Carlos Chagas
Os 25 anos da morte de Tancredo Neves continuam fazendo aflorar na memória uma série de episódios fundamentais para a compreensão da Nova República. Uns claros, outros ainda cercados de mistério. Vai o relato de um deles.
Naqueles idos, entre março e abril de 1985, com o presidente eleito internado num hospital de São Paulo e já submetido a seis operações, diminuía a expectativa de que pudesse recuperar-se. Mesmo assim, as esperanças continuavam.
Em Brasília, José Sarney governava interinamente, com o ministério antes escolhido por Tancredo.
Francisco Dornelles era ministro da Fazenda, nossa amizade vinha de longe. Quase todos os dias trocávamos informações sobre a saúde do presidente. Certa manhã recebo dele uma intimação: “Venha imediatamente ao meu gabinete, aqui na Esplanada.”
Fui. O gabinete estava vazio mas logo surge o ministro, de uma pequena porta ao lado. Pegando-me pelo braço, entramos numa pequena sala onde, sentados num sofá, estavam dois senhores de aspecto modesto, paletó sem gravata e camisa abotoada no colarinho. Meias brancas com sapatos pretos.
Dornelles apresentou-me como amigo, dizendo tratar-se de dois monges que há dias tentavam comunicar-se com ele. Recebeu-os naquela manhã, quando disseram pertencer a um mosteiro no interior de Goiás. Tinham vindo à capital federal informar o ministro e sobrinho do presidente que Tancredo estava sob os efeitos de um forte trabalho de magia negra. Como eram cultores da magia branca, punham-se à disposição para desfazer o mal.
Na presença dos monges, o ministro falou não haver acreditado numa palavra daquela história e já ia mandá-los embora quando um deles atalhou, pedindo para demonstrar o que diziam. Disse que no apartamento particular de Tancredo, numa das superquadras do Plano Piloto, estavam as provas do tal “trabalho”. Como se estivesse no ministério outro sobrinho do presidente, Gastão Neves, primo de Dornelles, foi pedido que acompanhasse os monges.
Nessa altura do relato que o ministro me fazia, ele aproximou-se de uma pequena mesa redonda, coberta por um lençol, que abriu e acentuou: “Veja o que eles acharam dentro do travesseiro do Tancredo”.
Um dos objetos era um boneco rústico, desses que a gente vê em filmes de vudu, todo espetado por alfinetes. O outro era um terço, tão a gosto das beatas, mas formando o perfil de uma cabeça humana.
Não entendi nada. Dornelles contou que na presença do Gastão os monges haviam ido pouco antes ao quarto de dormir de Tancredo e logo, com um canivete, abriram o travesseiro e retiraram as duas peças, que levaram ao ministério.
Fazer o quê? Foi quando um dos monges explicou estar ali a evidência do falavam. Havia apenas uma forma de desfazer o malefício: levar os dois objetos e colocá-los debaixo de uma queda d’água natural, o mais próximo possível de Brasília, e serem levados, os dois, ao quarto de Tancredo, no hospital paulista, para orações. Junto com o primo Gastão, encontraram pequena cachoeira de água límpida, nos arredores do entorno da cidade.
Enquanto isso, quando ainda estávamos na salinha, Dornelles tomou a decisão. Disse que continuava não acreditando em nada, mas, por via das duvidas, tomaria providências. Telefonou para o delegado Romeu Tuma, encarregado da segurança de Tancredo, no hospital de São Paulo, dizendo-lhe estar enviando dois amigos no jatinho particular do ministério. Encareceu a Tuma que os recebesse no aeroporto e fizesse o possível para atender-lhes os pedidos.
É claro que era proibido entrar no quarto de Tancredo, transformado em UTI. Os monges contentaram-se em ficar o mais próximo possível do ilustre doente. Tuma encontrou a solução colocando-os um andar acima, num quarto exatamente sobre o quarto de Tancredo. Lá, passaram a noite rezando.
Todos os dias a equipe médica que atendia o presidente divulgava um boletim, lido pelo professor-doutor chefe das operações hospitalares. Naquela tarde, um dia depois da passagem dos monges por Brasília, o país inteiro teve suas esperanças renovadas. Depois de anteriores e seguidas informações pessimistas, o médico anunciou que Tancredo havia tido sensível melhora, na pressão sanguínea e outros exames.
Eu estava em meu local de trabalho quando o telefone toca. Era Dornelles, que emocionado comenta: “Você viu? Não acredito, mas como desconhecer o que aconteceu?”
