quarta-feira, 3 de junho de 2009

AUTOBIOGRAFIA PRECOCE

Washington Araújo - Um cidadão do Mundo

Nasci em 1959. Nem Brasília estava pronta, nem imaginávamos o sucesso que teria a Bossa Nova com João Gilberto, Tom Jobim e Nara Leão. A tropicália ainda era esboçada pelos jovens baianos.
O Brasil estava na era de progredir 50 anos em 5, slogan de JK. Meus pais, como nordestinos estilo progressista, se envolviam na formação de Ligas Camponesas e Paulo Freire escolhera Angicos, pequena cidade do interior norte-rio-grandense para implantar seu novo mé-todo de alfabetização de adultos.
Infância no interior do Paraná. Motivos políticos que eclodiriam em março de 1964 levaram minha família para o sul do país. Após 6 anos, retornavamos a Natal. Vidinha pacata de estudante em Macau e Assu.
Científico e curso técnico inconcluso em Natal. Paixão pela literatura universal: Twain, J. Fenimore Cooper, Dickens, Dumas. Eram a tais leituras obrigatórias. Michel Quoist com o diário de Dany era um incentivo direto a exercitar a escrita. Saint-Exupéry começa a exercer seu fascínio: “só há um luxo verdadeiro, o das relações humanas.”
A minha geração aprendera a ter na música sua válvula de escape. As letras de um Lennon, Dylan ou Joe Cocker tinham tanta importância enquanto filosofia de vida quanto os evangelhos de Lucas ou Mateus.
No Brasil ainda tínhamos a filosofia rebelde de uma Rita Lee e de um certo Raul Seixas. Gita e Ovelha Negra simbolizavam meados dos anos 70.
Nessa idade é comum que questões existenciais nos ocupassem a mente e deixassem, muitas vezes perplexo, o coração.
A violência nas cidades, as vítimas da tortura, os movimentos estudantís reprimidos nos tornavam por assim dizer uma geração da penumbra.
Nem dia, nem noite. Longos anos de penumbra que nos arrebatavam parte de uma juventude-promessa.
A fome que como epidemia grassava na África, os conflitos armados no oriente médio, a escalada da guerra fria e o crescimento dos países que compunham o terceiro mundo nos levava a perguntar se Deus, por acaso não havia nos esquecido: Por que lidar com esse povo?
Aos vinte anos somos muito solidários, sensíveis à dor dos outros e nesse caso pouco importava se o próximo sofria em Biafra, na Argélia ou no Camboja. Queríamos apenas ser contra este estado de coisas. Raciocinávamos que não eramos culpados por esse caótico estado de coisas.
Recebemos de herança um mundo em acelerado processo de desintegração moral, político e social. Uma herança pesada. Indesejável. A alienação parecia uma alternativa pouco convincente.
Os cursos superiores eram moldados de forma a não termos o espírito de corpo. Tudo ameaçava o stablishment. Um universitário ingressava na universidade dos créditos, pagando matérias em diversas turmas. Não mais existiria “a minha turma de faculdade”. O melhor estava reproduzido no jingle de um jeans: “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”.
E então eis que o espírito da contracultura, inconformismo, pegava minha geração, assim desprevenida. As barricadas dos estudantes parisienses em 1968 ainda podiam ser ouvidos no Brasil e o refrão de Geraldo Vandré “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, embora proibido, forneciam o combustível cumplice das mudanças.
Algo que sucedesse o naufrágio da juventude passada de “Hair” e da ingênua saudação de “Paz e Amor”. O Cinema Novo liderado por Glauber Rocha corria mundo. No Brasil espaço lhe era negado. No entanto “Terra em Transe” encantava a terra de Jean-Luc Godard.
Vivíamos o sonho de ter uma casa no campo, onde os livros e os amigos pudessem ser plantados, a esperança usasse óculos e “onde pudesse colher com amor a pimenta e o sal”. Frases soltas ao vento dos anos 70 que bem diziam de nosso espírito na época.
Aos 16 anos estava impressionado pela perspectiva de um mundo unido e pelas possibilidades que uma frase entesourava: “a Terra éum só país e os seres humanos seus cidadãos”. Sedento por algo que tivesse o gosto de eternidade e que me fizesse teorizar com pés práticos, anseiava por uma Causa a qual pudesse dedicar toda a minha vida, algo assim sem reservas, ilimitadamente. Sentia-me como representante de uma geração indecisa de seu papel no mundo. Como iríamos movê-lo para um novo patamar de progresso e realizações?
Uma coisa era certa. Estavamos prontos para revitalizá-lo, para transpor os belos ideais em ações concretas que objetivassem o bem comum, acima de meras questões individuais.
Com nostalgia recordo as tardes dos anos 70, envolvido em leituras de Herman Hesse (Sidarta/Demian), Marcuse (Eros e Civilização), Nietsche (Assim Falou Zaratrusta) ou em ver nas telas pela décima vez “2001 Uma Odisséia no Espaço”.
Vejo que tudo contribuía para um redirecionamento de minha sede interior, de busca do trans-cendente. “Os Setes Vales” e “As Palavras Ocultas”, ambos de Bahá’u'lláh (1817-1892) eram ingeridos como remédio sem contra indicações por meu espírito anelante.
Em meio a esta nova dimensão em que adentrava pairava a proposta global da Unidade do Genêro Humano, o novo estágio para o qual o mundo deveria conduzir seus esforços, uma vez que “todos os horizontes do mundo se encontram iluminados pela luz da unidade”.
Assim aconteceu que eu me tornasse escritor de artigos para jornais, conferencista em tantos auditórios do Brasil e do exterior, defensor de negros, índios, meninos de ruas e outros grupamentos vítimas de opressão e discriminação.
Em janeiro de 1985 encontro minha outra metade nas Minas Gerais, Ceres e dessa união nascem três maravilhosos rebentos: Thomas (1986), Jordana (1988), Anísa (1989) e Lara (1998). Quatro nomes que evocam a unidade do mundo: um inglês, um israelense, um árabe e outro… russo.
O amor à humanidade me levara a países como Índia, Israel, Egito e diversos países europeus, e americanos do sul e do norte. Em 1991 escreveria um livro-tributo aos sobreviventes indígenas na América.
Rapidamente esgotado no Brasil após uma bonita carreira que incluíra seu lançamento na Academia Brasileira de Letras e na ECO-92, agora se encontra em segunda edição na Espanha. E penso que surgirão outras incursões nessa área.
Tenho uma crença inabalável no destino glorioso da raça humana. Sou um cidadão do mundo. Em construção.

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