas aos adolescentes, com idades entre 12 e 13 anos, intencionalmente, a cerca de datas, símbolos e personagens que marcaram a trajetória desde a descoberta à democracia do país. O resultado revela rasa noção sobre fatos históricos e uma necessidade urgente de se rever o modelo de ensino, no intuito de congregar a análise contextualizada com os factuais.
Nenhum dos estudantes soube responder quem era o patrono da Independência, apesar dos livros apresentarem José Bonifácio de Andrada e Silva como autor da carta agitadora, que persuadiu Dom Pedro da impossibilidade de entendimento com a Corte Portuguesa. O título de patrono foi atribuído a Dom Pedro entre os estudantes da rede privada, e ao marechal Deodoro da Fonseca, entre os da escola pública. Não houve acertos sobre o ano de início e fim do governo militar no Brasil. Época que não passaria sem riqueza de detalhes e alguma comoção, se questionada ao público acima dos 30 anos.
Foi comum trocarem o ano da Proclamação da República (1889), com o ano da promulgação da Constituição Federal (1988) ou ainda fundir o nome de dois presidentes - criando um Fernando Henrique Collor - para aquele afastado do governo por impeachment.
Mas a justificativa alegada pelas turmas é respaldada pelos professores e coordenadores pedagógicos. O modelo atual de ensino não aborda a fixação de datas e ícones. Inclusive, há muito não são mais cobrados em exames de vestibular ou no Enem, o que desobriga o aprendizado. "Algumas coisas a gente decora só para a prova. Os professores mesmo dizem que não é preciso gravar as datas, que já vêm na pergunta", observa o estudante Pedro Henrique Braga de Moraes. Não há como fixar, acrescenta Sayonara Santos, também aluna do 9° ano, se o conteúdo é restrito a determinadas séries. "Acho que história do Brasil, geral ou do RN, deveria ser dada desde os primeiros anos até chegar à faculdade".
Desconhecer símbolos nacionais, como o Hino da Independência, não acarreta prejuízos para formação pessoal e intelectual na opinião dos alunos. "Não é usado. Diga um evento na escola ou fora dela em que se canta este hino? Eu nunca ouvi. Diferente do (hino) nacional que é cantado em jogos de futebol", conclui Marcos Leon Camilo Valdivino, 13, que reconhece que é preciso aprender mais sobre história da nação. "Não tem muito livro sobre história do Brasil. A gente vê naquele ano e pronto", acrescenta Jéssica Nóbrega, 15 anos.
Resultado era o esperado por professores
Apresentado a alguns educadores, o resultado do questionário não surpreendeu. Para o coordenador pedagógico e professor de história Gilson Barbosa, o estilo - factual - não se encaixa na metodologia de ensino implantada com a reforma pós-regime militar, quando a antiga disciplina de Moral e Cívica foi abolida das instituições.
"Não é mais valorizada a questão da data, do personagem. É dado, claro. Mas o ensino da História do Brasil é feito de modo contextualizado, buscando a interpretação dos fatos". Mas, ele opina que o conteúdo da antiga grade, que obrigava estudantes ao hasteamento da bandeira e cantar o hino nacional às quintas-feiras, conhecer brasões e demais ícones da história, deveria ter sido melhor aproveitada na reforma pedagógica.
O conteúdo para turmas de 9° ano, explica o professor José Gomes Gonzaga, aborda questões de conflitos e economia da história contemporânea e geral sempre fazendo comparativos com a história do país. "O método atual abandonou o vício de decorar e levou a pensar. O esquecimento é falta de interesse dos alunos", disse.
Para Gleydson José Bento Lima, assessor técnico pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, os professores trabalham dentro dos parâmetros curriculares nacionais que prima por uma visão interpretativa dos acontecimentos, não só a data. O plano pedagógico contempla os dois lados, mas o trabalho em sala de aula varia de acordo com o professor. Como não há obrigatoriedade de se promover momentos cívicos aos moldes antigos, fica a critério de cada instituição.
"O estilo tradicional apontava para os heróis e mitos da história, até pelo contexto nacionalista da época da ditadura. Nesta versão mais moderna, se busca a explicação. Não fixar estes dados não mina a capacidade de análise", enfatiza.
‘Cidadãos brasileiros sem identidade nacional’
Formar cidadãos sem identidade pessoal e memória cultural. É este o risco apontado pelo professor de história Fábio Moreira, com modelo atual de ensino da história do Brasil. Ao passo que o esquema pergunta-resposta, do tipo "Quem descobriu o Brasil? Pedro Álvares Cabral", caiu de moda.
A abordagem atual dá mais subsídios aos alunos para avaliar fatos, como perceber que o 7 de Setembro de 1822 foi o ápice de um acontecimento que integra o processo de crise do antigo sistema colonial, iniciado com as revoltas de emancipação no final do século XVIII, como a Inconfidência Mineira (1789).
"O prejuízo de focar o ensino mais na formação crítica de cidadãos, em detrimento da memória cultural, é a perda da identidade enquanto pessoa e brasileiro", frisa o professor. Hoje é mais fácil um estudante conhecer bandeira, hino e datas dos Estados Unidos - acrescenta - trabalhados nos veículos de massa.
Para a diretora do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), Claudia Santa Rosa, privilegiar mais um aspecto que outro do mesmo evento ocorre por um "desvio pedagógico" para se manter um estilo mais contemporâneo. "Para dar condições de análise, é preciso que o estudante domine o quando, quem e onde aconteceu, não só o quê, como e por quê. Para não deixar lacunas no aprendizado que se leva para a vida". Ao renegar as amarras de um período de ditadura militar, não se poderia ter abandonado de todo o modelo.
Para ela, é responsabilidade da escola direcionar e definir a forma de trabalhar a educação. A pedagoga e vice-diretora da rede pública, Jailde Oliveira, alerta para urgente mudança em resgate da história. "A escola continua sem dar capacidade de os alunos interpretar e escrever".
Acontecimentos
1500 - Chegada dos portugueses ao Brasil - Em 22 de abril de 1500, quando a esquadra de dez naus, três caravelas e 1,2 mil homens, comandada pelo navegador português Pedro Álvares Cabral, atinge o litoral sul da Bahia, na região da atual cidade de Porto Seguro.
1624 - Invasão Holandesa - No século XVII, os holandeses realizam tentativas de estabelecer-se no Nordeste brasileiro, na Bahia (1624), em Pernambuco (1630) e no Maranhão (1641). As invasões são um empreendimento ligado aos interesses do mercantilismo europeu na América colonial.
1792 - Inconfidência Mineira - Revoltados com a falta de liberdade, com a opressão e os altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa e principalmente com o anúncio da Derrama para fevereiro de 1789, importantes membros da elite econômica e intelectual de Minas Gerais planejaram o movimento que culminou, com a morte do ativista revolucionário Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), em 21 de abril daquele ano.
1808 - Chegada da Família Real ao Brasil - Ameaçados pelo avanço das tropas francesas de Napoleão Bonaparte, fixam reino no Brasil.
1822 - Independência do Brasil - Embora a independência política do Brasil tenha sido um "arranjo político", segundo a expressão do historiador Caio Prado Jr., ela implicou uma acirrada luta social. Em 7 de setembro de 1822, impedido pelas circunstância, D. Pedro rompeu definitivamente os laços de união política com Portugal.
1888 - Abolição da escravatura - Movimento social e político intensificado entre 1870 e 1888, que defendia o fim da escravidão no Brasil. Termina com a promulgação da Lei Áurea, que extingue o regime escravista originário da colonização do Brasil.
1889 - Proclamação da República - Questões religiosas, militares, escravistas e eleitorais e ideias como o Abolicionismo, republicanismo, positivismo e darwinismo contribuíram para a articulação da "Proclamação da República" em 15 de novembro de 1889 e a formação do governo provisório presidido pelo Marechal Deodoro da Fonseca.
1930 - Revolução de 1930 - A Revolução de 30 foi um movimento iniciado por oligarquias insatisfeitas com o resultado das eleições presidenciais de 1930 em associação com grupos radicais de oficiais do exército brasileiro, que culminou com a renúncia do presidente Washington Luís, obrigado a entregar o poder a Getúlio Vargas. O governo instaurado pela Revolução de 30 foi responsável pela adoção no Brasil das primeiras formas de legislação social e de estímulo ao desenvolvimento industrial.
