A fragilidade das instituições democráticas
Alertou o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, que a ordem jurídica não pode estar submetida ao clamor popular, nem aos anseios da sociedade ou, sequer, à opinião pública. Traduzindo: os tribunais não devem pautar-se pela voz rouca das ruas, mas pela letra fria das leis.
Essa discussão é milenar e comporta duas faces, como as moedas. Foi o clamor dos judeus de Jerusalém exigindo a morte de Cristo o fator principal da decisão de Pôncio Pilatos de mandar crucificá-lo, como lembrou ontem Carlos Heitor Cony. Mas, em contrapartida, só para ficarmos num exemplo recente, foi o grito de revolta da população o responsável pelo fim da ditadura militar entre nós.
Não haverá um brasileiro capaz de sustentar que a nova lei da ficha-limpa deva entrar em vigor apenas em 2012. O país inteiro quer sua aplicação imediata, já para as eleições de outubro. Mas a ordem jurídica, que o Tribunal Superior Eleitoral interpretará nas próximas horas, estabelece que qualquer modificação das leis eleitorais só entrará em vigor se sancionada um ano antes das eleições. É claro que entre esses dois valores situam-se os magistrados, com argumentos jurídicos conflitantes.
Salta aos olhos, porém, a importância de a Justiça Eleitoral negar registro a candidatos às próximas eleições condenados por tribunais, abrindo-se outra decisão a tomar: só os que forem condenados a partir da vigência da nova lei ou todos os que, no passado, receberam as respectivas sentenças condenatórias?
Uma conseqüência torna-se inevitável: o clamor popular, os anseios da sociedade e a opinião pública certamente partilharão de sentimentos contrários ao Judiciário, caso a decisão do TSE venha a ser protelatória ou complacente. Um fator a mais para revelar a fragilidade das instituições democráticas atuais.
Meio campo embolado?
Anuncia-se a disposição de Roberto Requião registrar-se como candidato à presidência da República junto à convenção nacional do PMDB que se reunirá sábado, dia 12. A ser verdadeira a informação, vai dar bolo, porque o ex-governador do Paraná dispõe do apoio da maioria dos diretórios regionais do partido. Mesmo tendo interrompido sua pré-campanha, dois meses atrás, dispondo-se a concorrer ao Senado, Requião conta com as bases peemedebistas, ainda que o presidente Michel Temer, candidato a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff, domine a cúpula nacional.
Há quem pense no adiamento da reunião, mas só imaginar essa hipótese fará tremer as estruturas do acordo PT-PMDB, além de constituir-se numa agressão a Dilma Rousseff e ao presidente Lula.
Luto na diplomacia
Morreu sábado, em Fortaleza, o já aposentado embaixador Dario Castro Alves, uma das mais fulgurantes inteligências de nossa diplomacia. Por quatro anos representou o Brasil em Portugal, além de ter sido o principal auxiliar de diversos chanceleres, como Santiago Dantas e Mario Gibson Barbosa. Tão integrado na cultura luso-brasileira, ele escreveu precioso livro sobre Eça de Queirós, onde, fruto de minuciosa pesquisa, chegou a reunir a culinária portuguesa expressa na obra do monumental escritor. O falecimento de Dario Castro Alves foi lamentado em Lisboa, tanto quanto em Brasília.
São João de chuteiras
Com a abertura da Copa do Mundo, mais o início das festas de São João em todo o Nordeste, não haverá quem segure a maioria de deputados e senadores em Brasília. O presidente Lula também aproveita para viajar a diversos estados, até sexta-feira, coisa que leva a maioria de seus ministros a imitá-lo. Em se tratando de um ano eleitoral, justifica-se a diáspora político-partidária-administrativa. Das fogueiras, de um lado, e da expectativa de gols do selecionado brasileiro, de outro, sempre poderão surgir alguns votos.
Helio Fernandes | Carlos Chagas
terça-feira, 8 de junho de 2010
PSDB cogita ‘desconstruir’ Dilma em programa de TV
A cúpula do PSDB amadurece a idéia de usar um pedaço do programa que levará ao ar em 27 de junho para “desconstruir” o currículo de Dilma Rousseff.
O tema vem sendo debatido em reuniões de dirigentes tucanos com o jornalista Luiz Gonzalez, responsável pelo marketing da campanha de José Serra.
Nesses encontros, concluiu-se que, além de exibir Serra, a oposição precisa expor o que chama de “fragilidades” da rival Dilma.
Na prática, o PSDB cogita servir ao telespectador uma espécie de “antídoto” contra o programa que o PT veiculou no mês passado.
Nessa peça petista, Dilma foi apresentada como grande gerente, responsável pelos principais programas do governo Lula.
Falou-se também do passado militante da candidata. Para edulcorar a biografia de sua pupila, Lula chegou a compará-la a Nelson Mandela.
Atribui-se à superexposição que o PT proporcionou a Dilma a subida dela nas pesquisas. Está, hoje, empatada com Serra em 37%, segundo Datafolha e Ibope.
Assim como o PT, o PSDB terá dez minutos de rádio e TV. Rede nacional, entre o telejornal e a novela.
Uma parte do programa tucano será usada para propagandear Serra. Se prevalecer a tese em debate, o outro naco servirá para tratar de Dilma.
