
Crianças em situação de rua são ´crucificadas´
Sensibilização: número de ´crucificados´ correspondente à quantidade de menores de idade que vivem “em situação de moradia de rua” em Fortaleza (Foto: Miguel Portela)
410 crianças e adolescentes carregaram cruzes simbólicas pela Beira-Mar até o aterro da Praia de Iracema
Nonato (nome fictício), hoje com 15 anos, baixa a cabeça e balança positivamente ao ser perguntado se sente saudades da mãe. O choro é segurado à força, mas não a lembrança da mãe, assassinada pelo pai do garoto há quase seis anos, na véspera do Dia de Finados. Desde então, a criança que se tornou adolescente vive nas ruas, já tendo experimentado loló, cola, solvente, maconha e crack. Para sustentar o vício, chegou até a roubar, quando só pedir dinheiro não dava resultado.Para alertar a sociedade e as autoridades que ainda existem centenas de Nonatos Brasil afora, foi realizada ontem à tarde, na Praia de Iracema, uma crucificação simbólica de 411 crianças e adolescentes.O número correspondente à quantidade de menores de idade que vivem “em situação de moradia de rua” em Fortaleza, conforme pesquisa realizada em 2007 por uma equipe interinstitucional composta por observadores da Prefeitura, do Governo do Estado e de entidades do terceiro setor.Meninos e meninas de 25 comunidades de Fortaleza — alguns ainda moradores de rua e muitos ex-moradores — carregaram cruzes pelo calçadão da Avenida Beira-Mar, terminando o ato no Aterro da Praia de Iracema. No mesmo horário, o protesto foi realizado em mais nove capitais brasileiras, em ação da Campanha Nacional Criança Não é de Rua.Segundo o coordenador nacional da campanha, Adriano Ribeiro, o objetivo imediato da ação é exigir do Governo Federal um levantamento nacional para quantificar quantas crianças e adolescentes vivem nas ruas no Brasil e o acesso delas a serviços básicos como educação e saúde. Depois, a exigência será pela formulação de uma política nacional de inclusão social dessas pessoas. “A crucificação é uma forma de sensibilizar a sociedade. São as cruzes cotidianas que eles carregam, como a fome, a indiferença, a drogadição, a falta de educação”, explicou.Muitas crianças que vivem nas ruas rejeitam voltar para casa e são amparadas por abrigos, albergues e casas de acolhimento. Foi o caso de Nonato, que hoje passa as noites no Espaço Viva Gente, mas segue perambulando pelas ruas durante o dia. O adolescente confessa que ainda tem raiva do pai hoje preso, mas garante que não faz mais uso de drogas. A mesma sorte não teve Paulo (nome fictício), 14, que vive nas ruas desde os oito anos.Ele diz ter vontade de sair da rua, mas se não o tirarem dali, assim continuará. A morte dos pais e a antipatia pela irmã que o “maltrata” são as razões para viver ao léu. Conta já ter usado cola e apanhado da polícia.Conforme a coordenadora pedagógica da Associação Barraca da Amizade, Iara Lima, que acolhe jovens no Mondubim e já foi educadora de rua por 10 anos, um dos grande problemas para convencer as crianças e os adolescentes a sair da rua é o envolvimento cada vez mais precoce deles com as drogas.
ÍCARO JOATHAN -Repórter- Diário do Nordeste









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