1964 a 1985 - Ditadura militar - O Regime Militar foi instaurado pelo golpe de 1° de abril de 1964, que depôs o então presidente João Goulart. Até 1985, o Brasil viveu sob uma ditadura militar. Torturas, desaparecimentos, assassinatos, além de medidas para o cerceamento da liberdade de expressão, inexistência dos direitos fundamentais e das garantias constitucionais faziam parte da normalidade política da época.
1985 - Redemocratização - O processo de redemocratização teve início no governo do general João Baptista Figueiredo, com a anistia aos acusados ou condenados por crimes políticos, processo perturbado pela chamada linha dura. Em 15 de janeiro de 1985, o governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, foi eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral, com José Sarney como vice-presidente, derrotando o candidato da situação, o deputado federal Paulo Maluf.
1988 - Constituição Federal - A redemocratização só foi completa com a promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988.
1992 - Impeachment - A maior e mais forte crise enfrentada pelo governo Collor tomou forma em junho de 1992, graças a uma disputa envolvendo o irmão Pedro Collor e o empresário Paulo César Farias.
Fonte: Jornal de Fato
esqueceram da história
Sara Vasconcelos
Da Tribuna do Norte
Os versos poéticos do Hino Nacional Brasileiro - escrito pelo jornalista Joaquim Osório Duque Estrada, para ilustrar a ruptura do Brasil com Portugal - parece não ecoar na memória do brasileiro, sobretudo dos mais jovens. Exceto pelo desfile cívico e palestras realizadas em escolas durante a Semana da Pátria, a impressão é que se o brasileiro "ouviu" 'O Grito do Ipiranga', já esqueceu. Assim como a outros acontecimentos da história do país.
Para testar o nível de conhecimento sobre o assunto, o jornal Tribuna do Norte aplicou entre estudantes de duas turmas do 9° ano do ensino fundamental, de escolas das redes pública e privada, um questionário sobre história do Brasil. Foram sete questões feitas aos adolescentes, com idades entre 12 e 13 anos, intencionalmente, a cerca de datas, símbolos e personagens que marcaram a trajetória desde a descoberta à democracia do país. O resultado revela rasa noção sobre fatos históricos e uma necessidade urgente de se rever o modelo de ensino, no intuito de congregar a análise contextualizada com os factuais.
Nenhum dos estudantes soube responder quem era o patrono da Independência, apesar dos livros apresentarem José Bonifácio de Andrada e Silva como autor da carta agitadora, que persuadiu Dom Pedro da impossibilidade de entendimento com a Corte Portuguesa. O título de patrono foi atribuído a Dom Pedro entre os estudantes da rede privada, e ao marechal Deodoro da Fonseca, entre os da escola pública. Não houve acertos sobre o ano de início e fim do governo militar no Brasil. Época que não passaria sem riqueza de detalhes e alguma comoção, se questionada ao público acima dos 30 anos.
Foi comum trocarem o ano da Proclamação da República (1889), com o ano da promulgação da Constituição Federal (1988) ou ainda fundir o nome de dois presidentes - criando um Fernando Henrique Collor - para aquele afastado do governo por impeachment.
Mas a justificativa alegada pelas turmas é respaldada pelos professores e coordenadores pedagógicos. O modelo atual de ensino não aborda a fixação de datas e ícones. Inclusive, há muito não são mais cobrados em exames de vestibular ou no Enem, o que desobriga o aprendizado. "Algumas coisas a gente decora só para a prova. Os professores mesmo dizem que não é preciso gravar as datas, que já vêm na pergunta", observa o estudante Pedro Henrique Braga de Moraes. Não há como fixar, acrescenta Sayonara Santos, também aluna do 9° ano, se o conteúdo é restrito a determinadas séries. "Acho que história do Brasil, geral ou do RN, deveria ser dada desde os primeiros anos até chegar à faculdade".
Desconhecer símbolos nacionais, como o Hino da Independência, não acarreta prejuízos para formação pessoal e intelectual na opinião dos alunos. "Não é usado. Diga um evento na escola ou fora dela em que se canta este hino? Eu nunca ouvi. Diferente do (hino) nacional que é cantado em jogos de futebol", conclui Marcos Leon Camilo Valdivino, 13, que reconhece que é preciso aprender mais sobre história da nação. "Não tem muito livro sobre história do Brasil. A gente vê naquele ano e pronto", acrescenta Jéssica Nóbrega, 15 anos.
Resultado era o esperado por professores
Apresentado a alguns educadores, o resultado do questionário não surpreendeu. Para o coordenador pedagógico e professor de história Gilson Barbosa, o estilo - factual - não se encaixa na metodologia de ensino implantada com a reforma pós-regime militar, quando a antiga disciplina de Moral e Cívica foi abolida das instituições.
"Não é mais valorizada a questão da data, do personagem. É dado, claro. Mas o ensino da História do Brasil é feito de modo contextualizado, buscando a interpretação dos fatos". Mas, ele opina que o conteúdo da antiga grade, que obrigava estudantes ao hasteamento da bandeira e cantar o hino nacional às quintas-feiras, conhecer brasões e demais ícones da história, deveria ter sido melhor aproveitada na reforma pedagógica.
O conteúdo para turmas de 9° ano, explica o professor José Gomes Gonzaga, aborda questões de conflitos e economia da história contemporânea e geral sempre fazendo comparativos com a história do país. "O método atual abandonou o vício de decorar e levou a pensar. O esquecimento é falta de interesse dos alunos", disse.
Para Gleydson José Bento Lima, assessor técnico pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, os professores trabalham dentro dos parâmetros curriculares nacionais que prima por uma visão interpretativa dos acontecimentos, não só a data. O plano pedagógico contempla os dois lados, mas o trabalho em sala de aula varia de acordo com o professor. Como não há obrigatoriedade de se promover momentos cívicos aos moldes antigos, fica a critério de cada instituição.
"O estilo tradicional apontava para os heróis e mitos da história, até pelo contexto nacionalista da época da ditadura. Nesta versão mais moderna, se busca a explicação. Não fixar estes dados não mina a capacidade de análise", enfatiza.
‘Cidadãos brasileiros sem identidade nacional’
Formar cidadãos sem identidade pessoal e memória cultural. É este o risco apontado pelo professor de história Fábio Moreira, com modelo atual de ensino da história do Brasil. Ao passo que o esquema pergunta-resposta, do tipo "Quem descobriu o Brasil? Pedro Álvares Cabral", caiu de moda.
A abordagem atual dá mais subsídios aos alunos para avaliar fatos, como perceber que o 7 de Setembro de 1822 foi o ápice de um acontecimento que integra o processo de crise do antigo sistema colonial, iniciado com as revoltas de emancipação no final do século XVIII, como a Inconfidência Mineira (1789).
"O prejuízo de focar o ensino mais na formação crítica de cidadãos, em detrimento da memória cultural, é a perda da identidade enquanto pessoa e brasileiro", frisa o professor. Hoje é mais fácil um estudante conhecer bandeira, hino e datas dos Estados Unidos - acrescenta - trabalhados nos veículos de massa.
Para a diretora do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), Claudia Santa Rosa, privilegiar mais um aspecto que outro do mesmo evento ocorre por um "desvio pedagógico" para se manter um estilo mais contemporâneo. "Para dar condições de análise, é preciso que o estudante domine o quando, quem e onde aconteceu, não só o quê, como e por quê. Para não deixar lacunas no aprendizado que se leva para a vida". Ao renegar as amarras de um período de ditadura militar, não se poderia ter abandonado de todo o modelo.
Para ela, é responsabilidade da escola direcionar e definir a forma de trabalhar a educação. A pedagoga e vice-diretora da rede pública, Jailde Oliveira, alerta para urgente mudança em resgate da história. "A escola continua sem dar capacidade de os alunos interpretar e escrever".
Acontecimentos
1500 - Chegada dos portugueses ao Brasil - Em 22 de abril de 1500, quando a esquadra de dez naus, três caravelas e 1,2 mil homens, comandada pelo navegador português Pedro Álvares Cabral, atinge o litoral sul da Bahia, na região da atual cidade de Porto Seguro.