A ideia é a de promover, desde logo, um cotejo de biografias. De um lado, um Serra experiente –ex-governador, ex-prefeito, ex-ministro, ex-parlamentar.
Do outro, uma Dilma com pouca experiência administrativa. Nesse trecho, seria martelada a tese de que, sob Lula, os programas confiados a Dilma não andaram.
Entre eles o PAC, em cuja execução o tucanto enxerga problemas de gerência que levaram o programa a caminhar a a passos mais lentos do que alardeia o governo.
Discute-se também a proposta de demonstrar que a propaganda petista turbinou a trajetória de Dilma, falseando-a.
Por exemplo: Na peça do PT, Lula disse que foi Dilma quem idealizou o programa Luz para Todos. Uma inverdade, sustenta o PSDB.
Disse Lula na TV: "Uma das coisas que me impressionaram foi o dia em que Dilma entrou na minha sala me propondo a ideia do Luz pra Todos".
Na versão do tucanato, dá-se com esse programa algo semelhante ao que ocorreu com o Bolsa Família. Trata-se de uma variante de iniciativa adotada pelo PSDB.
Pretende-se demonstrar que o Luz para Todos já existia sob FHC. Chamava-se Luz no Campo. Previa a universalização do fornecimento de energia até 2015.
Na gestão Lula, o programa mudou de nome, as metas foram antecipadas e o orçamento foi vitaminado.
No final do mês passado foi ao ar o programa do DEM. Serra ocupou 75% do tempo. Mas não se falou de Dilma.
Nesta quinta (10), será exibida a peça do PPS, outra legenda associada a Serra. Mas, nesse caso, a produção não foi confiada a Gonzalez.
“A gente resolveu fazer o programa do nosso partido”, disse ao blog Roberto Freire, presidente do PPS.
“O Serra vai aparecer como participante da reunião que realizamos em 21 e 22 de maio. Tem a imagem do Serra recebendo um documento nosso...”
“...Vamos dizer que estamos entregando contribuições ao programa do nosso candidato, que consideramos o mais preparado”.
Freire acrescenta: “Vamos fazer a crítica ao governo, como sempre fizemos. Mas não vamos incorrer no mesmo crime de Lula, entregando o programa a Serra...”
“...Estamos criticando o presidente pela desfaçatez com que desrespeita a lei eleitoral, desmoralizando as instituições. E queremos continuar fazendo a crítica”.
No mais, haverá o programa do PTB, no dia 24. Roberto Jefferson, presidente da legenda, já deu uma ideia de como será a propaganda.
Entregou a Gonzalez, o marqueteiro de Serra, cerca de oito dos dez minutos a que o PTB tem direito. O candidato irá à convenção do partido, em 19 de junho.
Segundo Jefferson, essas imagens serãoaproveitadas no programa. Resta saber se o PTB também cederá parte de sua inserção para a "desconstrução" de Dilma.
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Escrito por Josias de Souza
A cúpula do PSDB amadurece a idéia de usar um pedaço do programa que levará ao ar em 27 de junho para “desconstruir” o currículo de Dilma Rousseff.
O tema vem sendo debatido em reuniões de dirigentes tucanos com o jornalista Luiz Gonzalez, responsável pelo marketing da campanha de José Serra.
Nesses encontros, concluiu-se que, além de exibir Serra, a oposição precisa expor o que chama de “fragilidades” da rival Dilma.
Na prática, o PSDB cogita servir ao telespectador uma espécie de “antídoto” contra o programa que o PT veiculou no mês passado.
Nessa peça petista, Dilma foi apresentada como grande gerente, responsável pelos principais programas do governo Lula.
Falou-se também do passado militante da candidata. Para edulcorar a biografia de sua pupila, Lula chegou a compará-la a Nelson Mandela.
Atribui-se à superexposição que o PT proporcionou a Dilma a subida dela nas pesquisas. Está, hoje, empatada com Serra em 37%, segundo Datafolha e Ibope.
Assim como o PT, o PSDB terá dez minutos de rádio e TV. Rede nacional, entre o telejornal e a novela.
Uma parte do programa tucano será usada para propagandear Serra. Se prevalecer a tese em debate, o outro naco servirá para tratar de Dilma.
A ideia é a de promover, desde logo, um cotejo de biografias. De um lado, um Serra experiente –ex-governador, ex-prefeito, ex-ministro, ex-parlamentar.
Do outro, uma Dilma com pouca experiência administrativa. Nesse trecho, seria martelada a tese de que, sob Lula, os programas confiados a Dilma não andaram.
Entre eles o PAC, em cuja execução o tucanto enxerga problemas de gerência que levaram o programa a caminhar a a passos mais lentos do que alardeia o governo.
Discute-se também a proposta de demonstrar que a propaganda petista turbinou a trajetória de Dilma, falseando-a.
Por exemplo: Na peça do PT, Lula disse que foi Dilma quem idealizou o programa Luz para Todos. Uma inverdade, sustenta o PSDB.
Disse Lula na TV: "Uma das coisas que me impressionaram foi o dia em que Dilma entrou na minha sala me propondo a ideia do Luz pra Todos".
Na versão do tucanato, dá-se com esse programa algo semelhante ao que ocorreu com o Bolsa Família. Trata-se de uma variante de iniciativa adotada pelo PSDB.
