
Lembra quando a gente se formava (primeiro ou segundo grau, ou curso universitário) e se fazia a maior onda em torno da escolha do orador da turma? Eu, por exemplo, fui oradora da minha turma de b-a-bá, lá pelo ano de 1967: “Querido Paraninfo, Senhoras, Senhores, meus colegas! Mais uma turma de doutores em b-a-bá se forma hoje...”
Como você vê, ainda me lembro do discurso, e cresci achando que falar em público era coisa de formatura ou comício eleitoral.
Mas, aqui na Suécia, não há festa de casamento, jantar, reunião familiar, aniversário ou enterro sem discurso. Não é brincadeira não! “Att hålla tal” (fazer um discurso, em sueco) é uma das primeiras coisas que a gente entende como essência da cultura local.
A antiga arte da Retórica ou Oratória foi matéria exigida nas escolas suecas até 1842. A partir da reforma do ensino naquele ano, a Retórica foi retirada do currículo escolar. Talvez porque, naquela época, a “arte de falar com razão e emoção”, no dizer da conhecida professora Barbro Fällman, fosse tida como “a arte de manipular”.
Mas, falar em público e falar bem não precisa ser manipulação. E o costume de fazer discursos continua firme e forte na cultura local. A maior parte dos discursos a que assisti ao longo dos anos, aqui, foram feitos para homenagear noivos em um casamento, ou um amigo que faz aniversário redondo (30, 40, 50 ou 60 anos), ou alguém que termina um doutorado ou se aposenta.
O incrível é que a tradicional timidez sueca faz desse costume local uma tortura autoinfligida. A maior parte dos suecos prefere morrer a falar em público. Há muitos que não aproveitam nem um segundo da festa, até a hora de falar e, depois, se encharcam de álcool para esquecer o que, quase sempre só para eles mesmos, foi um vexame. Outros bebem para criar coragem, e aí o vexame é quase garantido.
A palavra de ordem frente a um amigo que faz aniversário ou se casa é preparar o discurso e treinar, treinar, treinar... Há gente que só pensa nisso, durante semanas de insônia pré-festa! Winston Churchill teria dito que não há nada que requeira mais preparação prévia do que um bom discurso de improviso. Mas se eu tiver de ir a uma festa com um discurso preparado, acabou-se a festa para mim! Nas poucas vezes em que soltei a voz e discursei nas festas de amigos aqui, foi na base da emoção do momento, com o alto risco de me afogar em um rio de lágrimas e levar junto alguns companheiros de mesa.
É custoso, para a maior parte dos estrangeiros, acostumar-se ao costume local dos discursos e às longas listas de oradores, em qualquer festa mais significativa. Alguns de nós nunca aprendemos. Mas festa sem discurso, aqui, não é festa de verdade!
Por isso, os livros sobre como fazer um discurso vendem-se como pãozinho quente. E os cursos de oratória anunciam-se constantemente, nos jornais e na internet. Há também discursos já prontos, na rede, para você usar em caso de necessidade e falta de inspiração.
Eu fiz um curso na universidade, Retórica Prática, mais para aprender sueco que para aprender sobre a arte da Oratória. E, esta semana, tive a oportunidade de ouvir Barbro Fällman metralhar-nos, de maneira brilhante, com métodos e técnicas de argumentação. Aquela mulher pode me convencer a tomar qualquer decisão, com técnicas que ela maneja com incrível destreza, precisão e competência!
Mas, voltando aos discursos menos profissionais e às festas familiares, o fato é que surpreender um amigo com palavras de apreço em um momento importante da vida dele é, sem dúvida, um presente inesquecível! Por isso, as memórias de infância, as gafes do colegial, as viagens dos tempos de solteiros e os hobbies praticados juntos estão sempre na ordem do dia das homenagens.
Calejada, posso afirmar que, se você ainda não foi a um casamento de verdade, com uma longa lista de oradores e um jantar que dura pelo menos oito horas, tipo “Quatro casamentos e um funeral”, então você ainda tem algo a experimentar nesta vida.
Meu recorde foi uma festa de casamento de onze horas de duração. Eu não falava sueco e não entendia patavina! Depois, me explicaram que a festa foi assim, curtinha (“!”), devido aos costumes da família que, formada por cristãos-evangélicos tradicionais, também não contemplou a possibilidade de servir bebida alcoólica durante o jantar.