Semanas depois Tancredo morreu. Os monges sumiram, internando-se no mosteiro misterioso, tendo destruído o boneco e o terço. Concluí, apenas, que entre o céu e a terra existem coisas que nossa vã inteligência não explica…
Helio Fernandes | Carlos Chagas/Tribuna da Imprensa
quinta-feira, 22 de abril de 2010
OPINIÃO
O Estado torce contra
TERESA COSTA D'AMARAL
Novela é novela, vida é vida. Fico pensando no bem que a novela "Viver a vida" tem feito para os direitos das pessoas com deficiência. Quando consegue colocar na conversa do motorista de táxi ou da mesa de um botequim o tema de como é viver com deficiência, alguma coisa está mudando. É um excelente começo. Mas não posso deixar de falar também dos dramas da vida real, que continuam me envolvendo e indignando mais do que a novela das oito.
Edney Silvestre, outro dia, me perguntou: "Como estamos? Melhorou? O que falta para uma vida melhor para as pessoas com deficiência?"
Respondi: "Falta respeito. A sociedade começa a prestar atenção, a estar do nosso lado e, quem sabe, um dia vá nos entender. Mas o Estado brasileiro torce contra. Podendo, coloca pedras no nosso caminho."
O Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD) ganhou liminar em ação civil pública para que os alvarás no Rio só sejam concedidos a estabelecimentos com acessibilidade para deficientes. Ficamos felizes, era o grande começo para termos uma cidade mais humana, mais democrática, que respeitasse o direito de ir e vir de todos.
A Prefeitura parou, prestou atenção e estragou tudo. Determinou que, sim, os alvarás só podem ser concedidos a locais de uso coletivo que tenham acessibilidade. Mas não pôde deixar de seguir a regra da pedra no caminho. Determinou que os estabelecimentos devem provar que são acessíveis com uma declaração do responsável. Que falta de respeito! Já imaginou se a moda pega e os papéis se invertem? Já pensaram na alegria de ficarmos em dia com o IPTU com uma declaração pessoal? E se provarmos também com um testemunho pessoal que pagamos nosso imposto ou que nosso nome não está no SPC? Ou se, em vez do bafômetro para aferir que não bebemos na blitz da Lei Seca, nos for permitido fazer um documento de próprio punho?
Falta respeito. As retinas podem ficar fatigadas e sempre haverá uma pedra no meio do caminho. O IBDD, entre o fim da tarde de uma sexta-feira e a primeira hora da segunda-feira seguinte, teve seu contrato com a estatal Furnas, para prestação de serviços com mão de obra de 220 pessoas com deficiência, dado de mão beijada para a Avape (Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência), uma ONG de São Paulo sem atuação conhecida no Rio.
Com os recursos da administração exemplar desse projeto, o IBDD mantinha 65% do seu atendimento gratuito a pessoas com deficiência. Foi preciso lutar para não perder o rumo. Afinal o projeto tinha sido idealizado, criado e implementado pelo IBDD. Foi preciso sobreviver. Nossa cidade ficou socialmente mais pobre.
Texto publicado no Globo de hoje. Teresa Consta D'amaral é superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
Fonte: Rádio Moreno
TERESA COSTA D'AMARAL
Novela é novela, vida é vida. Fico pensando no bem que a novela "Viver a vida" tem feito para os direitos das pessoas com deficiência. Quando consegue colocar na conversa do motorista de táxi ou da mesa de um botequim o tema de como é viver com deficiência, alguma coisa está mudando. É um excelente começo. Mas não posso deixar de falar também dos dramas da vida real, que continuam me envolvendo e indignando mais do que a novela das oito.
Edney Silvestre, outro dia, me perguntou: "Como estamos? Melhorou? O que falta para uma vida melhor para as pessoas com deficiência?"
Respondi: "Falta respeito. A sociedade começa a prestar atenção, a estar do nosso lado e, quem sabe, um dia vá nos entender. Mas o Estado brasileiro torce contra. Podendo, coloca pedras no nosso caminho."
O Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD) ganhou liminar em ação civil pública para que os alvarás no Rio só sejam concedidos a estabelecimentos com acessibilidade para deficientes. Ficamos felizes, era o grande começo para termos uma cidade mais humana, mais democrática, que respeitasse o direito de ir e vir de todos.