Pretende-se demonstrar que o Luz para Todos já existia sob FHC. Chamava-se Luz no Campo. Previa a universalização do fornecimento de energia até 2015.
Na gestão Lula, o programa mudou de nome, as metas foram antecipadas e o orçamento foi vitaminado.
No final do mês passado foi ao ar o programa do DEM. Serra ocupou 75% do tempo. Mas não se falou de Dilma.
Nesta quinta (10), será exibida a peça do PPS, outra legenda associada a Serra. Mas, nesse caso, a produção não foi confiada a Gonzalez.
“A gente resolveu fazer o programa do nosso partido”, disse ao blog Roberto Freire, presidente do PPS.
“O Serra vai aparecer como participante da reunião que realizamos em 21 e 22 de maio. Tem a imagem do Serra recebendo um documento nosso...”
“...Vamos dizer que estamos entregando contribuições ao programa do nosso candidato, que consideramos o mais preparado”.
Freire acrescenta: “Vamos fazer a crítica ao governo, como sempre fizemos. Mas não vamos incorrer no mesmo crime de Lula, entregando o programa a Serra...”
“...Estamos criticando o presidente pela desfaçatez com que desrespeita a lei eleitoral, desmoralizando as instituições. E queremos continuar fazendo a crítica”.
No mais, haverá o programa do PTB, no dia 24. Roberto Jefferson, presidente da legenda, já deu uma ideia de como será a propaganda.
Entregou a Gonzalez, o marqueteiro de Serra, cerca de oito dos dez minutos a que o PTB tem direito. O candidato irá à convenção do partido, em 19 de junho.
Segundo Jefferson, essas imagens serãoaproveitadas no programa. Resta saber se o PTB também cederá parte de sua inserção para a "desconstrução" de Dilma.
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Escrito por Josias de Souza
DEPOIMENTO DE UM PERSEGUIDO
O terrível exercício do silêncio e da solidão, na lembrança de 43 anos depois, na imprevisível Fernando de Noronha
Sentado diante da máquina de escrever, cercado de solidão por todos os lados, perdido nesta ilha que sempre foi tida como maldita, incomunicável pela vontade dos homens e pela decisão irrecorrível da natureza, sou um homem nu diante de mim mesmo, assaltado por todas as dúvidas e por todas as indecisões.
Isolado num barraco de madeira, cercado de ratazanas, lagartixas e mosquitos, começo este livro, para transmitir as reminiscências que sobraram da aplicação ilusória de uma violência.
Sinto-me confuso e atordoado, como alguém isolado no meio da multidão sem rosto, onde cada um procura salvar não apenas o que sobrou de si mesmo, mas o que sobrou dos seus sonhos e das suas esperanças.
E a grande dúvida que não será respondida por ninguém durante muito tempo: terá sobrado alguma coisa de alguém?
Nesta ilha maldita e selvagem, talvez o maior tormento e o maior pesadelo seja mesmo o tempo que sobra para meditação. Como dizer alguma coisa, se ninguém tem certeza de nada? Como ser atual, se ninguém sabe definir sequer o que é atualidade, quando apenas os jovens de menos de 20 anos parecem ser os únicos sensatos num mundo que naufraga irremediavelmente numa tempestade de desânimo, de falsidade e principalmente de hipocrisia. Os jovens pelo menos são autênticos, dizem o que sentem, submetem-se ao seu próprio julgamento, fazem o que querem, sem se preocuparem de forma alguma com a opinião dos outros ou até com a sua própria imagem refletida no espelho em frente. E alguns, nem querem saber se existe espelho ou até mesmo se existe alguma coisa na frente deles.
Como será o mundo do futuro? O que é mais importante para os militares de todos os países: fabricarem guerras ou fabricarem frustrações? Se fabricarem guerras, estarão transformando o mundo num vasto cemitério, e não se libertarão do remorso. Mas se não fizerem guerras, estarão fabricando frustrações, pois como a guerra é a sua profissão, correm dois riscos que não podem nem sequer discutir ou pôr em dúvida: ficarão desempregados ou estarão ganhando sem trabalhar.
E então, toca a fabricar discórdias, no Vietnã, no Camboja, no Laos, em Israel, na China, na Bolívia, no Brasil, em todos os lugares. E por trás deles, (transformados apenas em inocentes úteis de uma utilidade provada de uma ingenuidade que chega a ser inacreditável) o famoso complexo industrial-militar, os poderosos senhores dos armamentos.
Mas estes também são profissionais, também querem se realizar, fazer prosperar o seu negócio. Desde que a humanidade aceita que existam fábricas de armas, é natural que os que vivem de fabricá-las queiram cada vez mais guerras, pois senão não poderão aumentar a sua produção. E no capitalismo e no anticapitalismo, no fascismo e no comunismo, quaisquer que sejam os regimes, o Deus do mundo não é a produção? Então, é natural que Krupp, Thissen e outros senhores das formidáveis máquinas de matar queiram cada vez mais assassinos, embora assassinos legalizados, e como James Bond, “com licença para matar”. Mesmo que sejam chamados de patriotas e sejam condecorados cada vez que conseguem matar mais gente do que o seu rival ou até mesmo do que o seu amigo mais próximo.