1624 - Invasão Holandesa - No século XVII, os holandeses realizam tentativas de estabelecer-se no Nordeste brasileiro, na Bahia (1624), em Pernambuco (1630) e no Maranhão (1641). As invasões são um empreendimento ligado aos interesses do mercantilismo europeu na América colonial.
1792 - Inconfidência Mineira - Revoltados com a falta de liberdade, com a opressão e os altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa e principalmente com o anúncio da Derrama para fevereiro de 1789, importantes membros da elite econômica e intelectual de Minas Gerais planejaram o movimento que culminou, com a morte do ativista revolucionário Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), em 21 de abril daquele ano.
1808 - Chegada da Família Real ao Brasil - Ameaçados pelo avanço das tropas francesas de Napoleão Bonaparte, fixam reino no Brasil.
1822 - Independência do Brasil - Embora a independência política do Brasil tenha sido um "arranjo político", segundo a expressão do historiador Caio Prado Jr., ela implicou uma acirrada luta social. Em 7 de setembro de 1822, impedido pelas circunstância, D. Pedro rompeu definitivamente os laços de união política com Portugal.
1888 - Abolição da escravatura - Movimento social e político intensificado entre 1870 e 1888, que defendia o fim da escravidão no Brasil. Termina com a promulgação da Lei Áurea, que extingue o regime escravista originário da colonização do Brasil.
1889 - Proclamação da República - Questões religiosas, militares, escravistas e eleitorais e ideias como o Abolicionismo, republicanismo, positivismo e darwinismo contribuíram para a articulação da "Proclamação da República" em 15 de novembro de 1889 e a formação do governo provisório presidido pelo Marechal Deodoro da Fonseca.
1930 - Revolução de 1930 - A Revolução de 30 foi um movimento iniciado por oligarquias insatisfeitas com o resultado das eleições presidenciais de 1930 em associação com grupos radicais de oficiais do exército brasileiro, que culminou com a renúncia do presidente Washington Luís, obrigado a entregar o poder a Getúlio Vargas. O governo instaurado pela Revolução de 30 foi responsável pela adoção no Brasil das primeiras formas de legislação social e de estímulo ao desenvolvimento industrial.
1964 a 1985 - Ditadura militar - O Regime Militar foi instaurado pelo golpe de 1° de abril de 1964, que depôs o então presidente João Goulart. Até 1985, o Brasil viveu sob uma ditadura militar. Torturas, desaparecimentos, assassinatos, além de medidas para o cerceamento da liberdade de expressão, inexistência dos direitos fundamentais e das garantias constitucionais faziam parte da normalidade política da época.
1985 - Redemocratização - O processo de redemocratização teve início no governo do general João Baptista Figueiredo, com a anistia aos acusados ou condenados por crimes políticos, processo perturbado pela chamada linha dura. Em 15 de janeiro de 1985, o governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, foi eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral, com José Sarney como vice-presidente, derrotando o candidato da situação, o deputado federal Paulo Maluf.
1988 - Constituição Federal - A redemocratização só foi completa com a promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988.
1992 - Impeachment - A maior e mais forte crise enfrentada pelo governo Collor tomou forma em junho de 1992, graças a uma disputa envolvendo o irmão Pedro Collor e o empresário Paulo César Farias.
Fonte: Jornal de Fato
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
POR LUIZ CARLOS BARROS
IBGE: ‘entulho autoritário’ da ditadura
O IBGE foi criado no Estado Novo pela ditadura Vargas em 1938, e recriado pelo decreto do ditador Castelo Branco, em 1967 - lei 161, de 13 de fevereiro de 1967. Em 14 de novembro de 1968, o responsável pelo período mais feroz da ditadura, o general Costa e Silva criou a lei 5.534, obrigando todos os cidadãos brasileiros a prestarem informações sobre sua vida privada ao IBGE, sob pena de pagar multa de 10 salários, mínimos além de ser obrigado a prestar as informações.
Na época, o serviço de informações da ditadura procurava por todos os meios ficar sabendo o máximo possível da vida dos cidadãos, para poder controlar as oposições. Agora, recentemente, graças à atuação do IBGE, cria da ditadura, o INSS diminui o valor da pensão dos aposentados porque os brasileiros estão vivendo mais.
Quanto à afirmação de que as informações são sigilosas, isso é uma piada de mau gosto, visto que até ministros são espionados no Brasil - será que o sigilo do IBGE é igual o do Enem? Quem garante que não vão vender nossas informações para marqueteiros elegerem presidentes?
A lei só “existe”, pois somos um pais de analfabetos políticos e sociais, e não fazemos valer a Constituição de 88 , que é superior a qualquer lei. A lei é de que ano mesmo? Ah, LEI No 5.534, DE 14 DE NOVEMBRO DE 1968. Leia abaixo, informe-se um pouco sobre o seu país, sobre quando essa lei foi criada, e depois a apoie ou não.
Como tudo começou
Em 1967, assume a presidência o general Arthur da Costa e Silva, após ser eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Seu governo é marcado por protestos e manifestações sociais. A oposição ao regime militar cresce no país. A UNE (União Nacional dos Estudantes) organiza, no Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil. Em Contagem (MG) e Osasco (SP), greves de operários paralisam fábricas, em protesto ao regime militar.
A guerrilha urbana começa a se organizar. Formada por jovens idealistas de esquerda, assaltam bancos e sequestram embaixadores, para obterem fundos para o movimento de oposição armada.
No dia 13 de dezembro de 1968, o governo decreta o Ato Institucional Número 5 (AI-5 ). Este foi o mais duro do governo militar, pois aposentou juízes, cassou mandatos, acabou com as garantias do habeas corpus e aumentou a repressão militar e policial. O resto é História.
Luis Carlos Barros é jornalista, ex-preso político e fundador do jornal A guarita da liberdade.
e-mail: ludementala@hotmail.com
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O IBGE foi criado no Estado Novo pela ditadura Vargas em 1938, e recriado pelo decreto do ditador Castelo Branco, em 1967 - lei 161, de 13 de fevereiro de 1967. Em 14 de novembro de 1968, o responsável pelo período mais feroz da ditadura, o general Costa e Silva criou a lei 5.534, obrigando todos os cidadãos brasileiros a prestarem informações sobre sua vida privada ao IBGE, sob pena de pagar multa de 10 salários, mínimos além de ser obrigado a prestar as informações.
Na época, o serviço de informações da ditadura procurava por todos os meios ficar sabendo o máximo possível da vida dos cidadãos, para poder controlar as oposições. Agora, recentemente, graças à atuação do IBGE, cria da ditadura, o INSS diminui o valor da pensão dos aposentados porque os brasileiros estão vivendo mais.
Quanto à afirmação de que as informações são sigilosas, isso é uma piada de mau gosto, visto que até ministros são espionados no Brasil - será que o sigilo do IBGE é igual o do Enem? Quem garante que não vão vender nossas informações para marqueteiros elegerem presidentes?
A lei só “existe”, pois somos um pais de analfabetos políticos e sociais, e não fazemos valer a Constituição de 88 , que é superior a qualquer lei. A lei é de que ano mesmo? Ah, LEI No 5.534, DE 14 DE NOVEMBRO DE 1968. Leia abaixo, informe-se um pouco sobre o seu país, sobre quando essa lei foi criada, e depois a apoie ou não.
Como tudo começou
Em 1967, assume a presidência o general Arthur da Costa e Silva, após ser eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Seu governo é marcado por protestos e manifestações sociais. A oposição ao regime militar cresce no país. A UNE (União Nacional dos Estudantes) organiza, no Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil. Em Contagem (MG) e Osasco (SP), greves de operários paralisam fábricas, em protesto ao regime militar.
A guerrilha urbana começa a se organizar. Formada por jovens idealistas de esquerda, assaltam bancos e sequestram embaixadores, para obterem fundos para o movimento de oposição armada.
No dia 13 de dezembro de 1968, o governo decreta o Ato Institucional Número 5 (AI-5 ). Este foi o mais duro do governo militar, pois aposentou juízes, cassou mandatos, acabou com as garantias do habeas corpus e aumentou a repressão militar e policial. O resto é História.