A Prefeitura parou, prestou atenção e estragou tudo. Determinou que, sim, os alvarás só podem ser concedidos a locais de uso coletivo que tenham acessibilidade. Mas não pôde deixar de seguir a regra da pedra no caminho. Determinou que os estabelecimentos devem provar que são acessíveis com uma declaração do responsável. Que falta de respeito! Já imaginou se a moda pega e os papéis se invertem? Já pensaram na alegria de ficarmos em dia com o IPTU com uma declaração pessoal? E se provarmos também com um testemunho pessoal que pagamos nosso imposto ou que nosso nome não está no SPC? Ou se, em vez do bafômetro para aferir que não bebemos na blitz da Lei Seca, nos for permitido fazer um documento de próprio punho?
Falta respeito. As retinas podem ficar fatigadas e sempre haverá uma pedra no meio do caminho. O IBDD, entre o fim da tarde de uma sexta-feira e a primeira hora da segunda-feira seguinte, teve seu contrato com a estatal Furnas, para prestação de serviços com mão de obra de 220 pessoas com deficiência, dado de mão beijada para a Avape (Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência), uma ONG de São Paulo sem atuação conhecida no Rio.
Com os recursos da administração exemplar desse projeto, o IBDD mantinha 65% do seu atendimento gratuito a pessoas com deficiência. Foi preciso lutar para não perder o rumo. Afinal o projeto tinha sido idealizado, criado e implementado pelo IBDD. Foi preciso sobreviver. Nossa cidade ficou socialmente mais pobre.
Texto publicado no Globo de hoje. Teresa Consta D'amaral é superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
Fonte: Rádio Moreno
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Em ano eleitoral, MP deve perdoar dívidas de agricultores do Semiárido
Sucessão.
Acordo entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros, deve beneficiar cerca de 270 mil trabalhadores rurais de uma região que se estende por todo o Nordeste e por áreas de Minas Gerais e Espírito Santo
/ BRASÍLIA
A menos de seis meses da eleição, o governo prepara medida provisória que dará perdão a todas as dívidas de até R$ 10 mil dos agricultores do Semiárido com o Banco do Brasil e com o Banco do Nordeste. Somadas, as benesses chegam a R$ 1 bilhão, conforme os cálculos do Ministério da Fazenda.
Serão beneficiados cerca de 270 mil agricultores, de uma região que se estende por todo o Nordeste e áreas de Minas Gerais e Espírito Santo. O acordo para o perdão das dívidas está sendo fechado entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL).
Na terça-feira, eles tiveram a reunião decisiva que levou a um texto prévio da MP a ser baixada nos próximos dias. Pela medida, as dívidas acima de R$ 15 mil deverão ter um abatimento, mas sem o perdão total como as que alcançam até R$ 10 mil.
"Muita gente não tem como pagar essa dívida, que era de R$ 2 mil, e agora chegou a R$ 10 mil ou mais", disse Renan. "Muitos pegaram o dinheiro para comprar uma ou duas vacas; hoje as vacas nem existem mais." Segundo ele, as dívidas aumentaram por causa dos juros praticados no Brasil, o que inviabilizou a possibilidade de pagamento delas.
A pressão para o perdão das dívidas dos agricultores do Semiárido começou logo que o Congresso retomou seus trabalhos, em fevereiro. Ao examinar a Medida Provisória 472, que concede incentivos para a infraestrutura petroleira do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e cria o regime especial para a aquisição de computadores para uso educacional, os senadores nordestinos iniciaram a pressão para que lá também fosse incluído o perdão das dívidas do Semiárido.
Antes, os senadores haviam se recusado a tratar da Medida Provisória 470, o que deu o tom da disposição deles. Como não foi votada a tempo, a MP caiu por decurso de prazo. Essa medida abria crédito de até R$ 6 bilhões à Caixa Econômica Federal, para atendimento à demanda por empréstimos e financiamentos. A mesma MP destinava R$ 1 bilhão para o Banco do Nordeste "fortalecer a atuação da instituição." Nela, senadores incluíram emenda que concedia o perdão. Mas o governo se manifestou contra.
Resistência. Iniciou-se nova luta dos senadores do Nordeste para conceder o perdão aos agricultores do Semiárido. O governo não teve mais como resistir. O Ministério da Fazenda negociou e agora estuda uma nova MP, com o perdão das dívidas. "Só vai haver acordo quando o ministro Mantega disser o que vai poder ser feito na área econômica", disse Renan, durante debate sobre a MP, em março, a respeito da dívida dos agricultores.
