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Nos últimos dias me alimentara de frutas, batata doce e mandioca; precisava consumir alguma proteína animal. Daí concordara com o jovem maku, que falava português, em trocar uma lanterna por um pequeno pedaço de caititu moqueado. Ele participara da caçada ao porco selvagem. Sem sorrir, entregara-me o alimento embrulhado numa grande folha chamuscada.
E provocara-me:
- Na cidade, mulher branca com fome pega carne na geladeira. Tudo fácil!
Eu sorrira e respondera:
- Não, não é fácil assim. Na cidade a gente não caça, mas precisa de dinheiro para ter carne e dinheiro não nasce em árvore...
Estava na aldeia maku Santo Atanásio, no Alto Rio Negro, fronteira com a Colômbia, fazendo uma reportagem para a revista Manchete sobre a coca brasileira (o ipadu). Isso aconteceu em 1983 e marcou-me porque fora a primeira vez que via um índio se comportar daquela maneira. Até então, em diversas outras aldeias de índios aculturados, escutara discursos do tipo "aqui ninguém mata para roubar", "nossas crianças não são abandonadas" etc.
Porém, a politização era quase ingênua. Hoje, o tom da conversa é totalmente outro. Na semana passada, lideranças indígenas se reuniram em Brasília no sexto Acampamento Terra Livre a fim de consolidar as propostas para um novo Estatuto do Índio, cobrar do governo a criação do Conselho Superior de Política Indigenista e fazer pressão pela demarcação de todas as terras indígenas.
Nada demais se o caráter do documento final do encontro, divulgado na internet, não fosse um tanto equivocado. Por exemplo: "Lembramos que a dívida do Estado Brasileiro para com os nossos povos é impagável, que o mínimo que exigimos é que nos seja garantido a posse e o uso-fruto exclusivo das nossas terras, o pouco que nos sobrou, e nos deixem viver, neste país, que já foi todo nosso, conforme os nossos usos e costumes".
Sou solidária aos índios diante de racismo e quaisquer preconceitos. Que tenham suas terras atuais protegidas. Concordo plenamente que seus antepassados tiveram as deles invadidas por colonizadores, bandeirantes e aventureiros. Sofreram massacres e injustiças terríveis. Dito isto, não seria justo omitir que eles também se matavam em guerras de território entre as próprias tribos.
Outra verdade às vezes esquecida: este país nasceu, queiramos ou não, a partir da chegada dos portugueses, do convívio deles com os nativos e as nativas. Da população cabocla que foi se formando; com mamelucos, depois africanos, cafuzos e mestiços de diversas etnias. Com trocas e assimilações de todas as naturezas: materiais, físicas, culturais, lingüísticas, religiosas, míticas... Com muita dança e muita briga; paz e violência. Morte e vida.
Antes da chegada dos portugueses e dos africanos (trazidos como escravos) não havia o nosso país, não havia Brasil. Não haveríamos nós todos, hoje brasileiros miscigenados; com os mesmos genes em todas as camadas e classes sociais. O mundo seria outro. Portugal não seria como é. Ah, sim. Alemães, italianos, japoneses e outros povos vieram a ter relevância na nossa miscigenação a partir do século XX.
Então não está correto ongs e missionários estrangeiros se intrometerem nesta história, manipulando ideologicamente os brasileiros índios. Até porque os portugueses não foram piores nem melhores, mas totalmente diferentes dos espanhóis que colonizaram o restante da América Latina. Uma outra história.
Agora, o fato é que a população indígena brasileira cresce 4% ao ano, o dobro da população não-índia. Induzir grupos a se fecharem em nome da diferença costuma acabar muito mal. Já no caso das tribos que vivem isoladas na selva amazônica, sem contato com a civilização e em equilíbrio com o seu habitat, nada mais lógico do que respeitarmos o seu refúgio. Elas se tornam naturalmente guardiãs de reservas florestais e santuários de diversidade; no Brasil.
Ateneia Feijó é jornalista e escritora. Trabalhou nos principais jornais e revistas do país - entre eles a extinta Manchete, o Jornal do Brasil e o Correio Braziliense









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