Nesse mundo enlouquecido e perplexo, o importante não é saber quantos morrem. O importante é saber quem matou mais, para providenciar imediatamente a condecoração consagradora.
Falem em controle da natalidade com um fabricante de berços, e ele se insurgirá com argumentos que até agora, provavelmente, não ocorreram até mesmo aos americanos na Amazônia. É natural. Ele está defendendo o seu negócio, e quanto mais gente nascer mais berços ele fabricará.
Por outro lado, digam a um fabricante de caixões que o avanço da ciência está tornando a vida cada vez mais longa, que cada vez se morre menos, e ele irá para casa preocupado. Quanto mais honesto e responsável chefe de família ele for, mais preocupado ficará com o fato dos outros estarem morrendo cada vez raramente. É que fazer caixões é o seu ganha-pão, e se ninguém morrer, como é que ele sustentará os filhos, manterá a aparência de lar que conseguiu montar não se sabe à custa de que sacrifícios? Se for dotado de humor negro, poderá até exclamar nas conversas dominicais, diante de vizinhos não tão afortunados: “Tudo o que eu tenho é porque matei-me de tanto trabalhar”.
Não creio que a salvação do homens venha da meditação, como não acredito que o mundo do futuro seja plasmado ou fabricado em nenhum laboratório. Os homens, individualmente, não escolhem o seu destino, e as nações, coletivamente, impedem que as outras tenham sequer o direito de pensar num destino digno. Quero dizer, as mais fortes esmagam até o pensamento das mais fracas. E aonde levará tudo isso? Pois apesar de saber que a salvação não virá do pensamento, o último e talvez o único refúgio do homem ainda seja o pensamento.
De contradição em contradição, aonde chegaremos? À tortura da busca de uma realidade que não existe e não existirá jamais, pois não está em nós mesmos nem em lugar algum? A uma comodidade fictícia, que muitos confundem com felicidade, mas que na verdade é apenas uma ilusão, pois os ricos são tão infelizes quanto os pobres, com a agravante de que as suas infelicidades são manchetes de jornais no mundo todo?
Quem é mais importante: o soldado que empunha a arma, ou o general que comanda? Sem o general poderá haver o soldado? E sem o soldado, poderá haver o general? Tudo é dúvida, tudo é indecisão, a única realidade, e essa, indestrutível, é a solidão que me cerca.
Hoje é o dia 2 de agosto de 1967, são 19 horas, a escuridão tomou conta da ilha. Minha mulher foi embora (pois sendo indispensável nos dois lados, comigo e com as crianças, era lógico que ficasse com elas) e estou sozinho nesta terrível ilha de Fernando de Noronha, que o medo dos homens escolheu para refúgio dos que têm coragem. Mas como tenho apenas a coragem cívica e não física, com não estou interessado num duelo de bravura com ninguém, confesso com a maior serenidade: estou com medo. Mas não com medo dos homens e das coisas, com medo do mundo ou dos seus pesadelos, com medo de ameaças ou de intimidações. Estou com medo do tempo que não passa nunca, desse silêncio opressivo que devora até o diálogo que eu gostaria de manter comigo mesmo, medo das horas que fluem docemente, quando eu gostaria que elas corressem tumultuadamente.
Cada vez que consulto o relógio, pensando que já se passaram duas horas, constato assombrado que transcorreram apenas 10 minutos. Amaldiçôo os relojoeiros suíços, pela vigésima vez dou corda ao relógio, uma corda que não aguenta mais ser movimentada, e finalmente encontro a solução: escondo o relógio no fundo da mala, embaixo de todas as roupas, pois assim tenho a ilusão de estar derrotando o tempo, e mergulho na leitura de Hemingway.
Mas a primeira frase lida (“o pensamento é o inimigo do sono”) faz retornar toda a confusão, volta a tumultuar o meu pequeno mundo de zinco e caixotes de madeira. Como escolher entre a insônia e o pensamento, se estou igualmente, meio-a-meio, dominado pelos dois e não me resta nem o direito à opção?
Esse duelo entre o silêncio e a vontade de dialogar,entre a insônia e o pensamento, entre a sensação de inutilidade aqui e a convicção de que poderia ser útil em outro lugar, durou 30 dias, do primeiro ao último dia que passei nesta ilha maldita, nesta ilha amaldiçoada pela maldade dos homens, e que serve para agravar ainda mais a maldade dos que detêm o Poder apenas para satisfação, uso e gozo de suas convicções pequeninhas. Mas mesmo sendo uma ilha maldita e amaldiçoada, não queria abandoná-la a não ser para trocá-la pela liberdade, para que, permanecendo lá, toda a responsabilidade política recaísse sobre os que provocaram meu degredo. Mais isso já é matéria de outro capítulo.
Por enquanto, o que importa é contar aos leitores as minhas reflexões desses 30 dias, reflexões que começam e terminam no silêncio, desabam inesperadamente no vazio de longas noites sem esperança e sem consolo.
***
PS – Este é um capítulo do livro que escrevi em Fernando de Noronha, e que a ditadura não deixou ser publicado.