A repercussão da resistência dos senadores nordestinos às MPs do governo por causa da questão dos agricultores foi tamanha que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou reunião de emergência da equipe econômica, no final de março.
De acordo com informação do relator da MP 470, Gim Argelo (PTB-DF), aos senadores que o pressionavam, Lula fora informado do impasse. E resolveu agir, porque o Senado ameaçava paralisar as votações de MPs.
O coro dos descontentes com o governo por causa do Semiárido teve senadores da base aliada e da oposição. Mão Santa (PSC-PI), que é de oposição, exigiu do governo o atendimento das reivindicações feitas por seu partido relativas aos agricultores do Semiárido. "Sem o atendimento das exigências formuladas, não darei seu voto de apoio ao governo para a aprovação das medidas provisórias que estão sendo analisadas no Senado", disse. Ele queria que o perdão chegasse às dívidas de até R$ 15 mil.
O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, correu para o Congresso. Após conversar com Renan Calheiros, Garibaldi Alves (PMDB-RN) e Romero Jucá (PMDB-RR), propôs uma MP à parte para a questão do Semiárido.
Ao prestar esclarecimentos aos senadores, Jucá disse que havia conversado com Lula sobre as reivindicações. E que o presidente tinha determinado aos ministros Mantega e Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) que encontrassem uma solução para o problema.
No mesmo time dos que lutam para garantir o perdão aos agricultores do Semiárido, o líder do DEM, José Agripino Maia (RN), perguntou aos outros senadores: "R$ 1 bilhão é muito? Não é. Para um governo que gasta muito mais com várias outras coisas, não é muito dinheiro para ajudar o pequeno agricultor nordestino".
Nessa confusão, e com as promessas do governo de que os apelos dos senadores seriam atendidos, coube a Renan tocar negociações com área econômica do governo. Na reunião com Mantega, o texto foi fechado. Faltam só detalhes técnicos para que a MP seja enviada ao Congresso, do jeito que os senadores pediram.
Fonte: O Estadão
Sucessão.
Acordo entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros, deve beneficiar cerca de 270 mil trabalhadores rurais de uma região que se estende por todo o Nordeste e por áreas de Minas Gerais e Espírito Santo
/ BRASÍLIA
A menos de seis meses da eleição, o governo prepara medida provisória que dará perdão a todas as dívidas de até R$ 10 mil dos agricultores do Semiárido com o Banco do Brasil e com o Banco do Nordeste. Somadas, as benesses chegam a R$ 1 bilhão, conforme os cálculos do Ministério da Fazenda.
Serão beneficiados cerca de 270 mil agricultores, de uma região que se estende por todo o Nordeste e áreas de Minas Gerais e Espírito Santo. O acordo para o perdão das dívidas está sendo fechado entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL).
Na terça-feira, eles tiveram a reunião decisiva que levou a um texto prévio da MP a ser baixada nos próximos dias. Pela medida, as dívidas acima de R$ 15 mil deverão ter um abatimento, mas sem o perdão total como as que alcançam até R$ 10 mil.
"Muita gente não tem como pagar essa dívida, que era de R$ 2 mil, e agora chegou a R$ 10 mil ou mais", disse Renan. "Muitos pegaram o dinheiro para comprar uma ou duas vacas; hoje as vacas nem existem mais." Segundo ele, as dívidas aumentaram por causa dos juros praticados no Brasil, o que inviabilizou a possibilidade de pagamento delas.
A pressão para o perdão das dívidas dos agricultores do Semiárido começou logo que o Congresso retomou seus trabalhos, em fevereiro. Ao examinar a Medida Provisória 472, que concede incentivos para a infraestrutura petroleira do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e cria o regime especial para a aquisição de computadores para uso educacional, os senadores nordestinos iniciaram a pressão para que lá também fosse incluído o perdão das dívidas do Semiárido.
Antes, os senadores haviam se recusado a tratar da Medida Provisória 470, o que deu o tom da disposição deles. Como não foi votada a tempo, a MP caiu por decurso de prazo. Essa medida abria crédito de até R$ 6 bilhões à Caixa Econômica Federal, para atendimento à demanda por empréstimos e financiamentos. A mesma MP destinava R$ 1 bilhão para o Banco do Nordeste "fortalecer a atuação da instituição." Nela, senadores incluíram emenda que concedia o perdão. Mas o governo se manifestou contra.