Luis Carlos Barros é jornalista, ex-preso político e fundador do jornal A guarita da liberdade.
e-mail: ludementala@hotmail.com
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A PERDEDORA
Deu em O Globo
Miriam Leitão
Já se sabe quem perdeu a eleição de 2010: a Receita Federal. O órgão sai dessa campanha com uma queda violenta de credibilidade.
Pelo que fez, pelo que deixou de fazer, pelo que deixou que fizessem em suas repartições, a Receita que tinha o respeito dos brasileiros — e o temor dos sonegadores — hoje está reduzida a um braço de um partido político.
A violação do sigilo fiscal da filha do candidato José Serra é daqueles fatos que acabam com quaisquer dúvidas que por acaso ainda persistiam. A resposta dada pela Receita de que interposta pessoa levou procuração pedindo para quebrar o sigilo da contribuinte foi espantosamente grosseira.
Quem pare um minuto para pensar na explicação do órgão sabe que não faz sentido algum. Quer dizer então que uma pessoa com documento falsificado pode pedir informações protegidas? As primeiras apurações derrubaram a versão oficial.
Na campanha governista a avaliação é que este assunto não terá impacto eleitoral porque apenas alguns milhões de brasileiros declaram imposto de renda no país.
Isso equivale a dizer que crimes que atingem poucos eleitores podem ser cometidos, sem problema, desde que não ponham em risco a eleição da candidata do governo.
A atual direção da Receita tem cometido erros sequenciais. Não presta as informações necessárias, protela deliberadamente o esclarecimento do assunto, dá explicações inaceitáveis para os fatos dos quais não consegue escapar.
Num dos seus piores momentos, a Receita Federal quis garantir que não era um evento com motivações políticas, explicando que era um caso de corrupção. Se há um balcão de compra e venda de informações sigilosas num órgão que tem a prerrogativa de ser a guardiã desse sigilo, é gravíssimo. Isso não atenua o descalabro.
No caso de ser uma espionagem política, e com fins bem óbvios, é preciso que se saiba tudo antes do fim do pleito. É urgente que se faça uma investigação que acabe com as dúvidas e não as aumente.
Há um claro exagero do PSDB em pedir a cassação do registro da candidata que está em tão confortável vantagem nas intenções de voto.
Por outro lado, Dilma Rousseff, seu entorno, e o governo têm feito declarações espantosamente amenas ou equivocadas diante da gravidade do caso. Reiteradamente eles têm tentado subestimar o que está acontecendo dizendo que é briga de campanha.
Dilma disse esta semana que o PSDB "tem trajetória de vazamentos e grampos expressiva." Falou para justificar os fatos que estão sendo divulgados. Referiu-se ao caso das fitas gravadas no BNDES. Não há qualquer comparação possível.
As fitas do BNDES tentavam comprometer pessoas do próprio governo — e não políticos de um partido adversário em campanha. Elas foram resultado de gravação ilegal, as pessoas foram identificadas, e foram condenadas.
A candidata precisa mostrar seriedade no trato dessa questão — ainda que tarde. Esse tipo de resposta criada por assessor pode dar a impressão de esperteza, mas o que passa é a convicção de que está se aceitando como banal e corriqueiro o que é inaceitável, a quebra de um princípio constitucional.
O Estado não pode ser usado pelo partido que está temporariamente no poder para espionar adversários políticos. Foi isso que derrubou o então presidente Richard Nixon no caso Watergate.
É preciso restaurar a noção da dimensão do crime de usar a máquina para espionar e usar informações, entregues ao Estado, como parte da guerra eleitoral. A luta tem que ser travada apenas em torno de ideias, projetos, estilos de governo.
O secretário Otacílio Cartaxo disse que a Receita foi "pega de surpresa" e que "está traumatizada". Causa com isso novos danos à imagem do órgão, que sempre teve reputação de competência.
Quebra-se o sigilo fiscal em bases seriais e o fato nem é notado, monta-se um balcão de compra e venda e isso só vem a público pela imprensa.
Para evitar o trauma, a Receita precisa rapidamente trabalhar para mitigar o dano à sua imagem. Isso só se faz se houver uma apuração rigorosa e ágil. A demora nesse caso deixará a impressão de acobertamento. E se for isso a desconfiança se espalhará por toda a instituição.
No governo Lula, o aparelhamento de alguns órgãos ficou acima do tolerável. Como o que acontece com o Ipea, por exemplo. O órgão não foi usado nem mesmo pelos militares durante a ditadura, e, ao contrário, tornou-se uma espécie de centro de pensamento crítico que produziu análises valiosas para o país.
Agora virou estação repetidora do partido. A qualidade dos estudos comandados pela presidência do órgão é sofrível. A imagem do instituto só não está inteiramente demolida porque alguns resistentes, ainda que marginalizados, continuam mantendo a capacidade de produção de informação de qualidade no órgão. Mas hoje, o Ipea, com seus exóticos escritórios em Havana e Caracas, é uma sombra do que foi nos anos em que sua inteligência foi tão útil ao país.
O primeiro sinal de que a Receita Federal não era mais um território protegido do uso indevido aconteceu na queda da ex-secretária Lina Vieira, derrubada por ter dado informações que constrangeram a hoje candidata Dilma Rousseff.
O caso nunca foi suficientemente esclarecido. Até o fato de não haver ainda a foto dela na parede dos ex-secretários da Receita é um sinal estranho. Lembra os regimes autoritários que mudam a história pregressa e apagam personagens que incomodam.
Construir a reputação de seriedade, competência e neutralidade da Receita Federal custou muito trabalho. Esse patrimônio está sendo destruído nessa eleição.
É ela, a Receita, a perdedora. Mais do que as vítimas da espionagem.
Siga o Blog do Noblat no twitter
Miriam Leitão
Já se sabe quem perdeu a eleição de 2010: a Receita Federal. O órgão sai dessa campanha com uma queda violenta de credibilidade.
Pelo que fez, pelo que deixou de fazer, pelo que deixou que fizessem em suas repartições, a Receita que tinha o respeito dos brasileiros — e o temor dos sonegadores — hoje está reduzida a um braço de um partido político.
A violação do sigilo fiscal da filha do candidato José Serra é daqueles fatos que acabam com quaisquer dúvidas que por acaso ainda persistiam. A resposta dada pela Receita de que interposta pessoa levou procuração pedindo para quebrar o sigilo da contribuinte foi espantosamente grosseira.
Quem pare um minuto para pensar na explicação do órgão sabe que não faz sentido algum. Quer dizer então que uma pessoa com documento falsificado pode pedir informações protegidas? As primeiras apurações derrubaram a versão oficial.
Na campanha governista a avaliação é que este assunto não terá impacto eleitoral porque apenas alguns milhões de brasileiros declaram imposto de renda no país.
Isso equivale a dizer que crimes que atingem poucos eleitores podem ser cometidos, sem problema, desde que não ponham em risco a eleição da candidata do governo.
A atual direção da Receita tem cometido erros sequenciais. Não presta as informações necessárias, protela deliberadamente o esclarecimento do assunto, dá explicações inaceitáveis para os fatos dos quais não consegue escapar.
Num dos seus piores momentos, a Receita Federal quis garantir que não era um evento com motivações políticas, explicando que era um caso de corrupção. Se há um balcão de compra e venda de informações sigilosas num órgão que tem a prerrogativa de ser a guardiã desse sigilo, é gravíssimo. Isso não atenua o descalabro.
No caso de ser uma espionagem política, e com fins bem óbvios, é preciso que se saiba tudo antes do fim do pleito. É urgente que se faça uma investigação que acabe com as dúvidas e não as aumente.
Há um claro exagero do PSDB em pedir a cassação do registro da candidata que está em tão confortável vantagem nas intenções de voto.
Por outro lado, Dilma Rousseff, seu entorno, e o governo têm feito declarações espantosamente amenas ou equivocadas diante da gravidade do caso. Reiteradamente eles têm tentado subestimar o que está acontecendo dizendo que é briga de campanha.