PS2 – Quando Carlos Lacerda foi me visitar em Fernando de Noronha, (com meu bravo amigo e advogado George Tavares) viu que eu estava escrevendo um livro, disso logo: “Helio, esse livro é meu” (da Nova Fronteira, sua editora).
PS3 – Quando cheguei ao Rio, já se sabia que eu trazia um livro pronto. Fui procurado pelo editor e amigo de sempre, Alfredo Machado, da Editora Record, que reivindicou o fato de sermos amigos, muito antes de conhecermos Lacerda. Outros editores também se interessaram, queriam até fazer contratos.
PS4 – A ditadura então se movimentou, PROIBIU que EDITORAS, DISTRIBUIDORAS e LIVRARIAS tomassem conhecimento do lvro, do qual gostavam muito.
PS5 – Curiosamente o primeiro a desistir foi Carlos Lacerca, compreendo, não podia se arrriscar, era 1967, o regime ainda não “endurecera” suficientemente, isso ocorreria em 1968.
PS6 – Todos desistiram, o livro ficou guardado, rodamos 500 ou 600 exemplares numa gráfica da Baixada Fluminense. As máquinas da Tribuna não imprimiam livros.
PS7 – Agora, 43 anos decorridos, há quem queira publicar o livro, acho que é tarde demais. Embora tenha alguma coisa interessante. Que seria sensacional, naquela véspera de 1968.
PS8 – Hoje, sem qualquer explicação, resolvi rever e trazer a público o primeiro capítulo do livro, tão enclausurado, seqüestrado e violado quanto o autor.
Helio Fernandes - TRIBUNA DA IMPRENSA
Sentado diante da máquina de escrever, cercado de solidão por todos os lados, perdido nesta ilha que sempre foi tida como maldita, incomunicável pela vontade dos homens e pela decisão irrecorrível da natureza, sou um homem nu diante de mim mesmo, assaltado por todas as dúvidas e por todas as indecisões.
Isolado num barraco de madeira, cercado de ratazanas, lagartixas e mosquitos, começo este livro, para transmitir as reminiscências que sobraram da aplicação ilusória de uma violência.
Sinto-me confuso e atordoado, como alguém isolado no meio da multidão sem rosto, onde cada um procura salvar não apenas o que sobrou de si mesmo, mas o que sobrou dos seus sonhos e das suas esperanças.
E a grande dúvida que não será respondida por ninguém durante muito tempo: terá sobrado alguma coisa de alguém?
Nesta ilha maldita e selvagem, talvez o maior tormento e o maior pesadelo seja mesmo o tempo que sobra para meditação. Como dizer alguma coisa, se ninguém tem certeza de nada? Como ser atual, se ninguém sabe definir sequer o que é atualidade, quando apenas os jovens de menos de 20 anos parecem ser os únicos sensatos num mundo que naufraga irremediavelmente numa tempestade de desânimo, de falsidade e principalmente de hipocrisia. Os jovens pelo menos são autênticos, dizem o que sentem, submetem-se ao seu próprio julgamento, fazem o que querem, sem se preocuparem de forma alguma com a opinião dos outros ou até com a sua própria imagem refletida no espelho em frente. E alguns, nem querem saber se existe espelho ou até mesmo se existe alguma coisa na frente deles.
Como será o mundo do futuro? O que é mais importante para os militares de todos os países: fabricarem guerras ou fabricarem frustrações? Se fabricarem guerras, estarão transformando o mundo num vasto cemitério, e não se libertarão do remorso. Mas se não fizerem guerras, estarão fabricando frustrações, pois como a guerra é a sua profissão, correm dois riscos que não podem nem sequer discutir ou pôr em dúvida: ficarão desempregados ou estarão ganhando sem trabalhar.
E então, toca a fabricar discórdias, no Vietnã, no Camboja, no Laos, em Israel, na China, na Bolívia, no Brasil, em todos os lugares. E por trás deles, (transformados apenas em inocentes úteis de uma utilidade provada de uma ingenuidade que chega a ser inacreditável) o famoso complexo industrial-militar, os poderosos senhores dos armamentos.
Mas estes também são profissionais, também querem se realizar, fazer prosperar o seu negócio. Desde que a humanidade aceita que existam fábricas de armas, é natural que os que vivem de fabricá-las queiram cada vez mais guerras, pois senão não poderão aumentar a sua produção. E no capitalismo e no anticapitalismo, no fascismo e no comunismo, quaisquer que sejam os regimes, o Deus do mundo não é a produção? Então, é natural que Krupp, Thissen e outros senhores das formidáveis máquinas de matar queiram cada vez mais assassinos, embora assassinos legalizados, e como James Bond, “com licença para matar”. Mesmo que sejam chamados de patriotas e sejam condecorados cada vez que conseguem matar mais gente do que o seu rival ou até mesmo do que o seu amigo mais próximo.
Nesse mundo enlouquecido e perplexo, o importante não é saber quantos morrem. O importante é saber quem matou mais, para providenciar imediatamente a condecoração consagradora.
Falem em controle da natalidade com um fabricante de berços, e ele se insurgirá com argumentos que até agora, provavelmente, não ocorreram até mesmo aos americanos na Amazônia. É natural. Ele está defendendo o seu negócio, e quanto mais gente nascer mais berços ele fabricará.