Resistência. Iniciou-se nova luta dos senadores do Nordeste para conceder o perdão aos agricultores do Semiárido. O governo não teve mais como resistir. O Ministério da Fazenda negociou e agora estuda uma nova MP, com o perdão das dívidas. "Só vai haver acordo quando o ministro Mantega disser o que vai poder ser feito na área econômica", disse Renan, durante debate sobre a MP, em março, a respeito da dívida dos agricultores.
A repercussão da resistência dos senadores nordestinos às MPs do governo por causa da questão dos agricultores foi tamanha que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou reunião de emergência da equipe econômica, no final de março.
De acordo com informação do relator da MP 470, Gim Argelo (PTB-DF), aos senadores que o pressionavam, Lula fora informado do impasse. E resolveu agir, porque o Senado ameaçava paralisar as votações de MPs.
O coro dos descontentes com o governo por causa do Semiárido teve senadores da base aliada e da oposição. Mão Santa (PSC-PI), que é de oposição, exigiu do governo o atendimento das reivindicações feitas por seu partido relativas aos agricultores do Semiárido. "Sem o atendimento das exigências formuladas, não darei seu voto de apoio ao governo para a aprovação das medidas provisórias que estão sendo analisadas no Senado", disse. Ele queria que o perdão chegasse às dívidas de até R$ 15 mil.
O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, correu para o Congresso. Após conversar com Renan Calheiros, Garibaldi Alves (PMDB-RN) e Romero Jucá (PMDB-RR), propôs uma MP à parte para a questão do Semiárido.
Ao prestar esclarecimentos aos senadores, Jucá disse que havia conversado com Lula sobre as reivindicações. E que o presidente tinha determinado aos ministros Mantega e Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) que encontrassem uma solução para o problema.
No mesmo time dos que lutam para garantir o perdão aos agricultores do Semiárido, o líder do DEM, José Agripino Maia (RN), perguntou aos outros senadores: "R$ 1 bilhão é muito? Não é. Para um governo que gasta muito mais com várias outras coisas, não é muito dinheiro para ajudar o pequeno agricultor nordestino".
Nessa confusão, e com as promessas do governo de que os apelos dos senadores seriam atendidos, coube a Renan tocar negociações com área econômica do governo. Na reunião com Mantega, o texto foi fechado. Faltam só detalhes técnicos para que a MP seja enviada ao Congresso, do jeito que os senadores pediram.
Fonte: O Estadão
ASPECTOS DE UMA ELEIÇÃO POLARIZADA
artigo
Alguns aspectos sobressaem do quadro eleitoral que se aproxima. O primeiro deles é a polarização entre dois candidatos ponteiros; José Serra e Dilma Rousseff. Apesar da relevância política de Ciro Gomes e de Marina Silva, a tendência predominante é a polarização entre os dois ponteiros.
Alguns fatores favorecem tal situação. Serra se beneficia do recall de sua imagem como político e do peso da máquina política e administrativa de São Paulo. Dilma se aproveita tanto do prestígio de seu padrinho político, o presidente Lula, quanto do poder da máquina federal. Em um país de baixa cultura política e elevada dependência do estado, o peso das máquinas administrativas pode fazer a diferença na disputa.
Daí ambos estarem à frente nas pesquisas e, de acordo com a última pesquisa do Vox Populi, próximos de um empate técnico. Vale dizer, ainda, que tanto Serra quanto Dilma deverão ter as estruturas políticas mais caras e sofisticadas. Amparadas em coalizões estaduais mais fortes do que as disponíveis para Ciro e Marina.
Outro aspecto que se destaca é a fragilidade partidária. O quadro que se apresenta é muito confuso. Tanto na organização das coalizões, quanto no comprometimento com programas. Partidos divididos entre dois candidatos presidenciais é fato. Aliados federais divididos em palanques estaduais, também. Adversários no plano federal irmanados em torno de candidaturas estaduais não é raro.
A fragilidade partidária está expressa em duas vertentes. Plataformas eleitorais têm pouco significado no debate. Até o momento, não se estabeleceu um debate sobre o que os candidatos querem para o país. Dilma, pelo seu lado, representa o continuísmo bem sucedido de Lula. Daí ter menos preocupação em inovar. Porém, Serra ainda não mostrou o que tem como vetores de transformação para justificar que deixem de lado um modelo popular e apostem nele.