Dilma disse esta semana que o PSDB "tem trajetória de vazamentos e grampos expressiva." Falou para justificar os fatos que estão sendo divulgados. Referiu-se ao caso das fitas gravadas no BNDES. Não há qualquer comparação possível.
As fitas do BNDES tentavam comprometer pessoas do próprio governo — e não políticos de um partido adversário em campanha. Elas foram resultado de gravação ilegal, as pessoas foram identificadas, e foram condenadas.
A candidata precisa mostrar seriedade no trato dessa questão — ainda que tarde. Esse tipo de resposta criada por assessor pode dar a impressão de esperteza, mas o que passa é a convicção de que está se aceitando como banal e corriqueiro o que é inaceitável, a quebra de um princípio constitucional.
O Estado não pode ser usado pelo partido que está temporariamente no poder para espionar adversários políticos. Foi isso que derrubou o então presidente Richard Nixon no caso Watergate.
É preciso restaurar a noção da dimensão do crime de usar a máquina para espionar e usar informações, entregues ao Estado, como parte da guerra eleitoral. A luta tem que ser travada apenas em torno de ideias, projetos, estilos de governo.
O secretário Otacílio Cartaxo disse que a Receita foi "pega de surpresa" e que "está traumatizada". Causa com isso novos danos à imagem do órgão, que sempre teve reputação de competência.
Quebra-se o sigilo fiscal em bases seriais e o fato nem é notado, monta-se um balcão de compra e venda e isso só vem a público pela imprensa.
Para evitar o trauma, a Receita precisa rapidamente trabalhar para mitigar o dano à sua imagem. Isso só se faz se houver uma apuração rigorosa e ágil. A demora nesse caso deixará a impressão de acobertamento. E se for isso a desconfiança se espalhará por toda a instituição.
No governo Lula, o aparelhamento de alguns órgãos ficou acima do tolerável. Como o que acontece com o Ipea, por exemplo. O órgão não foi usado nem mesmo pelos militares durante a ditadura, e, ao contrário, tornou-se uma espécie de centro de pensamento crítico que produziu análises valiosas para o país.
Agora virou estação repetidora do partido. A qualidade dos estudos comandados pela presidência do órgão é sofrível. A imagem do instituto só não está inteiramente demolida porque alguns resistentes, ainda que marginalizados, continuam mantendo a capacidade de produção de informação de qualidade no órgão. Mas hoje, o Ipea, com seus exóticos escritórios em Havana e Caracas, é uma sombra do que foi nos anos em que sua inteligência foi tão útil ao país.
O primeiro sinal de que a Receita Federal não era mais um território protegido do uso indevido aconteceu na queda da ex-secretária Lina Vieira, derrubada por ter dado informações que constrangeram a hoje candidata Dilma Rousseff.
O caso nunca foi suficientemente esclarecido. Até o fato de não haver ainda a foto dela na parede dos ex-secretários da Receita é um sinal estranho. Lembra os regimes autoritários que mudam a história pregressa e apagam personagens que incomodam.
Construir a reputação de seriedade, competência e neutralidade da Receita Federal custou muito trabalho. Esse patrimônio está sendo destruído nessa eleição.
É ela, a Receita, a perdedora. Mais do que as vítimas da espionagem.
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010
LULA DEPOIS DE LULA
“O presidente tem amadurecido uma ideia: tornar-se uma espécie de arauto da reforma política assim que deixar o Planalto”
Rudolfo Lago*
O que fará Lula depois que deixar a Presidência da República? Ao que parece, somente um cataclismo de proporções diluvianas pode a essa altura alterar o panorama que aponta para a vitória de Dilma Rousseff, do PT. Mesmo a turma mais ligada a José Serra começa a reconhecer isso. Assim, é muito provável que Lula fará sua sucessora. E depois, o que virá?
Uma coisa parece certa na cabeça do presidente: ao contrário do que diz Serra na sua propaganda eleitoral, Lula não pretende montar na garupa de Dilma Rousseff e continuar governando o Brasil por trás dela. Segundo um ministro muito próximo do presidente, Lula tem total confiança na capacidade administrativa de Dilma. E outros planos.
Segundo esse ministro, de saída o presidente tem mais de uma dezena de convites de universidades pelo mundo para receber títulos honoris causa. Deverá usar boa parte de seu período de quarentena após deixar a Presidência para aceitar esses convites. Para além disso, ele ainda não esboçou muitos planos. Mas tem amadurecido uma ideia: tornar-se uma espécie de arauto da reforma política.
Desde sempre, a discussão sobre a reforma política esbarrou num ponto. Por mais que se concorde que o atual modelo está esgotado, os próprios políticos sempre reagem a fazer qualquer mudança. Por uma razão simples: se alguém se beneficia com o atual modelo, são eles. Os políticos já sabem como agir para manter seus mandatos. A renovação do Congresso é baixa, em torno de 40%, a cada eleição. Então, para quem está no poder, o modelo é seguro. Mexer nele implica riscos. Por isso, a coisa empaca.
O modelo beneficia especialmente os principais partidos. E é com eles que o presidente, qualquer presidente, tem que negociar. Se depende dos votos desses partidos e esses partidos na prática evitam a reforma política, alguém no exercício da presidência fica sempre com dificuldade de virar ponta-de-lança de uma proposta de reforma política. Além disso, uma ideia que possa prejudicar os políticos partir do Poder Executivo pode ser interpretada como uma intervenção indevida.
Se não evolui no Congresso, se não pode partir do Executivo, como avançar numa proposta de reforma política? Lula tem dito que a possibilidade de avanço poderia estar na hipótese de alguém - ainda com comando e com credibilidade mas de alguma forma solto dos compromissos menores da negociação política - assumir o comando da discussão. Esse alguém poderia ser ele.
É claro que Lula conduziria essa discussão dentro do ponto de vista das mudanças que o PT prioriza. Incluiria especialmente o financiamento público de campanha e o modelo de lista fechada para a eleição de deputados estadual e federal. O financiamento público de campanha é uma certeza do PT – mas que também conta com adeptos em outros partidos, mesmo entre políticos conservadores (o deputado Ronaldo Caiado, do DEM, por exemplo, é favorável ao modelo) – de que é a única forma de baratear a eleição. Uma campanha de deputado federal já está chegando nestas eleições à absurda casa dos R$ 3 milhões. Mais do que R$ 3 milhões em dinheiro, são R$ 3 milhões em compromissos acertados sabe-se lá com quem e sabe-se lá com quais propósitos.
Já a lista fechada cai como uma luva nas pretensões petistas. O PT já é a legenda mais conhecida. Num tipo de processo em que se vota na legenda e se elege proporcionalmente a lista que o partido indica, é quem mais tem a se beneficiar. Na defesa do PT, porém, a lista fechada é um processo que fortalece o partido e diminui a possibilidade de distorção de um partido menor candidatar um Enéas ou um Clodovil e puxar com ele três ou quatro deputados com meia dúzia de votos.
Lula considera que sem as amarras das negociações políticas que envolvem o exercício da Presidência, ele poderá levar adiante os debates sobre a reforma política e, com a autoridade que terá, conduzir os parlamentares do PT e dos demais partidos aliados a se comprometerem com as mudanças necessárias.
Se conseguir fazer isso, Lula produzirá uma transformação que todo mundo concorda que é absolutamente necessária mas não consegue encontrar meios de fazer. Pode ser um ótimo meio de se manter em evidência e não cair no ostracismo.
Rudolfo Lago*
*É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, Rudolfo Lago atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultaram na cassação do senador Luiz Estevão
Outros textos do colunista Rudolfo Lago*
Rudolfo Lago*
O que fará Lula depois que deixar a Presidência da República? Ao que parece, somente um cataclismo de proporções diluvianas pode a essa altura alterar o panorama que aponta para a vitória de Dilma Rousseff, do PT. Mesmo a turma mais ligada a José Serra começa a reconhecer isso. Assim, é muito provável que Lula fará sua sucessora. E depois, o que virá?
Uma coisa parece certa na cabeça do presidente: ao contrário do que diz Serra na sua propaganda eleitoral, Lula não pretende montar na garupa de Dilma Rousseff e continuar governando o Brasil por trás dela. Segundo um ministro muito próximo do presidente, Lula tem total confiança na capacidade administrativa de Dilma. E outros planos.