Por outro lado, digam a um fabricante de caixões que o avanço da ciência está tornando a vida cada vez mais longa, que cada vez se morre menos, e ele irá para casa preocupado. Quanto mais honesto e responsável chefe de família ele for, mais preocupado ficará com o fato dos outros estarem morrendo cada vez raramente. É que fazer caixões é o seu ganha-pão, e se ninguém morrer, como é que ele sustentará os filhos, manterá a aparência de lar que conseguiu montar não se sabe à custa de que sacrifícios? Se for dotado de humor negro, poderá até exclamar nas conversas dominicais, diante de vizinhos não tão afortunados: “Tudo o que eu tenho é porque matei-me de tanto trabalhar”.
Não creio que a salvação do homens venha da meditação, como não acredito que o mundo do futuro seja plasmado ou fabricado em nenhum laboratório. Os homens, individualmente, não escolhem o seu destino, e as nações, coletivamente, impedem que as outras tenham sequer o direito de pensar num destino digno. Quero dizer, as mais fortes esmagam até o pensamento das mais fracas. E aonde levará tudo isso? Pois apesar de saber que a salvação não virá do pensamento, o último e talvez o único refúgio do homem ainda seja o pensamento.
De contradição em contradição, aonde chegaremos? À tortura da busca de uma realidade que não existe e não existirá jamais, pois não está em nós mesmos nem em lugar algum? A uma comodidade fictícia, que muitos confundem com felicidade, mas que na verdade é apenas uma ilusão, pois os ricos são tão infelizes quanto os pobres, com a agravante de que as suas infelicidades são manchetes de jornais no mundo todo?
Quem é mais importante: o soldado que empunha a arma, ou o general que comanda? Sem o general poderá haver o soldado? E sem o soldado, poderá haver o general? Tudo é dúvida, tudo é indecisão, a única realidade, e essa, indestrutível, é a solidão que me cerca.
Hoje é o dia 2 de agosto de 1967, são 19 horas, a escuridão tomou conta da ilha. Minha mulher foi embora (pois sendo indispensável nos dois lados, comigo e com as crianças, era lógico que ficasse com elas) e estou sozinho nesta terrível ilha de Fernando de Noronha, que o medo dos homens escolheu para refúgio dos que têm coragem. Mas como tenho apenas a coragem cívica e não física, com não estou interessado num duelo de bravura com ninguém, confesso com a maior serenidade: estou com medo. Mas não com medo dos homens e das coisas, com medo do mundo ou dos seus pesadelos, com medo de ameaças ou de intimidações. Estou com medo do tempo que não passa nunca, desse silêncio opressivo que devora até o diálogo que eu gostaria de manter comigo mesmo, medo das horas que fluem docemente, quando eu gostaria que elas corressem tumultuadamente.
Cada vez que consulto o relógio, pensando que já se passaram duas horas, constato assombrado que transcorreram apenas 10 minutos. Amaldiçôo os relojoeiros suíços, pela vigésima vez dou corda ao relógio, uma corda que não aguenta mais ser movimentada, e finalmente encontro a solução: escondo o relógio no fundo da mala, embaixo de todas as roupas, pois assim tenho a ilusão de estar derrotando o tempo, e mergulho na leitura de Hemingway.
Mas a primeira frase lida (“o pensamento é o inimigo do sono”) faz retornar toda a confusão, volta a tumultuar o meu pequeno mundo de zinco e caixotes de madeira. Como escolher entre a insônia e o pensamento, se estou igualmente, meio-a-meio, dominado pelos dois e não me resta nem o direito à opção?
Esse duelo entre o silêncio e a vontade de dialogar,entre a insônia e o pensamento, entre a sensação de inutilidade aqui e a convicção de que poderia ser útil em outro lugar, durou 30 dias, do primeiro ao último dia que passei nesta ilha maldita, nesta ilha amaldiçoada pela maldade dos homens, e que serve para agravar ainda mais a maldade dos que detêm o Poder apenas para satisfação, uso e gozo de suas convicções pequeninhas. Mas mesmo sendo uma ilha maldita e amaldiçoada, não queria abandoná-la a não ser para trocá-la pela liberdade, para que, permanecendo lá, toda a responsabilidade política recaísse sobre os que provocaram meu degredo. Mais isso já é matéria de outro capítulo.
Por enquanto, o que importa é contar aos leitores as minhas reflexões desses 30 dias, reflexões que começam e terminam no silêncio, desabam inesperadamente no vazio de longas noites sem esperança e sem consolo.
***
PS – Este é um capítulo do livro que escrevi em Fernando de Noronha, e que a ditadura não deixou ser publicado.
PS2 – Quando Carlos Lacerda foi me visitar em Fernando de Noronha, (com meu bravo amigo e advogado George Tavares) viu que eu estava escrevendo um livro, disso logo: “Helio, esse livro é meu” (da Nova Fronteira, sua editora).
PS3 – Quando cheguei ao Rio, já se sabia que eu trazia um livro pronto. Fui procurado pelo editor e amigo de sempre, Alfredo Machado, da Editora Record, que reivindicou o fato de sermos amigos, muito antes de conhecermos Lacerda. Outros editores também se interessaram, queriam até fazer contratos.
PS4 – A ditadura então se movimentou, PROIBIU que EDITORAS, DISTRIBUIDORAS e LIVRARIAS tomassem conhecimento do lvro, do qual gostavam muito.