Além da inexistência de um debate sobre plataformas políticas, a disputa ideológica é muito limitada. De forma geral, Serra, Dilma e Ciro seguem a mesma cartilha ideológica: estado forte, regulação, políticas industriais, algum xenofobismo e programas assistenciais. Não há, a rigor, grande diferença ideológica entre os principais candidatos. E, o mais interessante, é que todos estamos confortáveis com isso. O Brasil acha natural que exista certa estreitamento do debate ideológico. Até mesmo por mostrar o centro da política longe de soluções exóticas.
O quinto aspecto é a prevalência da agenda econômica sobre os demais temas. Apesar da precariedade de muitos serviços públicos ofertados à sociedade, o debate ainda vai estar centrado no ambiente econômico. Como o quadro é favorável, a tendência é a de que a conjuntura alavanque a candidatura governista. Por outro lado, Serra e os demais têm que construir um discurso que seja forte o suficiente para mobilizar sem ser antagônico às realizações do governo no campo econômico e social.
Frente ao quadro de 2006, a grande diferença é a ausência – até agora – do escândalo político como tema central. Na eleição passada, o Mensalão poderia ter feito a diferença contra Lula. Atrapalhou, mas não impediu a sua vitória. As realizações econômicas e, sobretudo, o sentimento de que os pobres estavam representados por Lula no poder, prevaleceu.
Para 2010, temos um quadro divido em termos de escândalos. Ambos os candidatos padecem de efeitos colaterais de eventos indesejáveis. Como, por exemplo, o Mensalão de Brasília e o recente escândalo do Bancoop. Até agora, nenhum dos dois pode alardear "clean sheet" nesse tópico. O que, de certa forma zera o jogo nesse quesito.
Sem Lula na campanha como candidato, a sua força vai ser testada como cabo eleitoral. Nesse sentido, os aspectos e fragilidades apontadas favorecem ao seu papel na campanha. Não existe um debate programático. Não existe um debate ideológico. Lula está acima dos partidos que, como se sabe, são frágeis. Sua popularidade é altíssima. Temos um quadro onde o personalismo pode prevalecer acima das idéias. Sem um fato novo de impacto extraordinário, será uma eleição onde Lula será a peça central. Na prática, poderá ser uma disputa contra Lula e suas realizações do que um debate de idéias e programas.
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Alguns aspectos sobressaem do quadro eleitoral que se aproxima. O primeiro deles é a polarização entre dois candidatos ponteiros; José Serra e Dilma Rousseff. Apesar da relevância política de Ciro Gomes e de Marina Silva, a tendência predominante é a polarização entre os dois ponteiros.
Alguns fatores favorecem tal situação. Serra se beneficia do recall de sua imagem como político e do peso da máquina política e administrativa de São Paulo. Dilma se aproveita tanto do prestígio de seu padrinho político, o presidente Lula, quanto do poder da máquina federal. Em um país de baixa cultura política e elevada dependência do estado, o peso das máquinas administrativas pode fazer a diferença na disputa.
Daí ambos estarem à frente nas pesquisas e, de acordo com a última pesquisa do Vox Populi, próximos de um empate técnico. Vale dizer, ainda, que tanto Serra quanto Dilma deverão ter as estruturas políticas mais caras e sofisticadas. Amparadas em coalizões estaduais mais fortes do que as disponíveis para Ciro e Marina.
Outro aspecto que se destaca é a fragilidade partidária. O quadro que se apresenta é muito confuso. Tanto na organização das coalizões, quanto no comprometimento com programas. Partidos divididos entre dois candidatos presidenciais é fato. Aliados federais divididos em palanques estaduais, também. Adversários no plano federal irmanados em torno de candidaturas estaduais não é raro.
A fragilidade partidária está expressa em duas vertentes. Plataformas eleitorais têm pouco significado no debate. Até o momento, não se estabeleceu um debate sobre o que os candidatos querem para o país. Dilma, pelo seu lado, representa o continuísmo bem sucedido de Lula. Daí ter menos preocupação em inovar. Porém, Serra ainda não mostrou o que tem como vetores de transformação para justificar que deixem de lado um modelo popular e apostem nele.
Além da inexistência de um debate sobre plataformas políticas, a disputa ideológica é muito limitada. De forma geral, Serra, Dilma e Ciro seguem a mesma cartilha ideológica: estado forte, regulação, políticas industriais, algum xenofobismo e programas assistenciais. Não há, a rigor, grande diferença ideológica entre os principais candidatos. E, o mais interessante, é que todos estamos confortáveis com isso. O Brasil acha natural que exista certa estreitamento do debate ideológico. Até mesmo por mostrar o centro da política longe de soluções exóticas.