Segundo esse ministro, de saída o presidente tem mais de uma dezena de convites de universidades pelo mundo para receber títulos honoris causa. Deverá usar boa parte de seu período de quarentena após deixar a Presidência para aceitar esses convites. Para além disso, ele ainda não esboçou muitos planos. Mas tem amadurecido uma ideia: tornar-se uma espécie de arauto da reforma política.
Desde sempre, a discussão sobre a reforma política esbarrou num ponto. Por mais que se concorde que o atual modelo está esgotado, os próprios políticos sempre reagem a fazer qualquer mudança. Por uma razão simples: se alguém se beneficia com o atual modelo, são eles. Os políticos já sabem como agir para manter seus mandatos. A renovação do Congresso é baixa, em torno de 40%, a cada eleição. Então, para quem está no poder, o modelo é seguro. Mexer nele implica riscos. Por isso, a coisa empaca.
O modelo beneficia especialmente os principais partidos. E é com eles que o presidente, qualquer presidente, tem que negociar. Se depende dos votos desses partidos e esses partidos na prática evitam a reforma política, alguém no exercício da presidência fica sempre com dificuldade de virar ponta-de-lança de uma proposta de reforma política. Além disso, uma ideia que possa prejudicar os políticos partir do Poder Executivo pode ser interpretada como uma intervenção indevida.
Se não evolui no Congresso, se não pode partir do Executivo, como avançar numa proposta de reforma política? Lula tem dito que a possibilidade de avanço poderia estar na hipótese de alguém - ainda com comando e com credibilidade mas de alguma forma solto dos compromissos menores da negociação política - assumir o comando da discussão. Esse alguém poderia ser ele.
É claro que Lula conduziria essa discussão dentro do ponto de vista das mudanças que o PT prioriza. Incluiria especialmente o financiamento público de campanha e o modelo de lista fechada para a eleição de deputados estadual e federal. O financiamento público de campanha é uma certeza do PT – mas que também conta com adeptos em outros partidos, mesmo entre políticos conservadores (o deputado Ronaldo Caiado, do DEM, por exemplo, é favorável ao modelo) – de que é a única forma de baratear a eleição. Uma campanha de deputado federal já está chegando nestas eleições à absurda casa dos R$ 3 milhões. Mais do que R$ 3 milhões em dinheiro, são R$ 3 milhões em compromissos acertados sabe-se lá com quem e sabe-se lá com quais propósitos.
Já a lista fechada cai como uma luva nas pretensões petistas. O PT já é a legenda mais conhecida. Num tipo de processo em que se vota na legenda e se elege proporcionalmente a lista que o partido indica, é quem mais tem a se beneficiar. Na defesa do PT, porém, a lista fechada é um processo que fortalece o partido e diminui a possibilidade de distorção de um partido menor candidatar um Enéas ou um Clodovil e puxar com ele três ou quatro deputados com meia dúzia de votos.
Lula considera que sem as amarras das negociações políticas que envolvem o exercício da Presidência, ele poderá levar adiante os debates sobre a reforma política e, com a autoridade que terá, conduzir os parlamentares do PT e dos demais partidos aliados a se comprometerem com as mudanças necessárias.
Se conseguir fazer isso, Lula produzirá uma transformação que todo mundo concorda que é absolutamente necessária mas não consegue encontrar meios de fazer. Pode ser um ótimo meio de se manter em evidência e não cair no ostracismo.
Rudolfo Lago*
*É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, Rudolfo Lago atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultaram na cassação do senador Luiz Estevão
Outros textos do colunista Rudolfo Lago*
OS NANICOS DE ESQUERDA
"Esses partidos disputam eleições apenas para divulgar as suas posições doutrinárias entre o maior número possível de pessoas. Seus candidatos jamais chegam a ter a ilusão de possuir chances razoáveis de serem eleitos para qualquer cargo que seja"
Rogério Schmitt*
Uma das características mais intrigantes desta eleição presidencial é a abundância de candidatos ao Palácio do Planalto lançados pelos micro-partidos de extrema esquerda. Esses presidenciáveis estão condenados a ter um desempenho pífio nas urnas. E os seus partidos também continuarão sendo nanicos.
Nunca houve nada parecido nas campanhas presidenciais dos últimos vinte anos. Em 2010, todos os partidos nanicos da esquerda radical lançaram candidatos próprios à presidência. O Psol apresentou a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio. O PSTU e o PCO lançaram as candidaturas de José Maria de Almeida e Rui Costa Pimenta, respectivamente. Finalmente, o PCB apresentou a candidatura de Ivan Pinheiro.
Essas siglas partidárias (com exceção do PCB) se originaram de facções ultra-esquerdistas anteriormente abrigadas no PT. E alguns desses candidatos até já participaram de outras eleições presidenciais. É a terceira vez em que o mesmo candidato do PSTU concorre ao Planalto. Idem no caso do candidato do PCO, exceto pelo fato de que seu nome foi impugnado pelo TSE na eleição de 2006.
Com a exceção (talvez provisória) do Psol, essas siglas não possuem representantes no Congresso Nacional ou sequer nas Assembléias Legislativas estaduais. Nas mais recentes pesquisas de intenção de voto feitas pelo Ibope e pelo Datafolha, todos os quatro candidatos da esquerda radical registraram "traço" nas perguntas espontânea e estimulada - mesmo após aparecerem diariamente há algumas semanas na propaganda eleitoral gratuita. Parece improvável que seus votos somados superem 1% ou 2% dos votos válidos nas eleições de outubro.
A virtual irrelevância eleitoral não é a única característica em comum desses candidatos e de seus partidos. Todos eles se apresentam com propostas e discursos (declarados ou escritos) muito semelhantes. No "front" econômico, rejeitam a economia de mercado (o "capitalismo") e pregam a estatização da propriedade privada (o "socialismo). No "front" político, rejeitam a democracia representativa e defendem a adoção de regimes ditatoriais. Não surpreende que sejam mesmo ignorados pela quase totalidade dos eleitores.
A literatura de ciência política costuma designar essas organizações como "partidos anti-sistema". Eles disputam eleições apenas para divulgar as suas posições doutrinárias entre o maior número possível de pessoas. Seus candidatos jamais chegam a ter a ilusão de possuir chances razoáveis de serem eleitos para qualquer cargo que seja. A oposição que fazem não é ao governo de plantão, mas aos regimes político e econômico em si mesmos. Por essa mesma razão, sequer se coligam eleitoralmente aos partidos convencionais.
Na verdade, o maior obstáculo ao crescimento desses partidos é o fato de que o espaço eleitoral da esquerda já está ocupado pelo PT e pelos seus aliados históricos (PSB, PC do B e PDT). No governo Lula, esses partidos lograram fazer um movimento em direção ao centro sem perder o controle sobre os segmentos tradicionalmente de esquerda do eleitorado. Assim, só resta aos partidos nanicos da esquerda radical a alternativa de permanecerem isolados no espectro político-partidário.
Curiosamente, no entanto, esses quatro partidos sequer parecem ter cogitado a possibilidade de uma aliança eleitoral. Em muitos outros países, o destino dos partidos anti-sistema de extrema-esquerda é abrigarem-se sob um único guarda-chuva eleitoral (uma "Frente Ampla", ou algo parecido). Desse modo, aumentam a sua viabilidade política. Mas não parece que os nanicos da esquerda brasileira já tenham atingido esse nível de pragmatismo político.
* Consultor político, com doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Foi professor da Universidade de São Paulo (USP), da PUC-SP e da Fesp-SP. Publicou o livro Partidos políticos do Brasil: 1945-2000 (Jorge Zahar Editor, 2000) e co-organizou a coletânea Partidos e coligações eleitorais no Brasil (Unesp/Fundação Konrad Adenauer, 2005).
Outros textos do colunista Rogério Schmitt*
Rogério Schmitt*
Uma das características mais intrigantes desta eleição presidencial é a abundância de candidatos ao Palácio do Planalto lançados pelos micro-partidos de extrema esquerda. Esses presidenciáveis estão condenados a ter um desempenho pífio nas urnas. E os seus partidos também continuarão sendo nanicos.