PS5 – Curiosamente o primeiro a desistir foi Carlos Lacerca, compreendo, não podia se arrriscar, era 1967, o regime ainda não “endurecera” suficientemente, isso ocorreria em 1968.
PS6 – Todos desistiram, o livro ficou guardado, rodamos 500 ou 600 exemplares numa gráfica da Baixada Fluminense. As máquinas da Tribuna não imprimiam livros.
PS7 – Agora, 43 anos decorridos, há quem queira publicar o livro, acho que é tarde demais. Embora tenha alguma coisa interessante. Que seria sensacional, naquela véspera de 1968.
PS8 – Hoje, sem qualquer explicação, resolvi rever e trazer a público o primeiro capítulo do livro, tão enclausurado, seqüestrado e violado quanto o autor.
Helio Fernandes - TRIBUNA DA IMPRENSA
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Comentário
Aloprados – O retorno
Que diferença faz um dossiê a mais ou a menos? Nada é mais comum, aqui e em toda parte, do que candidato estocar munição para disparar contra adversários. É o jogo sujo da política.
Às vezes nem dispara. Em certas ocasiões, representantes dos candidatos se reúnem em local seguro e neutro e firmam um acordo: tiro só da cintura para cima.
Dossiês, quase sempre, são confeccionados para uso clandestino ou divulgação pela mídia. Servem para detonar escândalos. Quem se envolve com a tarefa trabalha no limite da irresponsabilidade.
Uma coisa é juntar informações verdadeiras. O eleitor tem direito a conhecê-las. Outra é misturá-las com informações falsas captadas por meios criminosos - grampos, subornos e chantagem.
No segundo debate de televisão do segundo turno da eleição de 1989, Fernando Collor encarou Lula sobraçando pastas recheadas de documentos.
Amigos de Lula temeram que ele pudesse exibir fotos do candidato do PT na companhia de uma amiga psicóloga. Quem supostamente presenteou Collor com as fotos foi o então deputado Bernardo Cabral (PMDB-AM). As fotos não saíram das pastas.
O ensaio de candidatura de Roseana Sarney a presidente no início de 2002 foi fulminado por uma operação de agentes da Polícia Federal e procuradores da República.
Achou-se R$ 1,3 milhão no cofre da empresa do marido dela. Roseana enrolou-se para explicar o que não passava de Caixa 2. Sarney, o pai, atribuiu a culpa pelo sucedido a José Serra, também candidato a presidente.
Às vésperas do segundo turno da eleição daquele ano, o comando da campanha de Lula foi informado de que o programa de televisão de Serra exploraria imagens de uma antiga noitada alegre em Manaus do candidato do PT. Baixou o desespero.
José Dirceu, presidente do PT, falou a respeito com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Prometeu retaliar desovando o que armazenara contra o governo e Serra.
Amigo de Lula e de Serra com igual intensidade, o deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF) voou às pressas para São Paulo a pedido de Dirceu. Conversou com Serra tarde da noite.
Ouviu que não havia as tais imagens e que ele seria incapaz de apelar para recurso tão degradante. Na dúvida, Dirceu passou o resto da campanha de 2002 sem tirar o dedo do gatilho.
Dali a quatro anos sobraria para Serra. Aqueles chamados por Lula de “aloprados”, funcionários do seu comitê de campanha à reeleição, forjaram um falso dossiê contra Serra, candidato ao governo de São Paulo, e Geraldo Alckmin, candidato do PSDB a presidente.
O dossiê explodiu no colo de Lula. E acabou com suas chances de se eleger no primeiro turno.
Agradeça a Deus, Dilma, o fato de a nova geração de aloprados do PT ter sido logo flagrada em ação.
Imagina se estivessem no ar os programas de propaganda eleitoral dos partidos no rádio e na televisão. E se só então pipocasse a história do dossiê contra Serra e do almoço do assessor de campanha com o delegado especialista em escutas telefônicas clandestinas.
Empenha-se o PT em vender algumas versões do episódio que não resistem a um sopro de criança.
Dossiê? “Não havia dossiê”. Ora, há dossiê, sim, e ele segue sendo encorpado. Como o PSDB tem o dele contra Dilma, o PT e o governo.
O PT informa que o dossiê não passa de um livro do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, a ser postado em breve na internet. Menos!
Há 15 dias, Amaury não tinha um livro. Tinha documentos e a idéia de publicar um livro.
Por que participou do almoço onde seu amigo Luiz Lanzetta, assessor de comunicação da campanha de Dilma, disse ao delegado-araponga Onésimo de Souza que precisava saber tudo que Serra fizesse ou falasse?
Antes de dar por findo, digo que Dilma só agiu contra os aloprados depois de ter sido procurada pela imprensa.
Em telefonema para a direção da revista VEJA, jurou inocência, pediu um voto de confiança e garantiu punir com rigor quem ferisse a lei.
O deputado Antonio Palocci (PT-SP) entrou no circuito e reforçou o discurso de Dilma.
A revista acreditou e não fez o carnaval que Dilma, Palocci e Lula tanto temiam.