O quinto aspecto é a prevalência da agenda econômica sobre os demais temas. Apesar da precariedade de muitos serviços públicos ofertados à sociedade, o debate ainda vai estar centrado no ambiente econômico. Como o quadro é favorável, a tendência é a de que a conjuntura alavanque a candidatura governista. Por outro lado, Serra e os demais têm que construir um discurso que seja forte o suficiente para mobilizar sem ser antagônico às realizações do governo no campo econômico e social.
Frente ao quadro de 2006, a grande diferença é a ausência – até agora – do escândalo político como tema central. Na eleição passada, o Mensalão poderia ter feito a diferença contra Lula. Atrapalhou, mas não impediu a sua vitória. As realizações econômicas e, sobretudo, o sentimento de que os pobres estavam representados por Lula no poder, prevaleceu.
Para 2010, temos um quadro divido em termos de escândalos. Ambos os candidatos padecem de efeitos colaterais de eventos indesejáveis. Como, por exemplo, o Mensalão de Brasília e o recente escândalo do Bancoop. Até agora, nenhum dos dois pode alardear "clean sheet" nesse tópico. O que, de certa forma zera o jogo nesse quesito.
Sem Lula na campanha como candidato, a sua força vai ser testada como cabo eleitoral. Nesse sentido, os aspectos e fragilidades apontadas favorecem ao seu papel na campanha. Não existe um debate programático. Não existe um debate ideológico. Lula está acima dos partidos que, como se sabe, são frágeis. Sua popularidade é altíssima. Temos um quadro onde o personalismo pode prevalecer acima das idéias. Sem um fato novo de impacto extraordinário, será uma eleição onde Lula será a peça central. Na prática, poderá ser uma disputa contra Lula e suas realizações do que um debate de idéias e programas.
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Usando a mordaça em causa própria
Carlos Chagas
Mobiliza-se o Ministério Público para tentar impedir a aprovação, na Câmara, de projeto do deputado Paulo Maluf, já endossado pelos líderes dos partidos, visando amordaçar procuradores e promotores. Pelo texto, são previstas punições judiciais para integrantes do Ministério Público que agirem de má-fé ou propuserem ações temerárias.
Seria até uma discussão fascinante analisar medidas capazes de cercear certos excessos, que de resto acontecem em todas as profissões e categorias. Torna-se, porém, hilariante, essa proposta do deputado. E por razão muito simples: ele legisla em causa própria. Apresentou projeto capaz de impedir que vá parar na cadeia outra vez.
Além da subjetividade do enquadramento do Ministério Público, parecendo difícil definir o que é ação temerária ou má-fé em cada denúncia, salta aos olhos a existência de um conluio entre o polêmico ex-governador de São Paulo e o governo federal. Porque o palácio do Planalto também se mostra interessado em amordaçar procuradores e promotores. Não fosse assim e não estariam os líderes dos partidos, na Câmara, empenhados em aprovar a “lei da mordaça”. Cumprem ordens de cima, coisa que torna complicada a atividade legislativa.
A decisão cabe ao presidente Michel Temer, hoje enfiado num traje menor do que seu tamanho físico, jurídico e ético. Precisa continuar agradando o governo, sem o que corre o risco de ser garfado em sua pretensão de tornar-se candidato à vice-presidência na chapa de Dilma Rousseff. Mas deve, no reverso da medalha, apresentar-se à opinião pública como representante do Congresso, independente e voltado para o aprimoramento institucional. Ficaria mal exercendo o papel de algoz do Ministério Público. Mas se o preço for assistir a vice-presidência escapar-lhe das mãos…
Nem oMandrake
Faz décadas que o fabuloso Mandrake sumiu das revistas em quadrinhos, mas ninguém melhor para, num de seus célebres gestos hipnóticos, convencer-nos de que o Lula tem razão quando afirma poder um presidente da República ajudar candidatos ou candidatas sem usar a máquina pública. Não dá para imaginar S. Exa. pedindo votos para Dilma Rousseff como simples cidadão, morador de São Bernardo e metalúrgico aposentado. Só por mágica.
Outra questão a ser discutida neste período pré-eleitoral foi levantada pelo Advogado Geral da União, sustentando que Dilma pode comparecer a qualquer inauguração de obras públicas onde se encontre o presidente Lula. Para que, então, a Constituição estabeleceu a obrigação de ministros se desincompatibilizarem seis meses antes das eleições? Mesmo que viajem em aviões separados e que a candidata chegue aos palanques de bicicleta, não em veículos oficiais, ficará clara a preferência. A menos, é claro, que todos os candidatos à presidência sejam convidados e compareçam.
