terça-feira, 2 de junho de 2009

GARAPA E DEMOCRACIA


artigo

O cérebro consome energia para comandar os mecanismos do corpo humano. Essa energia tem a ver com comida; com nutrientes em quantidade e diversidade apropriadas para o desenvolvimento de uma criança.

E, como resultado, maior probabilidade de se ter um adulto saudável na sua estrutura física, emocional, intelectual e psíquica. Olha o círculo aí. Mas se faltar essa energia, o círculo fica trágico. Mais ainda se permanecer intacto muito tempo, pois se transforma em um núcleo cada vez mais duro e difícil de ser quebrado.
Há urgência, portanto, da sensibilidade e da inteligência de pessoas bem equilibradas para romper o círculo trágico da fome no mundo real.

Se ele não for rompido, passa a gerar sobreviventes famintos em condições subumanas que, naturalmente e apesar de tudo, se reproduzem em escala geométrica engordando a miséria no planeta. Como mostra José Padilha com "Garapa", seu último filme, rodado na zona rural e na periferia urbana do Ceará.

Em um Nordeste brasileiro onde ainda se encontram famílias analfabetas desdentadas movidas a açúcar, literalmente.
Não deixem de ver o filme, um dramático documentário em PB. E por que não a cores, se o céu nordestino costuma ser de um azul luminoso? Certamente para não assistirmos miséria crua.

Porque cinema também é estética. "Garapa" surge cinzento na tela, em nuances; granulado. Sem música. Mas com a fervura da água com açúcar se tornando na garapa enganadora da fome.
Paradoxalmente, o filme atinge na veia os ideológicos radicais. Por quê? Porque ao focalizar a rotina de três famílias miseráveis e famintas vai direto ao ponto-chave. O simples assistencialismo (privado ou público) não é solução; vale, sim, para a emergência.

E explicita que ideologias pouco adiantam se não houver de fato determinação política e honestidade para se aprender a socorrer essas pessoas. Ajudá-las a viver dignamente e a planejar suas famílias. Educar, educar e educar.
Desculpem-me as Ongs sérias. Porém, há um imenso grupo de organizações que parece não desejar acabar com a miséria.

É como a garapa, que atenua a dor da fome e não acaba com a dor de dente. Nem com a ignorância, nem com a vergonha da dor de sentir vontade de chorar... Meu Deus!
Em fevereiro de 1971, quando era proibido mostrar a pobreza no país, eu e o fotógrafo Walter Firmo convencemos o diretor-editor da revista Manchete, Justino Martins, a aprovar a nossa pauta de reportagem sobre a seca colossal que castigava o Nordeste fazia um ano.

Estávamos na ditadura militar; a pauta era a tragédia climática, a caatinga árida e os retirantes. No Ceará.
A 98 quilômetros de Fortaleza, encontramos quatro mil pessoas sem o que comer, bebendo lama salgada das poucas cacimbas (poços) que restavam. O nome do lugar: Curupira. Sem luz elétrica, telefone ou telégrafo. Suas ruas não tinham calçamento e as casas eram de taipa ou de varas. Meio de transporte, apenas o ônibus empoeirado que nos levara e alguns caminhões que transportavam flagelados para a capital do estado.
Crianças agonizavam de fome. Na casa de um bebê morto, o pai fizera o caixote "para colocar o anjo" e fora atrás de esmolas para o pano da mortalha. Ao voltar entregara à mulher o pano e um pacote, com farinha de mandioca e açúcar, para os outros cinco filhos que não comiam havia dois dias. O alimento fora comprado com a sobra das esmolas destinadas à mortalha.
Então, o menino de três anos perdeu a curiosidade pelos preparativos do enterro do pequenino cadáver ao seu lado e se concentrou na lata velha que lhe deram com um pouco de farinha e açúcar. Comeu com sofreguidão, graças ao "anjo".
Trouxemos uma reportagem de imagens impressionantes. Justino Martins projetou os slides para Adolfo Bloch. Impactado com a força estética do trabalho genial de Firmo, seu Adolfo concordou em publicar.

O problema era driblar o censor... Justino editou as fotos e o texto em oito páginas. Mas incluiu e destacou na abertura a frase de um discurso do presidente Médici, pronunciado em Recife, no ano anterior. A frase: "Apelo à imprensa de meu país para que aponte o que de bem e mal houver sem preocupar-se tanto com o impacto e sensacionalismo."
A revista foi para as bancas com a nossa reportagem intitulada assim: "Nordeste / A última seca". O censor não percebera a intenção do espírito jornalístico faminto de democracia.

Ateneia Feijó é jornalista e escritora. Trabalhou nos principais jornais e revistas do país - entre eles a extinta Manchete, o Jornal do Brasil e o Correio Braziliense


Fonte: Blog do Noblat

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