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Enviado por Ricardo Noblat - 7.6.2010| 7h38m
Tuiteiro novo no ar - o governador de Minas
Está previsto para logo mais às 8h a estréia no twitter do atual governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia (@prof_anastasia)
http://twitter.com/prof_anastasia
Ele vai tuitar sobre os índices alcançados por Minas no programa Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU.
Anastasia era vice de Aécio Neves. Agora é candidato à reeleição.
Assim como Dilma depende de Lula para se eleger, Anastasia depende de Aécio.
Assim como Dilma, ele nunca foi votado antes.
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Aloprados – O retorno
Que diferença faz um dossiê a mais ou a menos? Nada é mais comum, aqui e em toda parte, do que candidato estocar munição para disparar contra adversários. É o jogo sujo da política.
Às vezes nem dispara. Em certas ocasiões, representantes dos candidatos se reúnem em local seguro e neutro e firmam um acordo: tiro só da cintura para cima.
Dossiês, quase sempre, são confeccionados para uso clandestino ou divulgação pela mídia. Servem para detonar escândalos. Quem se envolve com a tarefa trabalha no limite da irresponsabilidade.
Uma coisa é juntar informações verdadeiras. O eleitor tem direito a conhecê-las. Outra é misturá-las com informações falsas captadas por meios criminosos - grampos, subornos e chantagem.
No segundo debate de televisão do segundo turno da eleição de 1989, Fernando Collor encarou Lula sobraçando pastas recheadas de documentos.
Amigos de Lula temeram que ele pudesse exibir fotos do candidato do PT na companhia de uma amiga psicóloga. Quem supostamente presenteou Collor com as fotos foi o então deputado Bernardo Cabral (PMDB-AM). As fotos não saíram das pastas.
O ensaio de candidatura de Roseana Sarney a presidente no início de 2002 foi fulminado por uma operação de agentes da Polícia Federal e procuradores da República.
Achou-se R$ 1,3 milhão no cofre da empresa do marido dela. Roseana enrolou-se para explicar o que não passava de Caixa 2. Sarney, o pai, atribuiu a culpa pelo sucedido a José Serra, também candidato a presidente.
Às vésperas do segundo turno da eleição daquele ano, o comando da campanha de Lula foi informado de que o programa de televisão de Serra exploraria imagens de uma antiga noitada alegre em Manaus do candidato do PT. Baixou o desespero.
José Dirceu, presidente do PT, falou a respeito com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Prometeu retaliar desovando o que armazenara contra o governo e Serra.
Amigo de Lula e de Serra com igual intensidade, o deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF) voou às pressas para São Paulo a pedido de Dirceu. Conversou com Serra tarde da noite.
Ouviu que não havia as tais imagens e que ele seria incapaz de apelar para recurso tão degradante. Na dúvida, Dirceu passou o resto da campanha de 2002 sem tirar o dedo do gatilho.
Dali a quatro anos sobraria para Serra. Aqueles chamados por Lula de “aloprados”, funcionários do seu comitê de campanha à reeleição, forjaram um falso dossiê contra Serra, candidato ao governo de São Paulo, e Geraldo Alckmin, candidato do PSDB a presidente.
O dossiê explodiu no colo de Lula. E acabou com suas chances de se eleger no primeiro turno.
Agradeça a Deus, Dilma, o fato de a nova geração de aloprados do PT ter sido logo flagrada em ação.
Imagina se estivessem no ar os programas de propaganda eleitoral dos partidos no rádio e na televisão. E se só então pipocasse a história do dossiê contra Serra e do almoço do assessor de campanha com o delegado especialista em escutas telefônicas clandestinas.
Empenha-se o PT em vender algumas versões do episódio que não resistem a um sopro de criança.
Dossiê? “Não havia dossiê”. Ora, há dossiê, sim, e ele segue sendo encorpado. Como o PSDB tem o dele contra Dilma, o PT e o governo.
O PT informa que o dossiê não passa de um livro do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, a ser postado em breve na internet. Menos!
Há 15 dias, Amaury não tinha um livro. Tinha documentos e a idéia de publicar um livro.
Por que participou do almoço onde seu amigo Luiz Lanzetta, assessor de comunicação da campanha de Dilma, disse ao delegado-araponga Onésimo de Souza que precisava saber tudo que Serra fizesse ou falasse?
Antes de dar por findo, digo que Dilma só agiu contra os aloprados depois de ter sido procurada pela imprensa.
Em telefonema para a direção da revista VEJA, jurou inocência, pediu um voto de confiança e garantiu punir com rigor quem ferisse a lei.
O deputado Antonio Palocci (PT-SP) entrou no circuito e reforçou o discurso de Dilma.
A revista acreditou e não fez o carnaval que Dilma, Palocci e Lula tanto temiam.
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Enviado por Ricardo Noblat - 7.6.2010| 7h38m
Tuiteiro novo no ar - o governador de Minas
Está previsto para logo mais às 8h a estréia no twitter do atual governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia (@prof_anastasia)
http://twitter.com/prof_anastasia
Ele vai tuitar sobre os índices alcançados por Minas no programa Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU.
Anastasia era vice de Aécio Neves. Agora é candidato à reeleição.
Assim como Dilma depende de Lula para se eleger, Anastasia depende de Aécio.
Assim como Dilma, ele nunca foi votado antes.
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