Mobiliza-se o Ministério Público para tentar impedir a aprovação, na Câmara, de projeto do deputado Paulo Maluf, já endossado pelos líderes dos partidos, visando amordaçar procuradores e promotores. Pelo texto, são previstas punições judiciais para integrantes do Ministério Público que agirem de má-fé ou propuserem ações temerárias.
Seria até uma discussão fascinante analisar medidas capazes de cercear certos excessos, que de resto acontecem em todas as profissões e categorias. Torna-se, porém, hilariante, essa proposta do deputado. E por razão muito simples: ele legisla em causa própria. Apresentou projeto capaz de impedir que vá parar na cadeia outra vez.
Além da subjetividade do enquadramento do Ministério Público, parecendo difícil definir o que é ação temerária ou má-fé em cada denúncia, salta aos olhos a existência de um conluio entre o polêmico ex-governador de São Paulo e o governo federal. Porque o palácio do Planalto também se mostra interessado em amordaçar procuradores e promotores. Não fosse assim e não estariam os líderes dos partidos, na Câmara, empenhados em aprovar a “lei da mordaça”. Cumprem ordens de cima, coisa que torna complicada a atividade legislativa.
A decisão cabe ao presidente Michel Temer, hoje enfiado num traje menor do que seu tamanho físico, jurídico e ético. Precisa continuar agradando o governo, sem o que corre o risco de ser garfado em sua pretensão de tornar-se candidato à vice-presidência na chapa de Dilma Rousseff. Mas deve, no reverso da medalha, apresentar-se à opinião pública como representante do Congresso, independente e voltado para o aprimoramento institucional. Ficaria mal exercendo o papel de algoz do Ministério Público. Mas se o preço for assistir a vice-presidência escapar-lhe das mãos…
Nem oMandrake
Faz décadas que o fabuloso Mandrake sumiu das revistas em quadrinhos, mas ninguém melhor para, num de seus célebres gestos hipnóticos, convencer-nos de que o Lula tem razão quando afirma poder um presidente da República ajudar candidatos ou candidatas sem usar a máquina pública. Não dá para imaginar S. Exa. pedindo votos para Dilma Rousseff como simples cidadão, morador de São Bernardo e metalúrgico aposentado. Só por mágica.
Outra questão a ser discutida neste período pré-eleitoral foi levantada pelo Advogado Geral da União, sustentando que Dilma pode comparecer a qualquer inauguração de obras públicas onde se encontre o presidente Lula. Para que, então, a Constituição estabeleceu a obrigação de ministros se desincompatibilizarem seis meses antes das eleições? Mesmo que viajem em aviões separados e que a candidata chegue aos palanques de bicicleta, não em veículos oficiais, ficará clara a preferência. A menos, é claro, que todos os candidatos à presidência sejam convidados e compareçam.
Voltarei e voltarás
Tudo que a gente possui tem um valor sentimental, assim volto-me agora movido pela saudade deste singelo espaço. Tenho dois blogs a cuidar, um vive antenado, atualizado que chova ou que faça sol:aluiziolacerda.zip.net preenche minha curiosidade e convicçoes, é um blog literalmente feito para quem gosta da atividade politica, todos os dias massageio meio ego, com informações, noticias, pontos de vista, defendendo ou atacando propostas de uma candidatura ou de outra. Faço isso cotidianamente, bem diferente do meu blog: Ponto de Vista Digital, esse é diferente, uso quando a saudade me bate no coração, quando sinto a necessidade de alimentá-lo, sei que por causa disso ele não é tão visitado quanto o primeiro, mas talvez tenha na otica do leitor, principalmente do seu acessante diário uma grande frustação por não dedicar o mesmo interesse. Peço desculpas aos amigos internautas, mas tudo tem um objetivo e finalidade, o Ponto de Vista Digital, é uma das coisas que o dono procura quando precisa, neste caso, ele agora veio preencher o vazio do meu pensamento, senti necessidade de escrever, de atualizar e dizer aos que são adeptos deste espaço: Voltarei sempre a expressar algo e espero que voltarás também sem maiores frustações a compreender essas justificativas, como mecanismo sobresalente do meu oficio de escrever. Muito obrigado e vamos continuar um dia e oito não a cumprir essa belissima tarefa de contatos.
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