Nunca houve nada parecido nas campanhas presidenciais dos últimos vinte anos. Em 2010, todos os partidos nanicos da esquerda radical lançaram candidatos próprios à presidência. O Psol apresentou a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio. O PSTU e o PCO lançaram as candidaturas de José Maria de Almeida e Rui Costa Pimenta, respectivamente. Finalmente, o PCB apresentou a candidatura de Ivan Pinheiro.
Essas siglas partidárias (com exceção do PCB) se originaram de facções ultra-esquerdistas anteriormente abrigadas no PT. E alguns desses candidatos até já participaram de outras eleições presidenciais. É a terceira vez em que o mesmo candidato do PSTU concorre ao Planalto. Idem no caso do candidato do PCO, exceto pelo fato de que seu nome foi impugnado pelo TSE na eleição de 2006.
Com a exceção (talvez provisória) do Psol, essas siglas não possuem representantes no Congresso Nacional ou sequer nas Assembléias Legislativas estaduais. Nas mais recentes pesquisas de intenção de voto feitas pelo Ibope e pelo Datafolha, todos os quatro candidatos da esquerda radical registraram "traço" nas perguntas espontânea e estimulada - mesmo após aparecerem diariamente há algumas semanas na propaganda eleitoral gratuita. Parece improvável que seus votos somados superem 1% ou 2% dos votos válidos nas eleições de outubro.
A virtual irrelevância eleitoral não é a única característica em comum desses candidatos e de seus partidos. Todos eles se apresentam com propostas e discursos (declarados ou escritos) muito semelhantes. No "front" econômico, rejeitam a economia de mercado (o "capitalismo") e pregam a estatização da propriedade privada (o "socialismo). No "front" político, rejeitam a democracia representativa e defendem a adoção de regimes ditatoriais. Não surpreende que sejam mesmo ignorados pela quase totalidade dos eleitores.
A literatura de ciência política costuma designar essas organizações como "partidos anti-sistema". Eles disputam eleições apenas para divulgar as suas posições doutrinárias entre o maior número possível de pessoas. Seus candidatos jamais chegam a ter a ilusão de possuir chances razoáveis de serem eleitos para qualquer cargo que seja. A oposição que fazem não é ao governo de plantão, mas aos regimes político e econômico em si mesmos. Por essa mesma razão, sequer se coligam eleitoralmente aos partidos convencionais.
Na verdade, o maior obstáculo ao crescimento desses partidos é o fato de que o espaço eleitoral da esquerda já está ocupado pelo PT e pelos seus aliados históricos (PSB, PC do B e PDT). No governo Lula, esses partidos lograram fazer um movimento em direção ao centro sem perder o controle sobre os segmentos tradicionalmente de esquerda do eleitorado. Assim, só resta aos partidos nanicos da esquerda radical a alternativa de permanecerem isolados no espectro político-partidário.
Curiosamente, no entanto, esses quatro partidos sequer parecem ter cogitado a possibilidade de uma aliança eleitoral. Em muitos outros países, o destino dos partidos anti-sistema de extrema-esquerda é abrigarem-se sob um único guarda-chuva eleitoral (uma "Frente Ampla", ou algo parecido). Desse modo, aumentam a sua viabilidade política. Mas não parece que os nanicos da esquerda brasileira já tenham atingido esse nível de pragmatismo político.
* Consultor político, com doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Foi professor da Universidade de São Paulo (USP), da PUC-SP e da Fesp-SP. Publicou o livro Partidos políticos do Brasil: 1945-2000 (Jorge Zahar Editor, 2000) e co-organizou a coletânea Partidos e coligações eleitorais no Brasil (Unesp/Fundação Konrad Adenauer, 2005).
Outros textos do colunista Rogério Schmitt*
RORIZ IGNORA TSE E DIZ QUE CONTINUA CANDIDATO
Mário Coelho
Barrado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com base na Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135/10), Joaquim Roriz (PSC) usou o início da sua propaganda eleitoral gratuita na televisão para afirmar que ainda é candidato ao governo do Distrito Federal. Em depoimento gravado antes do julgamento pela corte eleitoral, ele disse que a Constituição Federal garante seu nome na disputa eleitoral. Parte do programa também foi usada para atacar seu principal adversário na disputa pelo Palácio do Buriti, o petista Agnelo Queiroz.
"A decisão do TSE não impede minha candidatura, Sou candidato, a Constituição me garante. Vou recorrer ao Supremo", afirmou. Na intervenção, ele disse que disputou três eleições e venceu todas. O ex-governador já comandou o DF por quatro oportunidades. Além de ganhar três pleitos, Roriz foi indicado pelo então presidente da República José Sarney para comandar a capital do país entre 1988 e 1990.
"Meus adversários tentaram impedir minha candidatura e minha posse. Com minha experiência e minha dedicação, vou fazer o melhor governo com a ajuda de vocês", disparou.
A declaração de Roriz faz referência às eleições de 2002, quando o pleito foi contestado pelo PT por conta de denúncias de irregularidades na votação. O partido foi até o TSE para impedir que o ex-governador tomasse posse. No entanto, os ministros da corte, na época, entenderam que não havia motivo para barrar o terceiro mandato eleito de Roriz.
No programa, além da declaração do candidato, também não faltaram petardos contra Agnelo Queiroz. Foi mostrada um trecho de uma matéria da revista Época que fala da ligação do petista com a Operação Shaolin. Segundo a publicação, o relatório final da operação compromete o candidato do PT. O ataque a Agnelo foi mostrado também em parte do horário destinado aos candidatos a deputado distrital da coligação que apoia Roriz.
Por seis votos a um, os ministros do TSE decidiram ontem que Roriz não pode se candidatar ao governo por ter renunciado ao mandato de senador, em 2007, para escapar de um processo por quebra de decoro parlamentar. Enquanto não houver decisão final - trânsito em julgado -, ele pode continuar sua campanha normalmente. Porém, ele pode indicar outra pessoa para a sua vaga se quiser abandonar a disputa. Cogita-se, nesse caso, a indicação da ex-governadora Maria de Lourdes Abadia (PSDB). No entanto, seu nome e sua foto permanecem na urna eletrônica.
Fonte: O Congresso em Foco
Barrado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com base na Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135/10), Joaquim Roriz (PSC) usou o início da sua propaganda eleitoral gratuita na televisão para afirmar que ainda é candidato ao governo do Distrito Federal. Em depoimento gravado antes do julgamento pela corte eleitoral, ele disse que a Constituição Federal garante seu nome na disputa eleitoral. Parte do programa também foi usada para atacar seu principal adversário na disputa pelo Palácio do Buriti, o petista Agnelo Queiroz.
"A decisão do TSE não impede minha candidatura, Sou candidato, a Constituição me garante. Vou recorrer ao Supremo", afirmou. Na intervenção, ele disse que disputou três eleições e venceu todas. O ex-governador já comandou o DF por quatro oportunidades. Além de ganhar três pleitos, Roriz foi indicado pelo então presidente da República José Sarney para comandar a capital do país entre 1988 e 1990.
"Meus adversários tentaram impedir minha candidatura e minha posse. Com minha experiência e minha dedicação, vou fazer o melhor governo com a ajuda de vocês", disparou.
A declaração de Roriz faz referência às eleições de 2002, quando o pleito foi contestado pelo PT por conta de denúncias de irregularidades na votação. O partido foi até o TSE para impedir que o ex-governador tomasse posse. No entanto, os ministros da corte, na época, entenderam que não havia motivo para barrar o terceiro mandato eleito de Roriz.
No programa, além da declaração do candidato, também não faltaram petardos contra Agnelo Queiroz. Foi mostrada um trecho de uma matéria da revista Época que fala da ligação do petista com a Operação Shaolin. Segundo a publicação, o relatório final da operação compromete o candidato do PT. O ataque a Agnelo foi mostrado também em parte do horário destinado aos candidatos a deputado distrital da coligação que apoia Roriz.