Ah, bom!
Leitora do blog, Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental. Escreve no Blog sempre às segundas e sextas.
Como você vê, ainda me lembro do discurso, e cresci achando que falar em público era coisa de formatura ou comício eleitoral.
Mas, aqui na Suécia, não há festa de casamento, jantar, reunião familiar, aniversário ou enterro sem discurso. Não é brincadeira não! “Att hålla tal” (fazer um discurso, em sueco) é uma das primeiras coisas que a gente entende como essência da cultura local.
A antiga arte da Retórica ou Oratória foi matéria exigida nas escolas suecas até 1842. A partir da reforma do ensino naquele ano, a Retórica foi retirada do currículo escolar. Talvez porque, naquela época, a “arte de falar com razão e emoção”, no dizer da conhecida professora Barbro Fällman, fosse tida como “a arte de manipular”.
Mas, falar em público e falar bem não precisa ser manipulação. E o costume de fazer discursos continua firme e forte na cultura local. A maior parte dos discursos a que assisti ao longo dos anos, aqui, foram feitos para homenagear noivos em um casamento, ou um amigo que faz aniversário redondo (30, 40, 50 ou 60 anos), ou alguém que termina um doutorado ou se aposenta.
O incrível é que a tradicional timidez sueca faz desse costume local uma tortura autoinfligida. A maior parte dos suecos prefere morrer a falar em público. Há muitos que não aproveitam nem um segundo da festa, até a hora de falar e, depois, se encharcam de álcool para esquecer o que, quase sempre só para eles mesmos, foi um vexame. Outros bebem para criar coragem, e aí o vexame é quase garantido.
A palavra de ordem frente a um amigo que faz aniversário ou se casa é preparar o discurso e treinar, treinar, treinar... Há gente que só pensa nisso, durante semanas de insônia pré-festa! Winston Churchill teria dito que não há nada que requeira mais preparação prévia do que um bom discurso de improviso. Mas se eu tiver de ir a uma festa com um discurso preparado, acabou-se a festa para mim! Nas poucas vezes em que soltei a voz e discursei nas festas de amigos aqui, foi na base da emoção do momento, com o alto risco de me afogar em um rio de lágrimas e levar junto alguns companheiros de mesa.
É custoso, para a maior parte dos estrangeiros, acostumar-se ao costume local dos discursos e às longas listas de oradores, em qualquer festa mais significativa. Alguns de nós nunca aprendemos. Mas festa sem discurso, aqui, não é festa de verdade!
Por isso, os livros sobre como fazer um discurso vendem-se como pãozinho quente. E os cursos de oratória anunciam-se constantemente, nos jornais e na internet. Há também discursos já prontos, na rede, para você usar em caso de necessidade e falta de inspiração.
Eu fiz um curso na universidade, Retórica Prática, mais para aprender sueco que para aprender sobre a arte da Oratória. E, esta semana, tive a oportunidade de ouvir Barbro Fällman metralhar-nos, de maneira brilhante, com métodos e técnicas de argumentação. Aquela mulher pode me convencer a tomar qualquer decisão, com técnicas que ela maneja com incrível destreza, precisão e competência!
Mas, voltando aos discursos menos profissionais e às festas familiares, o fato é que surpreender um amigo com palavras de apreço em um momento importante da vida dele é, sem dúvida, um presente inesquecível! Por isso, as memórias de infância, as gafes do colegial, as viagens dos tempos de solteiros e os hobbies praticados juntos estão sempre na ordem do dia das homenagens.
Calejada, posso afirmar que, se você ainda não foi a um casamento de verdade, com uma longa lista de oradores e um jantar que dura pelo menos oito horas, tipo “Quatro casamentos e um funeral”, então você ainda tem algo a experimentar nesta vida.
Meu recorde foi uma festa de casamento de onze horas de duração. Eu não falava sueco e não entendia patavina! Depois, me explicaram que a festa foi assim, curtinha (“!”), devido aos costumes da família que, formada por cristãos-evangélicos tradicionais, também não contemplou a possibilidade de servir bebida alcoólica durante o jantar.
Ah, bom!
Leitora do blog, Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental. Escreve no Blog sempre às segundas e sextas.
Fonte: Blog do Noblat









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