Por seis votos a um, os ministros do TSE decidiram ontem que Roriz não pode se candidatar ao governo por ter renunciado ao mandato de senador, em 2007, para escapar de um processo por quebra de decoro parlamentar. Enquanto não houver decisão final - trânsito em julgado -, ele pode continuar sua campanha normalmente. Porém, ele pode indicar outra pessoa para a sua vaga se quiser abandonar a disputa. Cogita-se, nesse caso, a indicação da ex-governadora Maria de Lourdes Abadia (PSDB). No entanto, seu nome e sua foto permanecem na urna eletrônica.
Fonte: O Congresso em Foco
ARTIGO
por Tribuna do Norte
Pátria e Plebiscito
Dom Demétrio Valentini - Pte da Cáritas Brasileira
Adital - Está marcado para a Semana da Pátria um plebiscito, sobre o limite da propriedade rural no Brasil. A própria iniciativa levanta uma porção de perguntas. Isto é bom sinal. Pois a intenção é suscitar um questionamento, em torno de um assunto de indiscutível importância, como é a questão da terra no Brasil. O ponto de partida para um país elaborar sua identidade é a sua terra. Sem terra não há país. Disciplinar o uso da terra é uma tarefa patriótica de primeira grandeza! A questão da terra tem tudo a ver com a soberania nacional, e com destinação primordial da terra, que é a de produzir alimentos para a humanidade.
O plebiscito é proposto para a Semana da Pátria. Bem intencional, mesmo! Para dizer que a questão da terra é de interesse nacional. Nisto o plebiscito, como outros já acontecidos sobre a Dívida Externa e a Alca, segue a intuição do Grito dos Excluídos, colocado em 1996 pela CNBB em seu plano de pastoral, para ser realizado em cada ano na Semana da Pátria. Dá para dizer que o plebiscito deste ano serve de gesto concreto do Grito dos Excluídos, cuja realização ainda continua acontecendo pelo Brasil afora.
Outra questão, que volta com freqüência, se refere ao envolvimento da CNBB neste plebiscito. São diversas perguntas, pedindo respostas adequadas.
- Foi a CNBB que decidiu fazer este plebiscito?
- Não, não foi a CNBB quem decidiu! Esta questão não foi colocada em votação na sua recente assembleia, diferente, por exemplo, da decisão tomada em 1996 sobre o Grito dos Excluídos. Mas uma decisão como esta, de caráter típico de exercício da cidadania, para ser válida não necessariamente precisa ser de iniciativa da CNBB.
- Então este plebiscito não tem nada a ver com a Igreja?
- Tem, sim! Pois diversas vezes e de diversas maneiras a CNBB já manifestou sua preocupação com a questão da terra, inclusive dedicando a este assunto diversas sessões de estudo em sua última assembleia. Além disto, a realização do plebiscito sobre o limite da propriedade rural consta como uma das recomendações da última Campanha da Fraternidade. Sabemos muito bem como as campanhas da fraternidade são ótima oportunidade para a Igreja participar da sociedade, propondo assuntos que merecem a atenção de todos. Como este, por exemplo, da questão da propriedade da terra, com seus múltiplos desdobramentos.
- Quem está promovendo, então, este plebiscito?
- Foi inicialmente lançado pelo Fórum Nacional da Reforma Agrária, que agrupa mais de quarenta entidades, entre as quais estão alguns organismos e pastorais da Igreja, como por exemplo a Cáritas Brasileira e a Pastoral da Terra.
- Então, é para participar deste plebiscito, ou não?
- Quando se trata de livre exercício da cidadania, dá até para perguntar a pessoas de nossa confiança o que devemos fazer. Mas cabe a cada cidadão decidir o que faz ou deixa de fazer. O plebiscito é livre, participa quem quiser, e cada um vota como quiser.
- Quais as grandes questões levantadas por este plebiscito?
- São maiores do que as perguntas que o plebiscito faz. Quase todos os países do mundo estabelecem limite para a propriedade rural . Nos Estados Unidos, por exemplo, era de 76 hectares e passou para 36. Na Índia é de 03 hectares. A proposta levantada por este plebiscito seria de estabelecer como limite 35 “módulos fiscais”, que variam de Estado para Estado, desde 05 a 110 hectares. Uma indicação clara de que a legislação sobre o limite de propriedade precisa levar em conta a grande diversidade regional, existente no Brasil em questão de tipo de terras e de seu uso racional.
As perguntas do plebiscito só levantam timidamente a questão. Ninguém precisa se assustar, achando que este plebiscito vai colocar em risco a situação fundiária no país!
Pátria e Plebiscito
Dom Demétrio Valentini - Pte da Cáritas Brasileira
Adital - Está marcado para a Semana da Pátria um plebiscito, sobre o limite da propriedade rural no Brasil. A própria iniciativa levanta uma porção de perguntas. Isto é bom sinal. Pois a intenção é suscitar um questionamento, em torno de um assunto de indiscutível importância, como é a questão da terra no Brasil. O ponto de partida para um país elaborar sua identidade é a sua terra. Sem terra não há país. Disciplinar o uso da terra é uma tarefa patriótica de primeira grandeza! A questão da terra tem tudo a ver com a soberania nacional, e com destinação primordial da terra, que é a de produzir alimentos para a humanidade.
O plebiscito é proposto para a Semana da Pátria. Bem intencional, mesmo! Para dizer que a questão da terra é de interesse nacional. Nisto o plebiscito, como outros já acontecidos sobre a Dívida Externa e a Alca, segue a intuição do Grito dos Excluídos, colocado em 1996 pela CNBB em seu plano de pastoral, para ser realizado em cada ano na Semana da Pátria. Dá para dizer que o plebiscito deste ano serve de gesto concreto do Grito dos Excluídos, cuja realização ainda continua acontecendo pelo Brasil afora.
Outra questão, que volta com freqüência, se refere ao envolvimento da CNBB neste plebiscito. São diversas perguntas, pedindo respostas adequadas.
- Foi a CNBB que decidiu fazer este plebiscito?
- Não, não foi a CNBB quem decidiu! Esta questão não foi colocada em votação na sua recente assembleia, diferente, por exemplo, da decisão tomada em 1996 sobre o Grito dos Excluídos. Mas uma decisão como esta, de caráter típico de exercício da cidadania, para ser válida não necessariamente precisa ser de iniciativa da CNBB.
- Então este plebiscito não tem nada a ver com a Igreja?
- Tem, sim! Pois diversas vezes e de diversas maneiras a CNBB já manifestou sua preocupação com a questão da terra, inclusive dedicando a este assunto diversas sessões de estudo em sua última assembleia. Além disto, a realização do plebiscito sobre o limite da propriedade rural consta como uma das recomendações da última Campanha da Fraternidade. Sabemos muito bem como as campanhas da fraternidade são ótima oportunidade para a Igreja participar da sociedade, propondo assuntos que merecem a atenção de todos. Como este, por exemplo, da questão da propriedade da terra, com seus múltiplos desdobramentos.
- Quem está promovendo, então, este plebiscito?
- Foi inicialmente lançado pelo Fórum Nacional da Reforma Agrária, que agrupa mais de quarenta entidades, entre as quais estão alguns organismos e pastorais da Igreja, como por exemplo a Cáritas Brasileira e a Pastoral da Terra.
- Então, é para participar deste plebiscito, ou não?
- Quando se trata de livre exercício da cidadania, dá até para perguntar a pessoas de nossa confiança o que devemos fazer. Mas cabe a cada cidadão decidir o que faz ou deixa de fazer. O plebiscito é livre, participa quem quiser, e cada um vota como quiser.
- Quais as grandes questões levantadas por este plebiscito?
- São maiores do que as perguntas que o plebiscito faz. Quase todos os países do mundo estabelecem limite para a propriedade rural . Nos Estados Unidos, por exemplo, era de 76 hectares e passou para 36. Na Índia é de 03 hectares. A proposta levantada por este plebiscito seria de estabelecer como limite 35 “módulos fiscais”, que variam de Estado para Estado, desde 05 a 110 hectares. Uma indicação clara de que a legislação sobre o limite de propriedade precisa levar em conta a grande diversidade regional, existente no Brasil em questão de tipo de terras e de seu uso racional.
As perguntas do plebiscito só levantam timidamente a questão. Ninguém precisa se assustar, achando que este plebiscito vai colocar em risco a situação fundiária no país!
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